PGR recebe pedido para investigar denúncia de rachadinha no gabinete de Mario Frias

Ex-assessora afirma que devolvia parte do salário mensalmente ao gabinete; representação pede investigação por peculato e lavagem de dinheiro

247 – A Procuradoria-Geral da República (PGR) recebeu um pedido de investigação sobre suspeitas de rachadinha no gabinete do deputado federal Mario Frias (PL-SP). O caso foi revelado pelo G1 e envolve denúncias feitas pela ex-secretária parlamentar Gardênia Morais, que trabalhou no gabinete entre fevereiro de 2023 e maio de 2024.

A representação foi apresentada pelo deputado federal Chico Alencar (Psol-RJ), que aponta possíveis crimes de peculato, concussão, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Como Mario Frias possui foro privilegiado, cabe à PGR avaliar a abertura de eventual investigação no Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo documentos obtidos pela reportagem G1, Gardênia realizou transferências que somam R$ 35.116 para o então chefe de gabinete Raphael Azevedo, além de depósitos destinados à ex-esposa e a uma parente dele.

“O deputado sabia”

Em entrevista, Gardênia afirmou que devolvia parte do salário recebido pela Câmara dos Deputados todos os meses.

“O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os ‘steps’. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step’”, declarou. A ex-assessora também afirmou que Mario Frias tinha conhecimento das devoluções.

“O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado”, disse.

PIX e pagamentos a parentes

Os comprovantes analisados pela reportagem mostram que Gardênia transferia o salário da conta em que recebia os vencimentos da Câmara para outra conta bancária e, em seguida, realizava repasses via PIX.

Entre fevereiro de 2023 e março de 2024, foram registrados depósitos para Raphael Azevedo, sua ex-esposa e uma outra parente. Os valores variaram entre R$ 816 e R$ 5 mil.

Outro comprovante indica que a ex-funcionária realizou um PIX de R$ 1 mil para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar, em janeiro de 2024. Também consta nos documentos o pagamento de uma fatura de cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado, no valor de R$ 4.832,32, em dezembro de 2023.

Empréstimos consignados

Os extratos bancários de Gardênia mostram ainda a contratação de cinco empréstimos consignados, que totalizaram R$ 174,8 mil.

Segundo ela, apenas um dos empréstimos foi utilizado para fins pessoais. Os demais teriam sido contratados a pedido de Mario Frias e Raphael Azevedo.

“Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha [de 2022]. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa”, afirmou.

A ex-assessora também relatou dificuldades financeiras após os empréstimos. “Para você ter noção de como ficou minha situação hoje, eu moro de favor na casa da minha ex-sogra”, disse.

Pedido de investigação

Na representação enviada à PGR, Chico Alencar afirmou que o caso pode configurar desvio de recursos públicos destinados ao funcionamento do gabinete parlamentar.

“Registre-se que cada deputado federal dispõe atualmente de R$ 165,8 mil mensais de verba de gabinete para pagamento de funcionários, de modo que a utilização dessa estrutura para compelir assessores a devolverem parte de seus salários, bem como para custear despesas privadas de familiares do parlamentar, traduz grave desvio de finalidade na aplicação de recursos públicos”, declarou.

Além do pedido apresentado pelo PSOL, a bancada do PT na Câmara também solicitou à PGR a abertura de investigação contra Mario Frias.

O que dizem os citados

Procurado pela reportagem, o atual chefe de gabinete de Mario Frias, Diego Ramos, afirmou que desconhece as acusações porque assumiu o cargo após o período citado nas denúncias.

Segundo ele, há a convicção de que o deputado não tinha conhecimento das supostas irregularidades. Ramos também afirmou que o caso envolve “ex-funcionários aproveitando a situação midiática”.

Até a publicação da reportagem, Mario Frias e Raphael Azevedo não haviam se pronunciado sobre as acusações.

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