Donald Trump afirma que a italiana Giorgia Meloni implorou para tirar foto com ele. Primeira-ministra denuncia “declarações fabricadas” do presidente norte-americano e cancela viagem oficial de seu chanceler a Washington
Uma declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, estremeceu a relação entre dois aliados políticos, ideológicos e comerciais. “Ela (Meloni) provavelmente está feliz por eu ter conversado com ela. Eu não tinha que falar com ela. Ela implorou a mim que tirasse uma foto com ela. Ela queria muito uma foto comigo. Eu não teria tirado, mas fiquei com pena dela”, afirmou Trump, por telefone, à emissora de televisão italiana La7, transmitida nesta sexta-feira (19/6). A reação de Meloni veio em um vídeo publicado pela premiê nas redes sociais. “Estou perplexa. Não sei por que o presidente dos Estados Unidos age dessa maneira com seus aliados. Não é a primeira vez que isso acontece. Só posso dizer que é lamentável que ele não demonstre a mesma determinação contra os inimigos do Ocidente e as lideranças com as quais se mostra mais condescendente”, disse a chefe de governo, ao denunciar declarações “fabricadas” pelo republicano. “Há uma coisa de que ele precisa se lembrar: nem eu nem a Itália jamais imploramos.”
A resposta da Itália não ficou apenas no vídeo de Meloni e passou a efeitos práticos. O ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani, cancelou a viagem a Washington, que estava marcada para ocorrer neste domingo (21/6) e segunda-feira (22). Ele classificou as declarações de Trump como “graves e ofensivas”. Por sua vez, o ministro da Justiça, Carlo Nordio, denunciou uma “ferida dolorosa” para as relações entre a Itália e os EUA. “Essas brincadeiras não fazem bem a ninguém”, reagiu o ministro da Defesa, Guido Crosetto.
A amizade entre italianos e americanos sofreu os primeiros abalos com a guerra no Irã. Em abril, Trump tinha criticado Meloni por não se envolver no conflito. O republicano chegou a dizer que ficou depecionado com a “falta de coragem” da chefe de governo da Itália em não aderir a uma aliança contra o regime teocrático islâmico. “Fiquei surpreso. Achei que ela tinha coragem, mas me enganei”, declarou o titular da Casa Branca ao jornal Corriere della Sera, de Roma. Na ocasião, Trump qualificou Meloni de “inaceitável”.
Também em abril, declarações de Trump sobre Leão XIV causaram mal-estar na Itália. O presidente dos EUA referiu-se ao papa como “fraco” e “péssimo para a política externa”. Meloni rebateu e chamou as críticas de Trump de “inaceitáveis”. “Considero inaceitáveis as palavras do presidente Trump sobre o Santo Padre. O papa é o chefe da Igreja Católica, e é justo e normal que ele peça a paz e condene todas as formas de guerra”, afirmou em nota.
Nathalie Tocci — diretora do Istituto Affari Internazionali (em Roma), professora da Universidade Johns Hopkins e ex-conselheira especial dos chefes de diplomacia da União Europeia (Federica Mogherini e Josep Borrell) — lembrou ao Correio que a ruptura entre Meloni e Trump havia ocorrido quando o presidente dos EUA atacou o papa Leão XIV. “Meloni apoiou o líder católico, e o americano a criticou. Ela, então, tentou (ingenuamente) fazer as pazes em Evian. Acho que, agora, a ruptura tornou-se difícil de consertar”, disse.
De acordo com Tocci, nacionalistas de extrema-direita inevitavelmente acabam entrando em conflito, por definição. “Trump atacou Meloni como um populista nacionalista, ela respondeu irritada como uma nacionalista de extrema-direita”, observou. A especialista afirmou ao Correio que não vê a possibilidade de sinceras desculpas de Trump à Itália, mas considerou “limitados” os danos às relações ítalo-americanas.
EU ACHO…

“Giorgia Meloni manterá um perfil discreto e evitará novos conflitos com Trump. A relação institucional, assim como as relações econômicas, sociais, militares etc. entre a Itália e os EUA, continuará. Mas acho que agora está claro para todos os líderes europeus, e finalmente também para Meloni, que ter uma relação política verdadeiramente boa com Trump é impossível.”
Nathalie Tocci, diretora do Istituto Affari Internazionali (em Roma), professora da Universidade Johns Hopkins



