Sicupira e Lemann: veja alvos da PF no caso da fraude nas Americanas

Nova fase da Operação Disclosure investiga a participação de acionistas de referência e executivos em fraude bilionária

A nova fase da Operação Disclosure, deflagrada nesta quinta-feira (25/6) pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF), direciona as investigações sobre a fraude bilionária nas Americanas para um novo grupo de suspeitos.

Desta vez, a apuração alcança acionistas de referência da varejista, antigos integrantes do conselho de administração e executivos ligados a instituições financeiras que, segundo os investigadores, podem ter participado ou tido conhecimento das irregularidades contábeis atribuídas à empresa.

Entre os investigados estão:

  • O empresário Carlos Alberto Sicupira;
  • O ex-presidente do conselho de administração da Americanas, Eduardo Saggioro;
  • O ex-conselheiro da companhia, Paulo Alberto Lemann, filho do empresário Jorge Paulo Lemann;
  • O ex-executivo do Itaú, Gustavo Ballassiano;
  • Carlos Henrique Villela Pedras, do Bradesco;
  • O ex-presidente do Santander e ex-diretor-presidente da Americanas, Sérgio Rial;
  • André Almeida, ligado ao Santander.


Entre os alvos está o empresário Carlos Alberto Sicupira, um dos principais acionistas da Americanas e integrante do grupo de bilionários que construiu um dos maiores conglomerados empresariais do país.

Ao lado de Jorge Paulo Lemann e Marcel Herrmann Telles, Sicupira iniciou sua trajetória no mercado financeiro na década de 1970, a partir do Banco Garantia. A parceria deu origem à gestora 3G Capital e à expansão de empresas globais, como a AB InBev, além da participação de controle na Americanas.

Outro nome citado na investigação é Paulo Alberto Lemann, ex-conselheiro da varejista e filho de Jorge Paulo Lemann, que já foi considerado o empresário mais rico do Brasil e um dos fundadores do grupo que controla a companhia. Apesar da relação familiar, a investigação desta fase tem como alvo Paulo Alberto Lemann, e não seu pai.

Além dos ex-dirigentes da companhia, a nova fase da investigação busca esclarecer se acionistas da empresa e representantes de instituições financeiras privadas tiveram participação nas irregularidades apuradas. 

Ao todo, a Justiça Federal autorizou o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo. A decisão também determinou o bloqueio de patrimônio dos investigados em valor que pode chegar a R$ 54 bilhões, montante correspondente ao prejuízo estimado pelos peritos responsáveis pelo caso.

Nova etapa da investigação

Com a 2ª fase da operação, a PF pretende esclarecer qual foi o envolvimento de acionistas e representantes de instituições financeiras nas supostas manipulações contábeis identificadas ao longo das investigações.

Segundo a corporação, há indícios de que os investigados tinham conhecimento de práticas adotadas durante anos envolvendo operações de risco sacado e contratos de verba de propaganda cooperada (VPC).

“Os suspeitos teriam conhecimento de supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) supostamente contabilizados sem lastro econômico”, informou a Polícia Federal.

Para os investigadores, o material reunido até agora também aponta, em tese, para a ocorrência de manipulação de mercado e associação criminosa.

“As apurações apontam indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa”, acrescentou a PF.

O que é investigado 

A apuração indica que demonstrações financeiras da Americanas teriam sido alteradas para esconder o real endividamento da empresa e apresentar uma situação patrimonial mais favorável ao mercado. Com balanços distorcidos, as ações da companhia permaneceriam artificialmente valorizadas, enquanto executivos recebiam remunerações variáveis atreladas aos resultados divulgados.

Entre os mecanismos analisados estão as operações de risco sacado, nas quais obrigações com fornecedores eram financiadas por instituições financeiras, e os registros de verbas de propaganda cooperada. Conforme a investigação, esses lançamentos teriam sido utilizados de forma irregular, ocultando passivos e registrando receitas sem respaldo econômico.

Da descoberta da fraude à nova etapa

O escândalo tornou-se público em janeiro de 2023, quando a Americanas revelou inconsistências em seus registros contábeis, inicialmente calculadas em aproximadamente R$ 20 bilhões. A revelação desencadeou o pedido de recuperação judicial da companhia e deu origem às investigações conduzidas pela Polícia Federal.

A primeira fase da Operação Disclosure ocorreu em junho de 2024 e teve como foco ex-integrantes da administração da empresa. Naquele momento, foram cumpridos mandados de prisão e de busca e apreensão. Um dos principais investigados, o ex-presidente da companhia Miguel Gutierrez, chegou a ser preso na Espanha, mas posteriormente obteve a revogação da prisão preventiva por decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

Em março deste ano, o Ministério Público Federal denunciou 13 antigos executivos e funcionários da Americanas. Conforme a acusação, eles integrariam uma estrutura destinada a mascarar a situação financeira da varejista, induzindo investidores ao erro por meio da divulgação de informações contábeis incompatíveis com a realidade.

Os denunciados respondem por crimes como organização criminosa, manipulação de mercado, falsidade ideológica e, em alguns casos, uso de informação privilegiada.

Também em março, a empresa informou ter solicitado à Justiça o encerramento do processo de recuperação judicial, sustentando que cumpriu as obrigações previstas no plano aprovado pelos credores.

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