Ator com quase cinco décadas de trajetória, Wilson Rabelo é um dos três artistas mineiros que integram o elenco de O Agente Secreto, novo longa de Kleber Mendonça Filho que vem acumulando reconhecimento no Brasil e no exterior.
Nesta edição do Visões Populares, do Brasil de Fato MG, conversamos com Wilson sobre o processo de criação do filme, a força sensorial da obra e o lugar do cinema como ferramenta de leitura crítica da história brasileira.
Além dele, o longa conta também com as atuações dos mineiros Laura Lufési, entrevistada anteriormente para o Visões Populares, e Carlos Francisco, que também conversou com o jornal. Juntos, os três artistas levam para a tela uma “mineiridade” marcada pela contenção, pela densidade e pela escuta sensível, elementos que dialogam com as múltiplas camadas políticas, históricas e afetivas propostas pelo filme.
“A arte tem essa função: o estranhamento, a indignação, o asco e também o lirismo, a fantasia e o realismo fantástico. O jogo da arte é te levar para um lado e te jogar para o outro para te desmontar. É como o Carnaval; essa “carnavalização” que aparece no filme é muito legal”, destaca o ator, ao mencionar a dimensão sensorial de O Agente Secreto.
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Brasil de Fato MG – Para iniciarmos a conversa, eu queria saber como foi participar mais uma vez de um filme do Kleber Mendonça Filho. Como tem sido esse processo de O Agente Secreto? Foram muitas conquistas em pouco tempo e vocês estão conseguindo levar a cultura brasileira de uma maneira muito forte lá para fora. Aqui no Brasil, o filme também tem sido bastante festejado. Como está sendo todo esse processo para você?
Wilson Rabello – Eu me sinto honrado por ter tido a oportunidade de trabalhar com o Kleber novamente, embora ele tenha avisado que seria um personagem pequeno. Mas acho que é fazer parte da história. Algumas pessoas acham que ela é muito picotada, mas eu acho o contrário. Ele contemplou no filme milhares de viéses que não formam uma história contínua, mas são elementos que trazem para aquele universo muitas possibilidades, tipos e histórias. Então, o tamanho do personagem não fazia muita diferença; eu estava em um contexto fantástico muito bom.
A história em si, depois que assisti, vi que não é fácil. A ideia de fácil e difícil na arte é muito relativa. O espectador, quando é só um consumidor, engole algo que já está todo mastigado, às vezes até decantado para ele. Há filmes mais complexos que exigem uma escuta e uma assistência ativa, fazendo com que você crie sua própria história a partir dos elementos oferecidos.
O que acho fantástico no filme é que ele conta um universo que representa o Brasil inteiro. Ele deslocou do Sudeste para outra região, mas ali você conta todas as contradições humanas. Parece que o filme é uma colcha de retalhos; a nossa história é um pouco assim. O nosso fluxo não é contínuo, é todo retalhado, mas cada pedacinho dele contém vida e um subuniverso que traz riqueza e contradição ao mesmo tempo.
O filme é muito sensorial. A ditadura militar não deixou apenas um grupo, os que estavam diretamente ligados à luta armada, magoados fisicamente. Ela criou uma distensão em todos os setores.
Essa agressividade contida, que é quase covarde, vemos manifestada nas relações dos homens com as mulheres, dos adultos com as crianças, dos ricos com os pobres. Parece que ainda há um resquício desse momento violento que deixou heranças e deformações.
Acho legal que o filme mostra as deformações desses processos de colonização, principalmente em Pernambuco, que passou por várias camadas de contradição na história e representa o Brasil todo. Há a questão do indígena, do afrodescendente e os resquícios da cultura europeia. Pernambuco é um lugar com muita história e camadas que acaba contando a nossa história como um todo.
Eu sou mineiro; Minas tem uma história, a Bahia tem outra. Somos todos picotados. Esse deslocamento que o Kleber criou para contar uma história brasileira, tirando do Sudeste, causa estranheza nas pessoas.
O Kleber conta uma história sensorial. A cada episódio dos filmes dele, você vai sentindo a história. Eu sou do teatro e a arte às vezes causa estranhamento para que haja o entendimento da complexidade. Essa complexidade gera algo físico, sinestésico. É quando a arte consegue causar estranheza no seu próprio corpo. Mexer com o corpo e com a emoção, não apenas contemplar o racional ou o entendimento imediato e superficial, é uma função da arte.
É um cinema para todo mundo, mas que oferece complexidade às camadas populares. Se você não entende por um lado, entende por outro. Muita gente se vê naquele filme, inclusive pessoas para as quais o cinema nem sempre é direcionado.
Muita gente compara O Agente Secreto com Bacurau. Existe uma primeira história em Bacurau que dá para perceber, mas ela tem muitas subcamadas. Eu, que venho do teatro, passei a ter esse olhar para o cinema por causa do lugar onde Bacurau me colocou. Quando li o roteiro de Bacurau pela primeira vez, não achei a história tão simples. Tive que ver várias vezes e, a cada vez, percebia mais camadas.
É como um livro: se você o lê duas vezes, tem duas histórias. É muito legal ter uma obra que, a cada vez que é assistida, contempla o espectador com uma nova camada.
Ao mesmo tempo que O Agente Secreto tem muitas particularidades locais, é um filme que alcançou um público diverso para além do Brasil. Você acha que isso se deve a essa sensorialidade? Seria essa a dimensão que melhor explica o filme?
Sim, você falou algo interessante. Dependendo da cultura e do olhar técnico de cada grupo, haverá uma captação diferente. A primeira cena do filme, por exemplo, já causa uma sensação sem dizer uma palavra. Só as moscas em cima de um cadáver já trazem a sensação de como a morte era tratada nos ‘anos de chumbo’. Os corpos dos mortos pela ditadura eram tratados daquela maneira: jogados em lugares, desaparecidos. Simbolicamente, você já tem uma dica estética daquele momento.
Há também a camada do personagem do posto. É um tipo de brasileiro com quem temos contato o tempo inteiro, mas que nunca aparece nas telas. E não era só um homem do povo; é um ator com história no Nordeste.
O Kleber faz questão de mostrar o povo brasileiro, o que incomoda muita gente. Vi uma crítica falando do “nordestino suado”. Gente, essa camada tem que ter lugar nos filmes. Essa assepsia de classe tira da história corpos que fazem parte dela. Aquele corpo suado não está ali apenas com uma enxada na mão, sem discurso, sem texto e sem ação; ele está em ação, mostrando como aquele corpo é usado.
O Kleber tira muito do verniz do país e das elites. Quando aparece o usineiro que representa o establishment conversando com o personagem do Armando, ele mostra uma elite de fancaria, uma elite que nem paga imposto. Isso incomoda.
Ao mesmo tempo, há aquela cenografia maravilhosa da barbearia. São informações de arte, texturas, que trazem o ritmo do filme. Aquela perseguição é maravilhosa. São momentos curtos, mas com começo, meio e fim em si mesmos. Cada sequência cumpre sua função e já traz outra camada, dando robustez ao filme. Tira a linearidade e traz ranhuras, níveis diferentes de informação.
A arte tem essa função: o estranhamento, a indignação, o asco e também o lirismo, a fantasia e o realismo fantástico. O jogo da arte é te levar para um lado e te jogar para o outro para te desmontar. É como o Carnaval; essa “carnavalização” que aparece no filme é muito legal.
E todas essas dimensões aparecem no elenco também. Como foi estar nesse filme com outras duas companhias mineiras?
Sobre a questão da universalidade do Brasil, há o aspecto indígena no filme. Minha mãe é de Januária, no Norte de Minas, e é mestiça. Minas Gerais tem uma tradição indígena e do caboclo muito grande, embora a gente fale pouco disso. A Laurinha também é do interior de Minas.
Minas também tem uma história de tramas universais. No século XVIII, o mundo todo esteve em Minas por causa da mineração. Era um lugar com um contingente de pessoas de todo o planeta. Voltando ao filme, eu me encontrei com o Carlos lá, mas com a Laurinha não.
Minha participação foi pequena, mas muito densa e difícil, porque era em alemão. Não tive que fazer um curso de prosódia. Eu cheguei e, no dia anterior, tive um preparo com o Leo, mas o texto que aprendi não era o mesmo que estava lá no dia da gravação. Houve problemas sintáticos e tivemos que reconstruir as frases. Foi complexo pegar aquelas falas naquele tempo, com a intenção correta, e relacionar com os personagens.
Foi tenso, mas o Kleber é maravilhoso porque ele confiou que eu daria conta dessa missão. Foram vários takes, com o Wagner Moura na cena e o diálogo era meu. Foi um desafio; fiquei com medo de a cena ser cortada, mas o Kleber respeita o ator. Quando o encontrei em um festival na Bahia, ele disse: “A cena ficou boa, vai estar no filme”. Fiquei impressionado por ele ter me permitido esse desafio.
Foi também o último trabalho do Udo [Kier], o que é triste e episódico ao mesmo tempo. A carreira internacional dele acabou no Brasil, com o Kleber.
Sobre os mineiros, o Carlos e a Laura trazem essa natureza mineira, contida. Minas Gerais tem essa semelhança com o corte indígena e a cultura mestiça afro-indígena. Isso não chocou com a natureza dos personagens de Recife. A delicadeza do trabalho da Laura é maravilhosa, assim como o trabalho contido do Carlos. Eu tentei ficar à altura. Nós, mineiros, buscamos o essencial. Carlos faz o essencial muito bem desde Marte Um.
Eu até brincava com a Laura dizendo que o filme era a história de uma historiadora, deslocando o protagonismo do Wagner para ela. Mas ela é uma pessoa contida, delicada.
O meu personagem também é sutil. Eles representavam dois homens que se relacionavam de forma afetiva e discreta em uma época difícil. Se fosse um ator carioca, talvez trouxesse uma camada mais exuberante. A nossa característica mineira apareceu na contenção e na sensibilidade. Em Bacurau eu também fiz um professor contido. Na arte, dizem que o mineiro é como a pata: bota um ovo enorme e não faz alarde. Somos densos, mas silenciosos.
Falando da sua carreira, você mencionou que Bacurau foi fundamental para te colocar de volta no circuito. Como você enxerga o amadurecimento dessa sua nova fase no cinema, já que suas raízes estão no teatro?
O teatro praticamente não existe mais como espaço de trabalho viável. Fiz um espetáculo no ano passado com a Rosa Maria Murtinho, mas está cada vez mais difícil. Quando o Kleber colocou Bacurau no mapa, ele me colocou no mapa também. Eu fiz o filme com 62 anos. Minha carreira estava em um lugar frágil, sem representatividade na TV e no teatro uma linguagem cada vez mais debilitada.
Depois de Bacurau, já devo ter feito uns 20 filmes. Isso me deu uma nova oportunidade e me permitiu desenvolver uma nova linguagem. A repetição no cinema gera aprimoramento.
Embora eu tenha feito o solo sobre Carolina Maria de Jesus por 15 anos, o cinema me deu uma sobrevivência que eu não tinha. Por causa da questão etária, muitas vezes faço participações, mas tenho tido visibilidade. Fiz a série Pablo e Luizão, do Paulo Vieira, que me deu uma abertura na TV. Mas o cinema é onde tenho vivido nos últimos anos, mesmo com toda a precariedade de editais.
Esse privilégio que Bacurau me deu, de ser acessado pela nova geração, é imenso. Eu não fui muito aceito na minha própria geração. Estreei no cinema com João Batista de Andrade, mas os trabalhos eram muito esparsos. Agora, exercer o ofício com frequência me dá uma musculatura grande.
É um trabalho de sensação, de conter tudo no olho e no rosto, que é o que gosto de fazer. Antes, havia estereótipos para atores negros que pendiam mais para o perfil carioca ou baiano, que têm um apelo mais popular. O mineiro contido fazia minha carreira ser “morna”.
Mas continuo aqui, aos 68 anos, com 49 de carreira. É um trabalho lento, mas consistente. Tenho filmes para lançar, como um da Clara Jabor com a Alice Braga, e outro do Beto Marques, no universo do terror.
Além de um ator excelente, você traz um entendimento histórico e político admirável. Em entrevistas anteriores, você mencionou Darcy Ribeiro, Paulo Freire e as relações de Bacurau com o quilombo. Como esses referenciais influenciam sua forma de encarar os personagens?
Eu sou autodidata. Estudei em Belo Horizonte com o Pedro Paulo Cava, mas saí de casa cedo. Naquela época, a arte era algo quase impossível para atores negros em Minas. Tive que ir para São Paulo. Minha cultura vem do teatro. Estreei com João das Neves e aprendi a pesquisar para os personagens. Trabalhei com Raul Cortez, com o Grupo Tapa, fui dirigido pelo Fernando Peixoto em textos do Chico Buarque e Rui Guerra.
A arte me apresentou a cultura geral. Busco elementos para falar sobre o universo que o trabalho apresenta. Para O Agente Secreto, fui olhar a história de Pernambuco, as lutas daquele povo e a herança da colonização holandesa. É uma tentativa de trazer subsídio para a conversa, já que não sou especialista em nada, mas gosto de conversar.
Para finalizar, quais são suas expectativas para o Oscar e para os próximos momentos de O Agente Secreto?
O maior presente desse filme foi a Dona Sebastiana. Somos todos Dona Sebastiana. Ela nos contempla. Pessoalmente, espero que o trabalho reverbere, porque cada trabalho gera o próximo. Tenho muito carinho pelo Kleber.
Com informações do Brasil de Fato
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