No G7, Lula critica ‘políticas pró-bilionários’ e defende soberania

Em sua 10ª participação em cúpulas do G7 (grupo das sete maiores economias industrializadas desenvolvidas), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a tribuna da reunião ampliada, em Évian (França), nesta terça-feira (16), para tecer uma dura crítica ao modelo econômico global e enviar recados diretos, ainda que sem menções nominais, às políticas do governo de Donald Trump.

Sob o tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”, o discurso de Lula foi marcado pela defesa intransigente da soberania nacional, pelo combate à extrema concentração de riqueza e pela exigência de que a transição energética não reproduza velhas desigualdades coloniais.

A era dos trilionários e a falência do neoliberalismo

O ponto de partida da análise de Lula sobre a economia global foi um marco histórico e simbólico: a criação do primeiro trilionário do planeta. Sem citar Elon Musk nominalmente, mas referindo-se diretamente ao seu recente status após a oferta pública da SpaceX, o presidente brasileiro escancarou o abismo social do século 21.

“O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial. A extrema concentração de riqueza decorre de décadas de políticas pró-bilionários”, disparou Lula.

Ele aproveitou o dado para decretar a falência dos dogmas que pautaram as últimas décadas, afirmando que o “neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”. Para o líder brasileiro, o ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo — clara alusão à guerra comercial movida por Washington — são “respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”.

Soberania, crime organizado e o recado a Washington

O discurso de Lula ocorreu em um momento de alta tensão diplomática com os Estados Unidos. Recentemente, o governo Trump classificou as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, uma medida que, na legislação norte-americana, abre margem para intervenções militares unilaterais.

Lula antecipou-se a qualquer justificativa para ingerência externa ao tratar o crime organizado como um problema de desenvolvimento e segurança pública que exige cooperação, não imposição. “O crime organizado aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas. Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados”, enfatizou.

O presidente ainda rebateu a narrativa norte-americana de que o Brasil é um paraíso do narcotráfico, lembrando que o enfrentamento ao tráfico de drogas não pode ser dissociado da lavagem de dinheiro e do tráfico de armas, defendendo o uso de canais institucionais como a Interpol para rastrear ativos, e não a militarização das fronteiras.

Dívida impagável e o colapso da solidariedade internacional

A ofensiva de Lula também mirou a hipocrisia dos países ricos em relação à ajuda humanitária e climática. O presidente denunciou uma “queda histórica” de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento no último ano, destacando o corte de 40% no financiamento do Programa Mundial de Alimentos — uma consequência direta da política de desfinanciamento de organismos multilaterais promovida por Trump.

Lula traduziu os números em sofrimento humano e apontou a armadilha do endividamento do Sul Global: os países em desenvolvimento transferem US$ 1,4 trilhão por ano apenas em serviços da dívida, um valor sete vezes superior a toda a ajuda recebida dos países ricos. A frase de efeito do discurso resumiu a urgência de uma reforma no sistema financeiro global: “Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças”.

Minerais críticos e o fim do neocolonialismo verde

Por fim, Lula abordou a geopolítica do futuro: a corrida pelos minerais críticos necessários para a transição energética e a inteligência artificial. O presidente brasileiro alertou os líderes do G7 para o risco de um “neocolonialismo verde”, onde nações ricas em recursos naturais continuem sendo meras exportadoras de matéria-prima barata.

“As transições energética e digital não podem reproduzir padrões históricos que concentram benefícios econômicos em poucos atores”, defendeu. Lula exigiu que os países detentores dessas reservas participem das etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva, exigindo industrialização local e transferência de tecnologia.

Postura diplomática independente

A postura de Lula em Évian reflete a estratégia do Itamaraty de manter o diálogo, mas sem abrir mão das divergências. Apesar de ser um convidado e não ter poder de veto, o Brasil sinalizou seu desconforto com as pautas impostas pelo G7: dos três comunicados preparados até o momento, Brasília endossou apenas o texto sobre o combate ao câncer, rejeitando as declarações sobre parcerias internacionais e ebola por não acomodarem a posição da diplomacia brasileira.

Entre o risco de novas tarifas de 25% impostas pelos EUA e a necessidade de articular o Sul Global, Lula usou o G7 não para pedir permissão, mas para estabelecer as linhas vermelhas do Brasil no tabuleiro internacional.

*Com informações do Vermelho

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