Financiamento de filme por Daniel Vorcaro, suspeitas de rachadinha, relações com milicianos e investigações envolvendo aliados políticos ampliam os questionamentos sobre o candidato do PL.
Ceilândia em Alerta – O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) chega ao segundo turno das eleições de 2026 enfrentando questionamentos sobre sua trajetória política e uma investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). O inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a vida de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Além do caso envolvendo o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, o parlamentar tem seu nome associado a controvérsias antigas, incluindo suspeitas de rachadinha, relações políticas com pessoas investigadas por envolvimento com milícias e a defesa jurídica de policiais acusados de homicídio.
As questões ganharam destaque após o debate presidencial realizado pela TV Bandeirantes, no domingo (18), quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrou explicações do adversário e propôs a abertura dos sigilos bancário e telefônico das famílias dos dois candidatos.
Nas redes sociais, expressões relacionadas ao senador, como “Flávio Miliciano”, “Flávio Ana Clara” e “Flávio Comando Vermelho”, ganharam destaque nas buscas após o confronto televisivo.
Banco Master, crime organizado e defesa de policiais
Um dos episódios de maior repercussão envolve a negociação de US$ 24 milhões entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse. Documentos divulgados pela imprensa indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram transferidos para uma estrutura financeira nos Estados Unidos vinculada ao projeto cinematográfico.
Mensagens obtidas durante as investigações mostram a proximidade entre o senador e o banqueiro. Flávio sustenta que os recursos se destinavam exclusivamente ao patrocínio privado de uma produção cinematográfica, negando qualquer contrapartida irregular.
O caso ganhou maior dimensão após a crise do Banco Master, que provocou prejuízos a fundos públicos de previdência. A RioPrevidência, responsável pela previdência dos servidores estaduais fluminenses, teria aplicado aproximadamente R$ 970 milhões na instituição financeira.
Outro ponto envolve aliados políticos do senador no Rio de Janeiro. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), foi preso em investigação relacionada a suspeitas de favorecimento ao contraventor conhecido como Adilsinho.
Já Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e aliado do grupo político de Flávio, foi preso em investigação da Polícia Federal que apura movimentações financeiras suspeitas, supostos acordos com o Comando Vermelho e vínculos com milicianos.
A atuação profissional de Flávio como advogado também entrou no debate eleitoral. Em 2024, ele assinou um recurso no Superior Tribunal de Justiça em defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pela morte de Ana Clara Machado, de cinco anos.
A criança foi atingida por um disparo de fuzil durante uma operação policial em Niterói, em fevereiro de 2021. Segundo a acusação, o agente teria efetuado disparos em direção a uma área residencial, colocando moradores em risco.
O senador também integrou a defesa de outros quatro policiais militares denunciados por uma emboscada que resultou na morte de quatro pessoas no Morro do Vidigal, em 2020.
A atuação como advogado, por si só, não representa participação nos crimes atribuídos aos clientes, mas passou a integrar os questionamentos políticos feitos ao candidato durante a campanha.
Rachadinha, emendas parlamentares e relações com milicianos
As suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro não começaram na atual disputa presidencial. Durante sua passagem pela Alerj, entre 2003 e 2018, o parlamentar foi investigado por um suposto esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários de seu gabinete.
De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar, seria responsável por operacionalizar a chamada rachadinha. O órgão chegou a denunciar Flávio por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Parte das investigações também alcançou uma franquia da Kopenhagen, da qual o senador era sócio. O Ministério Público suspeitava que o estabelecimento teria sido utilizado para movimentar recursos de origem irregular, apontando depósitos em dinheiro e operações consideradas incompatíveis com o faturamento declarado.
As investigações sobre transações imobiliárias do parlamentar também levantaram questionamentos sobre a origem de recursos utilizados na aquisição de imóveis.
Flávio nega as acusações e afirma que as investigações relacionadas à rachadinha foram anuladas pela Justiça.
Outro episódio envolve Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), apontado pelo Ministério Público como liderança de uma milícia no Rio de Janeiro. Durante seu mandato como deputado estadual, Flávio homenageou o policial, enquanto a mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam em seu gabinete.
Também surgiram questionamentos sobre a destinação de emendas parlamentares. Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Robson Calixto, conhecido como Peixe e condenado no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, indicam conversas com uma assessora do senador sobre a liberação de aproximadamente R$ 200 mil.
Os recursos foram destinados a uma entidade ligada aos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, apontados como mandantes do assassinato da parlamentar.
Flávio afirma que seu gabinete indica as emendas, mas não participa da escolha das empresas contratadas pelas entidades beneficiadas.
O nome do senador também apareceu em apurações relacionadas ao esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicaram que uma conta identificada com seu nome esteve associada ao acesso administrativo bancário de uma empresa de um advogado investigado. O parlamentar nega envolvimento nas fraudes.
Apesar da repercussão das denúncias, é necessário distinguir investigações em andamento, acusações formalizadas e processos anulados de condenações judiciais definitivas. A existência de relações políticas ou profissionais com pessoas investigadas não comprova, isoladamente, participação em atividades criminosas.
Na reta final da campanha, esses episódios ampliam a pressão por esclarecimentos sobre o histórico político e financeiro de Flávio Bolsonaro. O senador mantém sua negativa de envolvimento em crimes, enquanto o inquérito sobre os recursos destinados ao filme Dark Horse permanece como a investigação formal que o tem diretamente como alvo no STF.
Fonte: Brasil de Fato. Informações complementares: Folha de S.Paulo.



