Incertezas movem o xadrez político no Distrito Federal

“Realinhamento de posições” entre Celina e Ibaneis, somado a uma possível volta de Arruda ao cenário eleitoral, podem redefinir a disputa pelo Buriti e fragmentar a direita

Faltando pouco mais de quatro meses para o primeiro turno das eleições deste ano, em 4 de outubro, dois fatores movimentam o xadrez político da capital na corrida ao Palácio do Buriti: o “realinhamento de posições” entre a governadora Celina Leão (PP) e seu antecessor, Ibaneis Rocha (MDB), e o julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre  as mudanças na Lei da Ficha Limpa, que pode trazer de volta ao páreo o ex-governador José Roberto Arruda (PSD). Para analistas políticos, presidentes de partidos e fontes ouvidas pela reportagem no Buriti, na Câmara Legislativa (CLDF) e no Congresso Nacional, caso isso ocorra, a direita pode ficar ainda mais dividida no DF.

Num eventual rompimento entre PP e MDB, estarão em jogo não apenas os votos dos eleitores, mas também o tempo de TV e a divisão do recursos fundo eleitoral. Nesse sentido, a avaliação é de que, no jogo de perde e ganha, caso o Arruda volte e Celina e Ibaneis sigam caminhos separados, a direita tem mais a perder do que os candidatos de esquerda.

“O desgaste entre Ibaneis e Celina vinha se desenhando antes mesmo da saída do ex-governador para disputar uma vaga ao Senado neste ano”, comentou uma liderança política do DF sob a condição do anonimato. Um dos fatores que teria elevado a tensão entre eles seria a composição da chapa majoritária para 2026. Ibaneis estaria incomodado com o espaço crescente dado pela governadora às candidaturas ligadas ao bolsonarismo ao Senado — da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e da deputada federal Bia Kicis, ambas do PL —, sem garantir protagonismo ao MDB.

Apesar disso, as fontes consideram que ainda não há um rompimento definitivo, mas sim um movimento de pressão política para ampliar o poder de negociação de ambos os lados. Nos bastidores, a avaliação é de que o MDB teria condições de lançar candidatura própria, caso o afastamento se consolide. O nome mais citado é o do deputado federal Raphael Prudente (MDB), considerado próximo a Ibaneis e com respaldo interno na diretoria nacional da legenda.

Ainda assim, interlocutores ponderam que uma candidatura isolada do MDB enfrentaria dificuldades sem uma aliança mais ampla. A análise consolidada sobre o cenário atual é de que trata-se de um “jogo de perde-perde” para o grupo que governa Brasília desde 2019: enquanto Celina perde o MDB e pode perder também o Republicanos, partido próximo do MDB, Ibaneis perde os votos bolsonaristas, hoje muito vinculados à governadora e que podem ter peso relevante na disputa. “A percepção é de que ambos ainda tentam medir forças antes de uma definição mais drástica”, avaliou uma fonte.

 21/05/2026. Cr..dito: Minervino J..nior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Entrevista com a governadora do DF Celina Le..o.
Celina Leão quer continuar à frente do GDF(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

Cautela

Representantes dos principais partidos políticos do país foram cautelosos ao avaliar o desgaste político entre Celina e Ibaneis. Bia Kicis, que também é presidente do PL-DF, afirmou que não comentaria o caso. O presidente do MDB-DF, Wellington Luiz, não retornou o contato, assim como a presidente do PSol-DF, Giulia Tadini. A exceção foi o presidente do PT-DF, Guilherme Sigmaringa, para quem os embates entre a governadora e seu antecessor não têm a ver com o cenário eleitoral, e sim com um “rearranjo de forças em busca de salvação, diante da cada vez mais provável delação do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa”. “Do lado de cá, estamos unidos, fortes e confiantes no nosso projeto e na pré-candidatura do Leandro Grass”, destacou o dirigente. 

Na leitura de quem acompanha a questão de perto, a fragmentação do campo da direita e do centro pode, de fato, beneficiar candidaturas alternativas em 2026, especialmente da esquerda. Ao mesmo tempo, o cenário é influenciado pela indefinição jurídica envolvendo o ex-governador José Roberto Arruda, já que resultado da votação no STF só deve sair na próxima sexta-feira, quando termina o julgamento no plenário virtual da Corte.

Relatora da Ação Direta de Inconsticucionalidade (ADI) 7781, proposta pela Rede Sustentabilidade, a ministra Cármen Lúcia votou contra as mudanças aprovadas em 2025 pelo Congresso na Lei da Ficha Limpa. Em seu voto, apresentado ontem, ela defendeu a derrubada dos trechos que reduziram o tempo de inelegibilidade e alteraram a forma de contagem do prazo. Para a relatora, as alterações representam um “patente retrocesso na proteção da moralidade pública e da probidade administrativa”.

A ministra sustentou que o prazo de inelegibilidade deve continuar sendo contado a partir do fim do cumprimento da pena, como previa o entendimento anterior da legislação. Ela também se posicionou contra o teto de 12 anos criado pelo Congresso para limitar o período total de inelegibilidade em casos de múltiplas condenações. O julgamento pode ser interrompido, caso algum ministro peça vista ou destaque, o que levaria o caso do plenário virtual para julgamento presencial.

 28/03/2026 Ed Alves CB/DA Press. Cidades -  Ibaneis Rocha se despede do governo. Missa de Ação de Graças e Solenidade de descerramento oficial da fotografia na Galeira dos Governadores do DF.
Ibaneis Rocha deve concorrer ao Senado(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Mesmo diante de decisões ainda pendentes no STF, o nome de Arruda é considerado no tabuleiro eleitoral e aparece como uma variável constante nas projeções. A leitura é de que uma eventual liberação não alteraria substancialmente a estratégia dos demais grupos, que já se organizam considerando sua possível candidatura. Porém, há cautela quanto à real força eleitoral do ex-governador: embora tenha presença ativa nas redes sociais e histórico de atuação em regiões periféricas, especialmente por obras e programas sociais, interlocutores acreditam que esse desempenho pode não se refletir em pesquisas eleitorais, sobretudo em áreas centrais.

Para especialistas, o anúncio do “realinhamento de posições” feito por Ibaneis abriu uma nova fase de incerteza política e acendeu o alerta para possíveis mudanças na base governista e na disputa eleitoral de 2026. O professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Eduardo Galvão entende que o MDB passou a considerar o risco de perda de espaço político diante da consolidação da governadora Celina Leão como principal liderança do grupo governista. “O anúncio parece menos um rompimento emocional e mais um movimento estratégico relacionado à sucessão no DF”, afirmou.

Galvão destacou que disputas por protagonismo são comuns em momentos de transição de poder. “Celina, ao assumir o governo, precisa simultaneamente manter continuidade administrativa e construir identidade própria, o que inevitavelmente altera a dinâmica interna da coalizão”, explicou. 

Também professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, Jackson De Toni avalia que o distanciamento se deu após a crise envolvendo o BRB. “Esse afastamento foi desencadeado pela crise do Banco Master e do Banco de Brasília, que levou Celina a tentar blindar seu mandato, adotando um discurso de ‘nova gestão’, exonerando aliados do ex-governador e se desvinculando de polêmicas da administração anterior”, acrescentou.

Segundo De Toni, o atrito político se aprofundou com as articulações eleitorais envolvendo o PL e as vagas ao Senado. “A aliança de Celina com o PL previu destinar as vagas ao Senado para Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, escanteando Ibaneis Rocha, cujo principal projeto político é disputar uma cadeira senatorial”, lembrou. 

 10/10/2025 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - CB.Poder entrevista o ex-governador José Roberto Arruda.
José Roberto Arruda espera voltar ao jogo político(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Articulações

O analista de risco político e sócio da Royal Politics Consultoria e Marketing Político, Rócio Barreto, avaliou que o “realinhamento” pode provocar mudanças relevantes na base governista da CLDF, ainda que não represente uma ruptura imediata entre Ibaneis e Celina. “Esse gesto pode estimular parlamentares a adotarem uma postura mais independente em relação ao Palácio do Buriti”, afirmou.

Na avaliação dele, o principal efeito tende a ser um rearranjo gradual das alianças políticas, com impacto nas articulações no Legislativo. “O maior risco não é uma fragmentação abrupta, mas um processo gradual, com maior dificuldade de coordenação política e negociações mais complexas em pautas estratégicas”, disse.

Ele apontou uma mudança estrutural na relação entre os dois líderes. “A relação deixou de ser completamente vertical. Antes, Celina era vista como sucessora direta de Ibaneis. Agora, ela se posiciona como uma liderança autônoma e independente”, disse. “Isso muda completamente o equilíbrio da direita e da base governista no DF.”

Segundo Barreto, a legenda tende a priorizar nomes com perfil moderado e capacidade de articulação. “Existe uma possibilidade relevante de o MDB romper com a governadora Celina Leão e apresentar uma chapa ao governo e às duas vagas ao Senado”, acrescentou.

Aliança ameaçada

Rócio Barreto destacou que o reposicionamento político terá impacto direto no cenário eleitoral de 2026 ao atingir a principal aliança construída nos últimos anos. “A maior força eleitoral de Celina Leão sempre esteve associada à estrutura política consolidada durante a gestão Ibaneis. Sem essa aliança, ela perde tempo de TV, pois quanto mais partidos na chapa majoritária, mais tempo ela teria”, avaliou.

O especialista acredita que o distanciamento tende a ter efeitos diretos na distribuição do fundo eleitoral dentro do grupo político. Segundo ele, como os recursos são repartidos de acordo com os cargos em disputa e estão sujeitos a limites de gastos por candidatura, qualquer reorganização de alianças impacta o planejamento financeiro das campanhas. “O fundo eleitoral é dividido entre os cargos, mas existem limites de quanto pode ser gasto em cada um. Além disso, cada partido ou federação pode lançar um número restrito de candidatos, tanto nas disputas proporcionais quanto nas majoritárias, como governador e Senado”, explicou.

Impacto

O analista ressaltou que o impacto pode ser decisivo para a próxima eleição. “Antes, apoiar Celina era dar continuidade ao apoio a Ibaneis. Hoje, isso não é mais certo. Se houver um rompimento formal e o MDB lançar candidato, teremos duas forças disputando o mesmo espaço e o mesmo voto”, assinalou. “O que poderia ser uma sucessão organizada entrou em colapso profundamente”, completou.

O professor Eduardo Galvão apontou, ainda, que uma eventual volta do ex-governador José Roberto Arruda à disputa teria potencial para reorganizar o tabuleiro político local. “Arruda não é um nome periférico, é um ex-governador com forte memória eleitoral. Se recuperar a elegibilidade, ele altera diretamente o equilíbrio da sucessão e aumenta a fragmentação do campo ligado ao atual governo”, avaliou. Para o professor, quanto maior o número de atores competitivos disputando o mesmo eleitorado, maior o custo de coordenação e menor a previsibilidade do resultado.

Faltam 134 dias para o primeiro turno das eleições 2026.

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