Pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão revelou a maioria das situações de medo das usuárias de transporte público; prefeituras são apontadas como as principais responsáveis pela ausência de segurança nas cidades

A pesquisa “Vivências e demandas das mulheres por segurança no deslocamento”, realizada pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, traz importantes elementos sobre a opinião de milhares de mulheres que utilizam diferentes formas de transporte em seu cotidiano.
Foram ouvidas quatro mil mulheres que utilizam diferentes formas de transporte em seu cotidiano. O estudo, de abrangência nacional, também destaca resultados das capitais Belém, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Além disso, a pesquisa captou as impressões e vivências das brasileiras nos seus deslocamentos urbanos: quatro em cada 10 mulheres saem de casa pelo menos cinco dias por semana.
Ônibus, carro e caminhada são as principais formas de deslocamento: 26% das mulheres recorrem ao ônibus como principal meio de transporte, mesmo percentual que se desloca com carro particular, enquanto 20% andam a pé. Entre mulheres negras e pobres, 30% e 36% utilizam mais ônibus, enquanto entre mulheres brancas e ricas, 36% e 42%, respectivamente, usam mais carro particular.
O levantamento evidenciou, por exemplo, a permanência de um padrão preocupante: a maioria das entrevistadas relatam ter enfrentado situações de violência, como importunação, assédio sexual e até estupro, durante seus deslocamentos pelas cidades. Os meios de transporte onde essas situações ocorreram foram: 73% durante deslocamento a pé; 45% em ônibus, 13% em carro particular, 10% no metrô e 8% em trens.
De acordo com o estudo, 97% das brasileiras sentem medo de sofrer violência quando se deslocam pela cidade; 80% declaram “sentir muito medo”; 66% têm medo de sofrer um assalto/furto/sequestro relâmpago; 66% têm medo de sofrer estupro e 58% de sofrer importunação/assédio sexual.
A partir dessa informação, o levantamento mostrou que 71% das mulheres já passaram por pelo menos uma dessas situações. Destas, 84% são mulheres LBTs (lésbicas, bissexuais e trans); 44% receberam olhares insistentes e cantadas inconvenientes; 26% sofreram assalto/furto/ sequestro relâmpago e 17% sofreram importunação/assédio sexual.
Ausência de segurança nas ruas
Fatores como ausência de policiamento, falta de iluminação pública, ruas desertas e vazias, espaços públicos abandonados, e falhas no transporte público contribuem para a rua ser um local de medo para as mulheres transeuntes. “As mulheres percebem que a sensação de insegurança deve-se à ausência de políticas públicas que poderiam tornar seu deslocamento mais seguro e apontam a ausência de policiamento e de iluminação e as ruas desertas como principais fatores que contribuem com a sensação de insegurança”, diz trecho da pesquisa.
A pesquisa revelou que as mulheres afirmaram ser a prefeitura como a principal responsável pela iluminação, gestão de parques e espaços desocupados e transporte por ônibus, enquanto divide a responsabilidade pelos transportes ferroviários e segurança pública com o governo estadual.
Mulheres negras e pobres utilizam mais o ônibus e a caminhada como principais meios de transporte, enquanto mulheres ricas usam mais carros particulares. Entre os meios de locomoção em que as mulheres brasileiras já vivenciaram uma situação de violência, maioria declara que estava a pé.
A percepção de insegurança é maior entre moradoras de bairros de periferia. E enquanto 26% das brasileiras consideram as ruas de sua cidade nada seguras, os percentuais de mulheres que fazem essa avaliação negativa sobem para 49% no Rio de Janeiro e 48% em São Paulo.
Reações das mulheres que sofreram violência
Questionadas sobre quais foram as reações quando sofreram violências, 74% afirmaram não ter reagido; 73% mudaram hábitos e comportamento após a situação de violência; 72% não registraram queixa por meio de canal de denúncia do meio de transporte; 66% não procuraram a polícia e 52% tiveram um abalo psicológico após a situação.
A maioria das vítimas mudou seus hábitos de comportamento após sofrer violência, ainda que momentaneamente. Mais da metade se sentiu abalada psicologicamente e apenas 23% receberam ajuda de pessoas que presenciaram a situação de violência.
Eleições 2024: segurança das mulheres deve ser prioridade
As informações poderão subsidiar candidatas e candidatos a prefeituras e vereanças para a formulação de políticas públicas nas áreas de segurança pública e mobilidade urbana. As participantes afirmaram reconhecer a responsabilidade das prefeituras na melhoria da segurança em relação aos riscos que enfrentam em seus deslocamentos pela cidade: nove em cada 10 brasileiras consideram importante dar prioridade ao tema da segurança das mulheres nas eleições municipais de 2024.
Com informações do PT Org
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