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Governo facilita licença ambiental especial para conter crise com Congresso

Decreto cria mecanismo para acelerar obras estratégicas e tenta evitar derrota política na votação de vetos ao projeto do licenciamento ambiental

O governo federal publicou nesta quarta-feira (15) um decreto que cria as bases para a implementação da Licença Ambiental Especial (LAE), um novo tipo de autorização voltada a obras classificadas como estratégicas, mesmo quando apresentem “significativa degradação do meio ambiente”. A medida foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, segundo informações publicadas pelo portal Agenda do Poder, representa um gesto político de aproximação com o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), aliado próximo do Planalto.

A iniciativa ocorre em meio à pressão de Alcolumbre pela exploração de petróleo na Margem Equatorial, especialmente na Bacia da Foz do Amazonas, projeto considerado crucial para impulsionar a economia do Amapá, seu estado de origem. Lula também apoia a liberação das atividades da Petrobras na região, apontada por técnicos como uma das maiores fronteiras energéticas ainda não exploradas do país.

Nesta quinta-feira (16), representantes da Petrobras e do Ibama devem se reunir para resolver pendências antes da liberação do primeiro poço exploratório na área.

Vetos de Lula e a tensão com o Congresso

O novo decreto surge num momento de forte tensão entre o Executivo e o Legislativo, que se prepara para votar os vetos de Lula à lei geral do licenciamento ambiental, aprovada em agosto. O presidente havia barrado dispositivos considerados prejudiciais à proteção ambiental, o que irritou a bancada ruralista e líderes do Centrão.

Alcolumbre convocou para esta quinta uma sessão conjunta do Congresso destinada à análise dos vetos. A tendência de reversão é reconhecida até por parlamentares da base governista, o que acendeu o alerta no Planalto. Caso os vetos sejam derrubados, a legislação poderá permitir licenças automáticas, flexibilização de regras da Mata Atlântica e redução de consultas obrigatórias a povos indígenas e quilombolas.

O projeto é chamado por ambientalistas de “PL da Devastação”, e o governo tenta evitar uma derrota política às vésperas da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em novembro, no Pará.

Divisões internas e pressão do agronegócio

Apesar da postura firme de Alcolumbre, que garantiu que a sessão “vai acontecer”, líderes políticos admitem a possibilidade de adiamento. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, e o senador Wellington Fagundes (PL-MT), que comanda o bloco formado por PL e Novo, confirmaram que ainda não há consenso sobre o texto.

Fagundes reconheceu que a sessão “ficará para depois” e afirmou que os senadores já foram avisados. Enquanto isso, técnicos da Casa Civil seguem negociando com a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) — que reúne mais de 300 parlamentares — sobre possíveis concessões.

A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura e vice-presidente da FPA, é uma das principais articuladoras pela derrubada dos vetos. Na terça-feira (14), 89 entidades do setor produtivo entregaram uma carta aos parlamentares pedindo que o Congresso restabeleça integralmente o texto aprovado. Segundo a Coalizão das Frentes Produtivas, o projeto “assegura previsibilidade aos empreendedores” e promove uma “gestão ambiental descentralizada”, ampliando o poder decisório de estados e municípios.

Como funcionará a Licença Ambiental Especial

O decreto estabelece a criação da Câmara de Atividades e Empreendimentos Estratégicos, encarregada de definir quais obras poderão se beneficiar da nova licença especial. O objetivo é agilizar o processo de autorização para projetos considerados essenciais ao desenvolvimento nacional.

A câmara será coordenada pela Casa Civil e contará com representantes de 11 ministérios, incluindo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). O grupo definirá os critérios de inclusão de empreendimentos na categoria de licença especial, com prioridade para obras do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Entre a pressão política e os compromissos ambientais

A criação da Licença Ambiental Especial simboliza o equilíbrio delicado que o governo busca entre atender aliados no Congresso e manter compromissos climáticos internacionais. Enquanto setores do agronegócio e aliados de Alcolumbre veem a medida como um avanço para destravar investimentos e gerar empregos, ambientalistas alertam para um risco de retrocesso nas políticas de preservação.

Para esses grupos, a flexibilização dos critérios de licenciamento enfraquece a fiscalização ambiental e pode comprometer o cumprimento das metas climáticas assumidas pelo Brasil. Já os defensores do decreto argumentam que a nova licença dará agilidade a obras estratégicas, especialmente na infraestrutura e no setor energético, em um momento de necessidade de crescimento econômico e geração de receita pública.

A medida, portanto, reflete o desafio central do governo Lula: conciliar desenvolvimento e sustentabilidade sem abrir frentes de desgaste político em um cenário de crescente pressão parlamentar e de visibilidade internacional.

Com informações do brasil247

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