Plano F, o ajuste neoliberal de Flávio Bolsonaro, não sobrevive a 24 horas de escrutínio público

A reação do senador Flávio Bolsonaro (PL) a propostas de ajuste fiscal atribuídas a seu entorno expôs, em menos de 24 horas, as contradições e fragilidades de uma agenda econômica de viés neoliberal em ano eleitoral. A avaliação é da colunista Adriana Fernandes, da Folha de S.Paulo, que analisou o episódio envolvendo o pré-candidato à Presidência e o debate sobre cortes de gastos públicos.

Segundo a jornalista, Flávio classificou como “fake news” a reportagem que apontava um plano inicial de ajuste equivalente a dois pontos percentuais do PIB, com medidas como limitar reajustes de aposentadorias e despesas sociais à inflação. A negativa pública, no entanto, entrou em choque com sinais emitidos por sua própria equipe econômica ao mercado financeiro e a setores empresariais.

Contradição entre discurso público e bastidores

De acordo com Adriana Fernandes, interlocutores do senador têm apresentado à Faria Lima a imagem de um candidato disposto a promover cortes duros de despesas — o que o colocaria como uma espécie de “ministro da tesourada” em um eventual governo. Ao mesmo tempo, o próprio Flávio Bolsonaro tenta se posicionar como alternativa ao presidente Lula, frequentemente atacado por aliados do bolsonarismo no campo fiscal.

A colunista destaca que as propostas discutidas nos bastidores não são novidade nem invenção. Entre elas, estariam medidas como a desvinculação de gastos com saúde e educação e a separação entre a política de valorização do salário mínimo e os reajustes da Previdência e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Essas ideias, no entanto, esbarram em forte resistência política e social, sobretudo por implicarem mudanças profundas em áreas sensíveis do gasto público.

Ajuste fiscal como “granada política”

Para Adriana Fernandes, o episódio evidencia um problema central para candidaturas alinhadas ao receituário neoliberal: a dificuldade de sustentar publicamente propostas de ajuste fiscal mais agressivas.

A colunista afirma que a negativa de Flávio Bolsonaro revela que esse tipo de agenda funciona como uma “granada no pé” de candidatos, especialmente quando exposta ao debate público. Medidas como desindexação de despesas — consideradas das mais difíceis de implementar — tendem a gerar forte reação popular e desgaste político.

Histórico contraditório no bolsonarismo

Adriana Fernandes também lembra que, no Congresso, Flávio Bolsonaro nunca se destacou como defensor consistente de políticas de ajuste fiscal durante o governo de Jair Bolsonaro. Propostas estruturais como a chamada PEC “DDD” (Desobrigar, Desindexar, Desvincular), apresentada em 2019 pelo então ministro da Economia Paulo Guedes, não avançaram com apoio efetivo do bolsonarismo.

Além disso, decisões do próprio governo Bolsonaro, como a rejeição ao fim do abono salarial e a aprovação da chamada PEC Kamikaze — que elevou gastos públicos em ano eleitoral — reforçam a percepção de inconsistência entre discurso e prática.

Pressão por clareza e risco eleitoral

Diante desse cenário, a colunista conclui que Flávio Bolsonaro terá de esclarecer de forma direta quais são suas propostas reais para o ajuste das contas públicas. Caso contrário, a ambiguidade pode ser interpretada de duas formas negativas: ou como tentativa de agradar simultaneamente mercado e eleitores, ou como falta de transparência sobre os impactos de suas propostas.

O episódio, segundo a análise, antecipa o ambiente de forte escrutínio que candidatos com agendas econômicas neoliberais enfrentarão nas eleições, especialmente quando medidas de corte de gastos atingem áreas sociais sensíveis e direitos consolidados.

Com informações do Brasil247

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