O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, hoje pré-candidato ao governo de São Paulo, afirmou que São Paulo vive uma deterioração institucional e administrativa sob o governo de Tarcísio de Freitas e defendeu que o estado precisa de mais investigação, transparência e debate público antes das eleições de 2026. Em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, transmitido em 22 de junho de 2026, Haddad tratou de temas como sucessão estadual, privatização da Sabesp, Banco Master, crime organizado, contas públicas, reforma tributária e a disputa nacional envolvendo o presidente Lula.
Indicado como pré-candidato ao governo de São Paulo, Haddad afirmou que a disputa contra Tarcísio poderá ser marcada por um enfrentamento direto entre dois projetos políticos, caso se confirme um cenário com apenas dois nomes competitivos. Para ele, o fundamental será garantir debates públicos capazes de expor os problemas da atual gestão paulista. “Eu espero que tenha um número de debate suficiente para esclarecer a população, do posicionamento de cada um dos candidatos, ele defendendo o governo e eu tentando esclarecer por que sou oposição a esse governo”, disse.
Haddad critica privatização da Sabesp e acusa governo paulista de favorecer interesses privados
Um dos principais alvos de Haddad foi a privatização da Sabesp. O ex-ministro afirmou ser contrário à venda da companhia por considerar a água um serviço essencial e criticou o papel da Equatorial no processo. “Eu acho a privatização da Sabesp uma vergonha. Eu era contra a princípio, por princípio. Acho que água é uma coisa séria demais para você colocar na mão de um fundo especulativo, como é o caso da Equatorial”, declarou.
Segundo Haddad, o edital teria sido desenhado de forma a favorecer uma única participante. Ele também afirmou que a promessa de redução da conta de água não se confirmou. “A conta de água, ele falou que ia baixar, aumentou; o serviço, ele falou que ia melhorar, piorou”, disse. Para o ex-ministro, o debate sobre privatizações não deve ser tratado como uma divisão simplista entre direita e esquerda, mas a partir do interesse público concreto. “A universalização a que custo para o consumidor?”, questionou.
Haddad também acusou o governo paulista de pressionar prefeitos a aderirem ao modelo da Sabesp. Segundo ele, haveria municípios fora da área da companhia que enfrentariam pressão política para vender empresas locais de saneamento, inclusive companhias que estariam ajustadas.
Ex-ministro diz que Tarcísio perdeu R$ 10 bilhões ao adiar adesão ao Propag
Na entrevista, Haddad afirmou que Tarcísio de Freitas teria causado prejuízo ao estado ao adiar a adesão de São Paulo ao Propag, programa de renegociação de dívidas estaduais elaborado durante sua gestão no Ministério da Fazenda em parceria com o então presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco, a pedido do presidente Lula.
“Ele perdeu quase R$ 10 bilhões por esse atraso, que é quase o valor que ele conseguiu com a venda da Sabesp”, afirmou. Haddad disse considerar o episódio grave. “Para mim isso é improbidade. Os paulistas, os prefeitos, quantos prefeitos estão na porta dele pedindo R$ 500 mil, R$ 1 milhão para fazer um reparo numa ponte, numa estrada vicinal, e não tem o dinheiro. E ele abriu mão de 10 bilhões”, acrescentou.
O ex-ministro também destacou que o programa favorecia principalmente estados governados pela oposição, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás. Segundo ele, o desenho do Propag demonstra que o governo Lula não teria discriminado adversários políticos na relação federativa.
Educação, segurança e corrupção entram no centro das críticas
Haddad afirmou que São Paulo está ficando para trás em áreas estratégicas. Na educação, criticou a estagnação das matrículas em tempo integral no ensino médio e comparou o desempenho paulista ao de estados do Nordeste. “O Piauí está com 81% de matrícula em tempo integral no ensino médio. São Paulo está com 24. Desde o Doria está praticamente estagnada a matrícula de tempo integral no ensino médio”, disse.
Ele também criticou a condução da política educacional pelo atual secretário estadual, mencionando a “plataformização” e a mecanização da atividade docente. Para Haddad, professores estariam submetidos a um modelo de gestão que desvaloriza a autonomia pedagógica.
Na segurança pública, o ex-ministro afirmou que o projeto Muralha Paulista teve problemas e que São Paulo não conseguiu implementar tecnologia disponível em outros estados. “O estado mais rico da federação está tecnologicamente para trás”, disse. Haddad ainda afirmou que, caso eleito, pretende criar um gabinete integrado de segurança com participação de forças estaduais e federais. “O representante da Polícia Federal vai ter assento no meu gabinete. Só não vem se não quiser. Um membro do Ministério Público Federal vai ter assento na minha sala. Só não vem se não quiser. Por quê? Porque está provado que quando o Estado se organiza, o crime se desorganiza”, declarou.
Banco Master, Vorcaro e crime organizado
Haddad também comentou o caso Banco Master e defendeu a ampliação das investigações. Ele afirmou que não é contra qualquer apuração, mas contra investigações limitadas. “Você nunca vai me ver defender refrear uma investigação, porque se tem uma coisa que o Brasil precisa é de mais investigação”, afirmou.
Ao tratar de Daniel Vorcaro e das suspeitas envolvendo o Banco Master, Haddad defendeu que crimes financeiros sejam compreendidos como parte do funcionamento do crime organizado. “Por que o Vorcaro não está na lei antifacção? Por que tiraram o crime de colarinho branco do crime violento? O crime de colarinho branco não explica a violência nas cidades brasileiras?”, questionou.
O ex-ministro também voltou a defender a atuação da Receita Federal no combate ao crime organizado, especialmente no monitoramento de fluxos financeiros em fintechs. Segundo ele, a portaria sobre operações financeiras, alvo de desinformação nas redes sociais, tinha como objetivo permitir maior fiscalização do trânsito de recursos em instituições usadas por criminosos.
“O Pix já era fiscalizado. O que não era fiscalizado eram as fintechs, e eram as fintechs que estavam sendo usadas pelo crime organizado”, afirmou. Haddad disse ainda que a desinformação sobre uma suposta taxação do Pix teria atrasado o trabalho da Receita Federal.
Haddad defende legado fiscal e diz que Lula entregará superávit
No campo econômico, Haddad rebateu críticas sobre deterioração fiscal no governo Lula. Ele afirmou que a gestão atual herdou um quadro grave do governo anterior, com déficit projetado, calote de precatórios, ampliação do Bolsa Família fora do orçamento e compensações devidas aos estados pela redução do ICMS sobre combustíveis.
“O primeiro ano do governo Lula, pagamos todas as contas do Bolsonaro, indenizamos os governadores, pagamos o calote dos precatórios, pagamos o Bolsa Família de acordo com a lei, não reduzimos o Bolsa Família, nada”, disse.
Segundo Haddad, o governo Lula deverá enviar o orçamento de 2027 com superávit, em contraste com o orçamento herdado em 2023. “Eu recebi quase R$ 200 bilhões de déficit do governo anterior. O que eu estou dizendo é que tudo considerado para o ano que vem nós vamos ter um superávit”, afirmou.
O ex-ministro também defendeu a decisão do Supremo Tribunal Federal que, segundo ele, estende ao Congresso obrigações da Lei de Responsabilidade Fiscal. Para Haddad, a medida poderá impedir a aprovação de novas “pautas-bomba” sem indicação de fonte de financiamento. “Isso é uma coisa histórica no país”, disse.
Reforma tributária e críticas a Flávio Bolsonaro
Haddad também respondeu às críticas de Flávio Bolsonaro à reforma tributária. O senador, segundo a entrevista, teria prometido suspender ou pausar a regulamentação da reforma. Haddad afirmou que Flávio não domina o tema. “Acho que ele não sabe do que está falando. O Flávio é muito despreparado. Ele não é uma pessoa estudiosa. Ele é uma pessoa que nunca aprovou um projeto na vida”, disse.
O ex-ministro rejeitou a ideia de que a reforma tributária seja uma obra pessoal sua. Segundo ele, a proposta é resultado de um processo de décadas, com apoio de economistas de diferentes correntes e ampla aprovação no Congresso Nacional. “Não é uma reforma tributária do Fernando Haddad. Tinha duas PECs tramitando no Congresso Nacional”, afirmou.
Haddad também mencionou que o Fundo Monetário Internacional teria usado a reforma brasileira como referência para a Argentina. “O FMI no último relatório para a Argentina sugeriu que o Milei adotasse a reforma tributária do Brasil”, disse.
Disputa em São Paulo e busca por votos no interior
Ao falar da eleição paulista, Haddad reconheceu que precisa ampliar sua presença no interior do estado. Ele disse que o preconceito contra o PT muitas vezes prejudica o próprio interesse do eleitor paulista. “O que eu gostaria de fazer, o objetivo que eu tenho nessa eleição, é demonstrar para o povo paulista que muitas vezes o preconceito está prejudicando o seu próprio interesse. Você não está prejudicando alguém, está prejudicando a si mesmo”, afirmou.
Haddad disse que pretende dialogar com setores produtivos, como agro e indústria, e citou os planos safra recordes durante sua passagem pela Fazenda. “Nós fizemos três planos safra recordes com resultados recordes”, declarou.
Sobre a composição de sua chapa, Haddad mencionou nomes como Marina Silva, Simone Tebet e Márcio França, mas afirmou que a definição depende especialmente do PSB. “Eu estou muito confortável com as pessoas que estão me acompanhando. Ninguém tem dinheiro em paraíso fiscal, ninguém tem que se explicar para a Receita Federal, está tudo em ordem”, disse.
Lula, sucessão nacional e plano de desenvolvimento
Haddad avaliou que o presidente Lula terá condições de demonstrar resultados na eleição nacional. Para ele, os índices de aprovação tendem a melhorar à medida que o governo aprimora a comunicação. “O presidente Lula deve ter uma trajetória de sucesso na eleição, porque de fato, se você olhar sob qualquer ponto de vista na comparação com o governo anterior, nós estamos falando da água para o vinho”, afirmou.
Ao final da entrevista, Haddad disse que gostaria de ter se dedicado à elaboração de um plano nacional de desenvolvimento, algo que, segundo ele, o Brasil não tem desde o regime militar. Como pré-candidato ao governo paulista, afirmou que pretende levar essa ideia para São Paulo. “Eu queria ter me dedicado a isso, mas eu vou fazer para São Paulo”, concluiu.
Com informações do portal 247



