Relator exibiu vídeos que comprovam a “gravíssima violência” daquele dia e que, segundo ele, atestam a materialidade dos crimes apontados pela PGR

Durante a sessão de julgamento dos acusados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos no Supremo Tribunal Federal (STF), enfatizou a gravidade dos crimes cometidos. A tentativa de minimizar a violência registrada na invasão às sedes dos Três Poderes é resultado do chamado “viés de positividade”, um mecanismo psicológico que leva as pessoas a esquecerem acontecimentos traumáticos com o passar do tempo.
A fala foi proferida nesta quarta-feira (26) durante o voto em que Moraes abordou a comprovação da materialidade dos crimes imputados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) a Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados, acusados de integrarem o núcleo central da trama golpista que resultou nos ataques às sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro de 2023. “A PGR imputou os crimes, apontou a materialidade e ficou comprovado, e aqui é sempre importante recordarmos que os crimes praticados no dia 8 de janeiro em relação à sua materialidade — não estamos falando em autoria ainda — foram gravíssimos”, afirmou.Play Video
De acordo com Moraes, entre as sustentações orais apresentadas pelas defesas dos réus, apenas duas não trataram diretamente da violência dos atos. Uma delas ignorou o tema, e a outra descreveu os eventos como uma “manifestação não armada”. As demais, mesmo negando a autoria de seus clientes, reconheceram a gravidade do ocorrido.
Para o ministro, o esquecimento gradual da violência cometida naquele dia favorece a propagação de narrativas falsas. “Esse viés de positividade faz com que nós, aos poucos, relativizemos isto e esqueçamos que não houve um ‘domingo no parque’, como salientei nas primeiras condenações. Não foi um passeio no parque. Ninguém, absolutamente ninguém que lá estava, estava passeando”, disse. Segundo ele, o local estava bloqueado e houve rompimento de barreiras policiais. Alguns agentes, relatou, foram agredidos com barras de ferro, como no caso de uma policial militar que teve o capacete quebrado.
Moraes também alertou para a tentativa de reescrever os fatos com a ajuda de redes sociais para disseminar desinformação. “As pessoas de boa-fé que têm esse viés de positividade acabam sendo enganadas pelas pessoas de má-fé que, com notícias fraudulentas e milícias digitais, passam a querer criar uma própria narrativa de ‘velhinhas com a Bíblia na mão’, de ‘pessoas que estavam passeando’, de ‘pessoas que estavam passeando e estavam de batom’, ‘foram lá passar um batonzinho só na estátua [do STF]'”.
O ministro relatou que vídeos e imagens exibidos durante o julgamento confirmam a “gravíssima violência” registrada nas dependências do Supremo Tribunal Federal. Ele mencionou um policial que foi arrancado de seu cavalo e agredido, além de agentes da segurança do STF que tiveram de resistir à invasão usando todo o arsenal de munição não letal disponível. “Tivemos aqui servidores, nossos policiais, feridos gravemente. É um absurdo as pessoas dizerem que não houve violência, não houve agressão e, consequentemente, não houve materialidade.”
Em seu voto, Moraes classificou o episódio como uma tentativa de golpe de Estado com características extremamente violentas, incluindo incêndios, destruição de patrimônio público e pedidos explícitos por intervenção militar. “Uma violência selvagem, incivilidade total, com pedido de intervenção militar e golpe de Estado. Usando o chavão ‘uma imagem vale mais do que mil palavras’, essas imagens não deixam nenhuma dúvida da materialidade dos delitos praticados”, concluiu após a exibição de um vídeo com os atos de violência cometidos pelos manifestantes que pediam uma intervenção militar e a volta de Jair Bolsonaro ao poder.
Com informações do Brasil 247
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