Ceilândia em Alerta — Apesar de a população negra representar a maioria do eleitorado do Distrito Federal, a presença de parlamentares pretos e pardos nos espaços de poder continua abaixo de sua proporção na sociedade. Nas eleições de 2026, das 34 cadeiras disputadas pelo DF na Câmara Legislativa (CLDF), na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, apenas 11 foram conquistadas por candidatos que se autodeclaram negros. O cenário evidencia obstáculos relacionados ao racismo estrutural, à desigualdade econômica e à distribuição de recursos para campanhas eleitorais. O tema também reforça a importância da representatividade política na construção de políticas públicas para a população do Distrito Federal.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) citados pelo Correio Braziliense, 60,88% do eleitorado do DF é composto por pessoas pretas e pardas. Desse total, 49,17% se declaram pardas e 11,71%, pretas.
A diferença entre a composição racial do eleitorado e o perfil dos parlamentares eleitos demonstra que o direito ao voto, por si só, não elimina as barreiras que dificultam o acesso de lideranças negras aos cargos públicos. Especialistas apontam que fatores econômicos, territoriais e partidários influenciam as condições de participação nas disputas eleitorais.
Racismo estrutural e desigualdade no financiamento
A cientista política Evelyn Apolinaria, coordenadora-geral do Observatório do Congresso, atribui a baixa representatividade negra a um conjunto de obstáculos que se reforçam mutuamente.
Segundo ela, o Distrito Federal apresenta uma concentração de renda em regiões centrais, enquanto uma parcela expressiva da população negra vive nas regiões administrativas periféricas. Essa desigualdade pode dificultar o acesso a recursos financeiros, redes de influência e visibilidade política.
A especialista também aponta que as direções partidárias tendem a favorecer candidaturas que já possuem estrutura e reconhecimento público. Na avaliação dela, a distribuição desigual de recursos e as dificuldades de fiscalização do financiamento eleitoral contribuem para manter esse cenário.
A sub-representação, acrescenta Evelyn, pode reduzir a participação de parlamentares negros em espaços estratégicos do Legislativo, como comissões e mesas diretoras, além de limitar a prioridade concedida a temas como igualdade racial e segurança pública.
Para enfrentar o problema, ela defende transparência na distribuição dos recursos partidários, critérios claros para a escolha de candidatos e programas permanentes de formação de novas lideranças.
O cientista político Fabio Vidal, mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e autor da dissertação A raça na casa do povo, também considera que a desigualdade racial se reflete na representação política.
Segundo o pesquisador, as diferenças de renda, escolaridade, acesso a redes de contato e oportunidades profissionais influenciam as condições de uma candidatura chegar competitiva às urnas.
Vidal observa ainda que campanhas eleitorais em todo o território do DF exigem recursos e estrutura, o que pode dificultar a participação de lideranças comunitárias que não contam com apoio financeiro suficiente.
O pesquisador defende medidas para tornar a distribuição de recursos eleitorais mais equilibrada e aperfeiçoar a verificação das informações de autodeclaração racial dos candidatos.
Parlamentares defendem mais espaço para lideranças negras
Entre os parlamentares eleitos para a Câmara Legislativa, Max Maciel (PSol), que se autodeclara pardo, foi reeleito como o deputado distrital mais votado do DF, com 92,2 mil votos.
Para ele, a sub-representação negra está relacionada ao racismo estrutural e à concentração de poder econômico. O deputado avalia que a distribuição desigual de recursos financeiros e de tempo de rádio e televisão impede que todos os candidatos disputem as eleições em condições equivalentes.
Max Maciel defende que lideranças das periferias tenham mais oportunidades de ocupar cargos públicos, para que suas experiências e demandas estejam presentes nos espaços de decisão.
Chico Vigilante (PT), autodeclarado preto, também foi reeleito e caminha para o sexto mandato na CLDF, após receber 50 mil votos. O parlamentar considera que ampliar a presença de pessoas negras no Legislativo é fundamental para combater desigualdades históricas.
Ele defende que os partidos destinem mais recursos às candidaturas pretas e pardas e ampliem a conscientização sobre a importância da diversidade racial no Congresso Nacional e na Câmara Legislativa.
A necessidade de preparar novas lideranças também é destacada por Pepa (PP), autodeclarado pardo e reeleito com 29,8 mil votos. Para ele, as legendas devem investir na formação política de representantes comunitários e oferecer condições para que pessoas com atuação reconhecida nas cidades do DF possam disputar eleições.
Ricardo Vale (PT), também autodeclarado pardo, foi reeleito com 29,4 mil votos. O distrital afirma que a desigualdade no financiamento e na visibilidade das campanhas continua prejudicando candidaturas negras.
Ele defende que os partidos ampliem a formação de lideranças, abram espaço nas direções partidárias e distribuam os recursos de maneira justa desde o início do período eleitoral.
Martins Machado (Republicanos), autodeclarado pardo, conquistou a reeleição com 27,5 mil votos. O parlamentar destaca a importância de criar oportunidades para a população das regiões mais vulneráveis, com investimentos em esporte, educação e qualificação profissional.
Na avaliação dele, ampliar a representatividade exige medidas concretas para reduzir desigualdades e permitir que novas lideranças negras cheguem aos espaços de poder.
Keka Bagno destaca importância de transformar representatividade em políticas públicas
Única mulher negra eleita para a Câmara Legislativa do Distrito Federal, Keka Bagno (PSol) recebeu 40,5 mil votos. Autodeclarada preta, a deputada considera que a presença de pessoas negras nos cargos públicos precisa resultar em mudanças nas prioridades do Estado.
Para ela, não basta ampliar a quantidade de parlamentares negros: é necessário incorporar o combate ao racismo às decisões orçamentárias, à elaboração das leis e à execução de políticas públicas.
A deputada defende atenção especial às necessidades das regiões periféricas, principalmente nas áreas de transporte, moradia e saúde pública.
A discussão sobre representatividade também envolve a capacidade de os parlamentares influenciarem a destinação de recursos e a formulação de medidas que atendam às demandas da população negra.
Especialistas defendem mudanças nos partidos e nas regras eleitorais
Para Fabio Vidal, a chamada política de presença, conceito associado à cientista política Anne Phillips, ajuda a compreender a importância de grupos historicamente excluídos ocuparem os espaços de decisão.
Nessa perspectiva, a presença de parlamentares negros pode contribuir para ampliar o debate sobre questões como violência policial, saúde da população negra e desigualdades sociais.
O pesquisador defende medidas para melhorar a fiscalização das informações raciais declaradas pelos candidatos, garantir a distribuição antecipada dos recursos eleitorais e impedir que partidos que descumprem regras de financiamento e cotas sejam beneficiados por anistias.
As propostas buscam reduzir as desigualdades que afetam a competição eleitoral e ampliar as oportunidades para candidaturas negras.
Além dos parlamentares citados, o Correio Braziliense informou que procurou os deputados federais eleitos Fábio Felix (PSol) e Reginaldo Veras (PV), assim como os distritais Roosevelt Vilela (PL), Wellington Luiz (MDB) e Rogério Morro da Cruz (PSD). Segundo o jornal, eles não responderam aos questionamentos até o fechamento da reportagem, permanecendo aberto o espaço para manifestações.
O desafio da representatividade negra no Distrito Federal, portanto, vai além da quantidade de candidatos eleitos. Envolve também a distribuição de recursos, o funcionamento dos partidos e a criação de condições para que diferentes segmentos da população participem efetivamente das decisões políticas.
Fonte: Correio Braziliense



