A China continua sinalizando às diplomacias do Mercosul que mantém interesse estratégico em negociar um acordo comercial com o bloco, mesmo reconhecendo que a iniciativa ainda não é viável no curto prazo. A informação foi apurada pelo jornal Valor Econômico, em coluna do jornalista Assis Moreira, que detalha a postura chinesa de manter o tema permanentemente na agenda, com flexibilidade política e visão de longo prazo.
Segundo o Valor, o governo chinês tem comunicado aos países do Mercosul que não trabalha com expectativas imediatas de conclusão de um acordo, mas procura preparar pacientemente o terreno para que a negociação se torne possível no futuro. A estratégia se insere em um contexto mais amplo de reconfiguração do comércio internacional, marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e pela busca de alternativas às políticas unilaterais adotadas pelos Estados Unidos.
As turbulências na economia global têm sido tão intensas que propostas antes consideradas inviáveis passaram a ser vistas como aceitáveis ou, ao menos, dignas de análise. No caso do Mercosul, cresce a percepção de desgaste com as táticas protelatórias da União Europeia para concluir o acordo birregional, o que abre espaço para a discussão de novas parcerias estratégicas.
O histórico recente do Uruguai ilustra as dificuldades políticas envolvidas. Por muitos anos, Montevidéu tentou negociar um acordo bilateral com a China. Apesar da simpatia inicial de Pequim, as autoridades chinesas deixaram claro que um entendimento exclusivo não avançaria, para evitar constrangimentos com o Brasil, já que um acordo apenas com o Uruguai seria interpretado como um enfraquecimento do Mercosul.
Mesmo no âmbito do bloco, um acordo preferencial com a China enfrenta obstáculos adicionais. As exportações chinesas seguem em forte expansão, e em 2024 o maior crescimento percentual das vendas externas da China ocorreu justamente para o Brasil, com alta de 22%. Em 2025, o ritmo dos embarques chineses para o mercado brasileiro continua superior ao das exportações brasileiras para a China, reduzindo o superávit comercial do Brasil na relação bilateral.
Esse desequilíbrio ajuda a explicar parte das resistências internas. Atualmente, a maior parte das medidas antidumping em vigor no Brasil recai sobre produtos chineses, refletindo a preocupação da indústria nacional com a concorrência asiática. Ao mesmo tempo, há dificuldades políticas dentro do Mercosul, começando pela relação estreita da Argentina com os Estados Unidos, que buscam conter a influência chinesa na região a partir de uma versão mais intervencionista da doutrina Monroe.
Apesar das pressões de Washington, o desempenho exportador da China continua impressionando parceiros comerciais. Em novembro, o país registrou superávit comercial de US$ 1 trilhão, evidenciando sua capacidade de diversificar vendas externas com produtos competitivos em preço e qualidade.
Paradoxalmente, enquanto amplia sua presença como grande exportador, Pequim começa a endurecer o acesso ao próprio mercado. A mais recente preocupação dos parceiros é uma investigação que pode resultar na imposição de cotas para a importação de carne bovina. Caso a restrição seja confirmada, o Brasil deverá ser um dos países mais afetados.
A indústria brasileira historicamente demonstra cautela em relação ao aprofundamento dos fluxos comerciais com a China. Ainda assim, em 2023, quando o Valor já havia noticiado a sinalização chinesa de interesse em um acordo com o Mercosul, representantes da Confederação Nacional da Indústria defenderam que o diálogo não precisaria começar por um tratado amplo de livre comércio, mas poderia avançar por caminhos intermediários, como acordos de facilitação de comércio.
Posição estratégica da China
A estratégia chinesa no comércio internacional ajuda a entender esse movimento. Pequim construiu uma posição estratégica apoiando-se, em parte, nos benefícios de acordos de livre comércio, com concessões tarifárias mútuas. Atualmente, a China mantém 23 acordos desse tipo em vigor, envolvendo 30 países e blocos regionais, como a Asean. Outros dez acordos estão em negociação e oito em fase de estudo.
Na América Latina, a China já possui acordos de livre comércio com Chile, Peru, Costa Rica e Equador. Também negocia com Honduras e Panamá e conduz um estudo de viabilidade com a Colômbia.
Nesse contexto, a China segue avançando com força no Mercosul e demonstra disposição para esperar o tempo necessário. Como observa o Valor, Pequim aposta na paciência estratégica que seu sistema político permite para, no futuro, discutir um acordo comercial preferencial com o bloco sul-americano.
Originalmente publicado em Brasil247
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