Numa reação reveladora sobre o grau de desorientação que atinge o governo Bolsonaro quando o assunto é reforma da Previdência, o ministro Onyx Lorenzoni chegou a ameaçar os brasileiros, ontem, com uma comparação indecente.
Referindo-se às bases da economia chilena, país pioneiro na implantação do regime de capitalização individual de aposentadorias que está no coração da proposta Guedes-Bolsonaro, o ministro disse: “No período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue. Triste, o sangue lavou as ruas do Chile…”
Inaceitável em qualquer época, digna de um pedido de explicações por parte do Congresso de um país onde a democracia é cláusula pétrea, a referência do ministro foi feita na véspera da primeira mobilização — pacifica, obviamente — de sindicatos e entidades populares para barrar reforma da Previdência que Bolsonaro-Guedes querem implantar no país com apoio do sistema financeiro e do grande empresariados.
São protestos que não devem ser enfrentados com ameaças. Afinal, nem os militares, que ocupam papel essencial na sustentação cotidiana do governo Bolsonaro, defendem a reforma quando ela se aproxima dos próprios bolsos.
Anunciada como a prova de que os sacrifícios seriam repartidos entre todos, a reforma na previdência dos militares — que usufruem do mais caro sistema de aposentadorias do setor público — acaba de ser divulgada. Revelou-se uma proposta pífia.
Enquanto o conjunto dos brasileiros e brasileiras estão sendo chamados a apertar os cintos para economizar 1 trilhão em dez anos, a economia do setor militar ficará em R$ 10,4 bilhões, ou 1% do total a ser economizado pelo país inteiro.
Objetivo estratégico do projeto Guedes Bolsonaro, a criação de um sistema de capitalização privada em vigor no Chile é um fiasco no mundo inteiro — e será um desastre particularmente doloroso num país como o Brasil. Os empresários terão direito a uma vantagem enorme. Se hoje eles são obrigados por lei a colaborar com a aposentadoria dos funcionários que têm carteira assinada, entregando 2 reais para cada real depositado pelo empregado, pelo sistema de capitalização a aposentadoria se torna um problema exclusivo do trabalhador.
Imagine-se o que irá acontecer, no Brasil, país onde 63% da população diz que já não tem renda suficiente para sobreviver, 33% se consideram muito endividados e só 13% poupam com regularidade.
A partir das novas regras, que instituem a idade mínima para homens e mulheres, elevam o tempo de contribuição, e mudam as bases de cálculo para baixo, o resultado prático será fazer o povo trabalhar mais e pagar mais — para receber menos. Os pobres ficarão mais pobres, os miseráveis descerão a outro patamar de indigência.
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