A capital federal nasceu do deslocamento de milhares de brasileiros que cruzaram o país em busca de trabalho e de uma nova vida. Sessenta e seis anos depois, Brasília segue repetindo essa história, mantendo-se como destino de quem chega em busca de oportunidades.
Inaugurada em 1960 pelo presidente Juscelino Kubitschek (JK), a cidade foi planejada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer com o objetivo de integrar o país. O que começou como um canteiro de obras no meio do Cerrado se transformou em um dos principais centros administrativos e econômicos do Brasil.
A construção da nova capital mobilizou trabalhadores de diversas regiões. Em 1959, um censo experimental do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontava cerca de 64 mil pessoas vivendo na área do Distrito Federal. A população era majoritariamente masculina, com 192 homens para cada 100 mulheres.
Esses trabalhadores, conhecidos como candangos, foram atraídos principalmente pela oferta de emprego na construção civil. A migração, que começou de forma tímida em 1956, cresceu rapidamente e já reunia cerca de 28 mil operários em março de 1958. A maior parte vinha de estados como Goiás (23,3%), Minas Gerais (20,3%) e Bahia (13,5%).
A visão de quem chegou primeiro
Décadas depois, o movimento de chegada à capital continua, agora com novos perfis, mas com motivações semelhantes.
A trajetória de quem vive em Brasília há mais tempo revela como a cidade se transformou ao longo dos anos. Adriana Maria de Oliveira da Silva, de 51 anos, moradora de São Sebastião, chegou à capital em 1992, aos 17 anos de idade. Vinda de Campo Grande (MS) após a perda da mãe, ela encontrou na cidade a chance de recomeçar ao lado de familiares.
Adriana recorda o impacto visual de ver a modernidade da capital pela primeira vez ao descer no Conjunto Nacional. “Achei Brasília muito linda, parecia uma cidade de outro mundo, tudo modernizado e iluminado”, descreve a dona de casa. Para ela, a cidade representou o início de uma nova história e a oportunidade de garantir um futuro para seus irmãos.
Com o passar dos anos, ela acompanhou mudanças importantes na infraestrutura e na qualidade de vida. Adriana relata que o transporte para regiões como São Sebastião era limitado, com poucos horários disponíveis. “Melhorou muito de se morar, tem muito mais ônibus e mais mercados atacadistas”, avalia.
O crescimento populacional também transformou regiões que antes eram pequenas em áreas urbanas consolidadas. Por meio do trabalho doméstico, ela ajudou os irmãos mais novos a estudarem. “Hoje meus dois irmãos mais novos são concursados na área da saúde graças ao bom ensino nas escolas que Brasília teve”, relata, reforçando o papel da cidade na mudança de trajetória da família.
A relação com a cidade, no entanto, não se resume apenas às oportunidades materiais. Para Sheila de Sousa Oliveira, corretora de imóveis, Brasília também é um espaço de construção de identidade.
Nascida no Hospital de Base e criada na Ceilândia, ela cresceu observando as diferenças entre a periferia e o Plano Piloto. “Sempre que o ônibus se aproximava, eu ficava admirada com tamanha organização”, lembra. O contato com o centro da capital despertou interesse pela arquitetura e pelo urbanismo, marcando sua percepção sobre a cidade.
Ao longo dos anos, Sheila ampliou sua vivência em Brasília participando de atividades culturais e manifestações políticas. “Estive presente em muitos protestos e manifestações na Esplanada, lugar que reúne representantes de todo o país, mas que nem sempre representam os interesses da população”, afirma.
Essa experiência contribuiu para um sentimento de pertencimento construído com o tempo. “Passei a me reconhecer como pertencente àquele lugar. Minha relação com Brasília é, até hoje, de busca por identificação e conexão”, resume.
Nova geração de migrantes
Assim como Adriana, que chegou à capital em busca de recomeço, uma nova geração de migrantes continua escolhendo Brasília como destino. Pedro Henrique Soares da Silva, de 26 anos, vive há cinco anos no Recanto das Emas. Natural do Piauí (PI), ele decidiu se mudar motivado pelas oportunidades e pela presença de familiares na cidade.
Apesar da familiaridade com o local durante a infância, a experiência de viver sozinho trouxe desafios. “A maior dificuldade foi justamente essa, foi se adaptar a morar sozinho, à rotina de serviço e alimentação”, conta.
Para Pedro Henrique, a mudança representa a chance de alcançar objetivos que seriam mais difíceis em sua cidade de origem. Ele destaca que as oportunidades em Brasília ampliaram suas perspectivas de futuro.
A mobilidade urbana e a proximidade entre as regiões administrativas também chamaram atenção. “Brasília chamou muita atenção em relação a isso, porque aqui é tudo muito perto para resolver”, explica, citando a conexão entre Recanto, Samambaia e Taguatinga. Hoje, ele define a capital como sua “segunda casa”.
A busca por oportunidades também motivou a mudança de Jaqueline Rodrigues, de 27 anos, natural de Itacajá (TO). Há quatro anos em Brasília, ela chegou com expectativas de crescimento profissional e acesso à educação.
“Eu imaginava encontrar uma cidade com mais oportunidades, organização e qualidade de vida”, relata. Segundo ela, a expectativa foi atendida, principalmente no campo profissional.
O processo de adaptação, no entanto, não foi imediato. “A maior dificuldade ao chegar foi a adaptação, principalmente por estar longe da família”, conta. Com o tempo, a rotina se tornou mais familiar. “Foi desafiador no início, mas fui me acostumando com o ritmo da cidade.”
Hoje, ela avalia a experiência como positiva. “Brasília significa para mim uma oportunidade de mudança de vida e evolução pessoal.” Mesmo diante de desafios como o custo de vida, Jaqueline afirma que pretende permanecer na capital enquanto busca concluir a faculdade e crescer profissionalmente.
Um legado em construção
Os dados reforçam essa dinâmica. Segundo estimativas do IBGE, o Distrito Federal tem hoje quase 3 milhões de habitantes e figura entre as principais economias do país. Dados das Contas Regionais mostram que o PIB local alcançou R$ 365,7 bilhões. O setor de serviços e o comércio concentram grande parte das oportunidades de trabalho, enquanto a administração pública segue entre os principais motores da economia local.
A cidade mantém, assim, uma característica que a acompanha desde a origem, que é a de ser construída por pessoas que vieram de fora. Se antes eram os candangos que chegavam para erguer a capital, hoje são trabalhadores, estudantes e famílias inteiras que continuam escolhendo Brasília como lugar de recomeço.
A história da capital é escrita diariamente por pessoas como Adriana, Sheila, Pedro Henrique e Jaqueline, trajetórias distintas que se encontram em um mesmo ponto: a busca por oportunidades.
*Com informações do Brasil Fato
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