Segundo relatórios do SEI, aproximadamente, mil pacientes do Iges-DF deixaram de ser transportados para atendimento por atraso de ambulância
Por atraso da ambulância, 1.059 remoções de pacientes foram canceladas nas unidades do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), entre de janeiro e maio de 2026.
Ou seja, 1.059 pessoas doentes deixaram de ser transportadas para receber a assistência médica necessária em unidades de saúde por demora ou ausência de ambulância disponível. O mapeamento dos cancelamentos está registrado no processo do contrato do serviço no Sistema Eletrônico de Informações (SEI) do DF.
O Iges-DF contratou a empresa UTI Vida para prestação do serviço de ambulância em 2022, pelo valor inicial de R$ 37.745.565,96. O instituto prorrogou o contrato com uma série de aditivos. Os mais recentes somam aproximadamente R$ 32 milhões.
Ao longo dos anos, houve registro de uma série de falhas da empresa. Ambulâncias sucateadas e até mesmo motoristas desabalitados já foram denunciados.
Em 2024, também por conta do atraso de uma ambulância, o bebê Enzo Gabriel, de 1 ano, morreu na UPA do Recanto das Emas, enquanto aguardava transporte para o Hospital Materno Infantil (Hmib). Na época, o Iges-DF reconheceu que houve demora “muito acima do previsto no contrato de prestação de serviço”.
O menino deu entrada na UPA com dificuldades de respirar. O diagnóstico preliminar apontou para bronquiolite, pneumonia e asma. Em seguida, o menino foi intubado e precisava ser transferido para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A ambulância não chegou a tempo e a criança morreu.
Dois anos depois, os atrasos continuam, conforme mostra o detalhamento abaixo:
- Janeiro – 209
- Fevereiro – 112
- Março – 189
- Abril – 184
- Maio – 365
Segundo o relatório mensal do contrato de abril de 2026, houve registro de atrasos significativos nas unidades de pronto atendimento (UPA) do Recanto das Emas e Planaltina. Como consequência, houve atraso em diagnósticos e cancelamentos de atendimentos assistenciais.
As falhas comprometeram diretamente a continuidade da linha de cuidado, interromperam planos terapêuticos e aumentaram o tempo de permanência dos pacientes na unidade.
No Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), 18 pacientes perderam procedimentos agendados por atraso no serviço de ambulância. Além disso, em outro caso, a viatura não tinha um item de segurança para o transporte do usuário: um cilindro de O2.
No caso da UPA de Ceilândia II, os atrasos recorrentes levaram lentidão ao giro de leitos da unidade. Em alguns casos, internos deixaram a rede pública de saúde sem a conclusão do tratamento por conta da demora do serviço de transporte.
De acordo com o relatório de março de 2026, um paciente da UPA de Vicente Pires aguardou quatro dias para ser encaminhado para o Hospital de Base do DF (HBDF). Após o transporte e o início do tratamento, a UTI Vida removeu o paciente de volta para UPA sem aguardar a devida reavaliação e decisão da equipe médica do Base.
Serviço insatisfatório
Em 14 de janeiro de 2026, a Coordenação de Penalidades (COPEN) e a Diretoria de Atenção à Saúde (DIASE) do Iges-DF, receberam um relatório apontando falhas na prestação do serviço em dezembro de 2025.
“Foram identificadas irregularidades na execução contratual, evidenciando que o serviço não vem sendo executado de forma satisfatória, com impacto direto na adequada prestação assistencial”, destacou o documento.
No entanto, segundo o mesmo ofício, não haveria condições para a suspensão do contrato. “Em razão da natureza essencial dos serviços prestados, notadamente no contexto da assistência à saúde, não se mostra viável, no momento, o distrato contratual, até que se viabilize nova contratação que assegure a continuidade do serviço sem prejuízo assistencial”, ponderou o documento.
Em 28 de maio 2025, segundo o processo no SEI, os responsáveis pelo monitoramento do contrato processos administrativos para apuração de penalidades, referentes aos meses de março e abril.
Licitação
Diante de possíveis irregularidades, o Tribunal de Contas do DF (TCDF) suspendeu a contratação por licitação do serviço de transporte de pacientes por ambulâncias Iges-DF, nesta quarta-feira (17/6). A licitação foi dividida em dois lotes para atender as regiões Norte e Sul do DF, com 100 ambulâncias. O valor inicial global foi de R$ 101 milhões.
A decisão da Corte vem logo depois do Iges-DF desqualificar a empresa vencedora da licitação e chamar a segunda colocada pagando R$ 10 milhões a mais, mesmo durante o determinação de suspensão liminar.
Apesar das falhas na prestação de serviço, a UTI Vida foi habilitada a participar do certame, ficando em quarto lugar, após apresentar um lance R$ 20 milhões mais alto do que a primeira colocada.
Outro lado
O Iges-DF informou em nota ao Metrópoles que as ocorrências registradas ao longo da execução do contrato são permanentemente acompanhadas pelas áreas técnicas e de fiscalização e sempre que há identificação de irregularidades, são adotadas as medidas administrativas cabíveis.
“O Instituto destaca que a manutenção da contratação vigente decorreu da necessidade de assegurar a continuidade de um serviço indispensável à assistência em saúde, evitando riscos de descontinuidade e potenciais prejuízos ao atendimento da população até a conclusão do novo processo de contratação, atualmente em fase final de tramitação”, diz a nota.
“O IgesDF instaurou regular procedimento licitatório destinado à contratação de empresa especializada na prestação de serviços continuados de remoção externa de pacientes, por meio de transporte sanitário coletivo, ambulâncias de suporte básico e ambulâncias de suporte avançado”, informou.
O Metrópoles também em contato com a UTI Vida, mas não houve resposta até a última atualização da reportagem. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.



