Ceilândia em Alerta — A jornada de trabalho e as condições oferecidas pelas empresas podem afetar diretamente a saúde mental, a produtividade e a vida familiar dos profissionais. A avaliação é da psiquiatra Lia Lopes, pós-graduada em medicina do trabalho, que defende jornadas mais equilibradas e destaca os riscos da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua durante seis dias consecutivos e tem um dia de descanso. O debate ganhou força após a aprovação, pelo Senado, de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim desse regime e dois dias de folga por semana. A discussão faz parte de um movimento mais amplo em defesa da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6×1.
Durante entrevista ao programa CB.Saúde, parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília, exibida na quinta-feira (15/10), Lia Lopes conversou com as jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte sobre os efeitos da sobrecarga profissional e os possíveis benefícios de mudanças na organização do trabalho.
Segundo levantamento do Instituto Locomotiva citado na reportagem, 67% dos brasileiros consideram que trabalhar seis dias seguidos prejudica a saúde mental.
Jornada equilibrada pode melhorar a produtividade
Na avaliação de Lia Lopes, a redução da jornada, quando acompanhada de boas condições de trabalho, pode beneficiar tanto os funcionários quanto as empresas. Entre os possíveis resultados estão a diminuição das faltas, a melhora na produtividade e a maior qualidade das entregas.
A psiquiatra também destaca que os efeitos positivos podem ultrapassar o ambiente profissional. Com mais tempo livre, os trabalhadores podem participar mais da vida familiar, acompanhar a educação dos filhos e cuidar da própria saúde.
O debate também envolve os impactos econômicos da mudança. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), abordado pelo TaguaCei, indica que o mercado de trabalho pode absorver os custos relacionados à redução da jornada e ao fim da escala 6×1.
Trabalho extra pode ajudar a reduzir a ansiedade financeira
Questionada sobre a possibilidade de os trabalhadores utilizarem um dos dias de folga para realizar atividades extras, a psiquiatra avaliou que essa escolha pode trazer benefícios em determinadas situações.
Segundo ela, uma atividade complementar que ajude a melhorar a renda e aliviar preocupações financeiras pode contribuir para reduzir a ansiedade. A possibilidade de organizar o próprio tempo também pode favorecer o equilíbrio entre as responsabilidades profissionais e pessoais.
A especialista ressalta, entretanto, que os efeitos dependem das circunstâncias de cada pessoa. O trabalho adicional não deve se transformar em uma nova fonte de sobrecarga que elimine o tempo necessário para descanso e recuperação.
Como reconhecer o adoecimento relacionado ao trabalho
O cansaço após uma jornada intensa nem sempre significa a presença de uma doença ocupacional. Para Lia Lopes, é importante observar quando o desgaste deixa de ser passageiro e passa a comprometer a relação do trabalhador com sua atividade profissional.
Entre os sinais de alerta estão a perda de satisfação com o trabalho, a falta de perspectiva, a sensação de desvalorização e os conflitos frequentes com colegas ou superiores.
A psiquiatra também chama a atenção para ambientes profissionais marcados por relações desgastantes e condições de trabalho inadequadas. Nesses casos, o problema pode ir além do cansaço habitual e exigir atenção especializada.
Mais tempo com a família também beneficia a educação
Outro ponto abordado na entrevista foi a relação entre a jornada de trabalho e o desenvolvimento das crianças. Para a psiquiatra, pais que dispõem de mais tempo para acompanhar a vida escolar e emocional dos filhos podem contribuir para um ambiente educacional mais equilibrado.
Quando os responsáveis não conseguem participar da rotina das crianças, parte das demandas de acolhimento e acompanhamento pode acabar recaindo sobre os professores, que já enfrentam suas próprias responsabilidades profissionais.
A ampliação do tempo disponível para a convivência familiar, portanto, pode produzir efeitos que vão além da saúde individual dos trabalhadores, alcançando também as relações familiares e a comunidade escolar.
Essa perspectiva está relacionada ao debate sobre os benefícios sociais da mudança, que inclui o direito ao descanso, ao cuidado e à convivência familiar, conforme discutido em reportagem do TaguaCei sobre o fim da escala 6×1 como direito ao cuidado.
Mudança exige diálogo entre trabalhadores e empregadores
Ao comentar as preocupações relacionadas à reorganização das jornadas, Lia Lopes defendeu o diálogo entre funcionários e empresas. Para ela, a discussão precisa considerar tanto as necessidades dos trabalhadores quanto a organização das atividades profissionais.
A psiquiatra também questionou o temor de que a mão de obra humana seja facilmente substituída por máquinas. Segundo sua avaliação, a tecnologia pode auxiliar em diferentes tarefas, mas o trabalho humano continua sendo fundamental.
A redução da jornada e o fim da escala 6×1 permanecem no centro do debate sobre as relações de trabalho no Brasil. Além dos efeitos sobre a produtividade, a discussão envolve o direito ao descanso, a prevenção do adoecimento e a possibilidade de conciliar a vida profissional com as responsabilidades pessoais e familiares.
Fonte: Correio Braziliense



