João Fonseca x Novak Djokovic: o marco do triunfo

Aos 19 anos, João Fonseca derrota Novak Djokovic de virada em cinco sets e ressuscita a magia brasileira em Roland Garros exatamente 22 anos depois do dia em que Guga fez o impossível contra Roger Federer

O saibro de Roland Garros tem um sabor todo especial para os tenistas brasileiros. Palco das três conquistas históricas de Gustavo Kuerten, o eterno Guga, nos anos de 1997, 2000 e 2001, a quadra parisiense parecia guardar em silêncio uma promessa, a de que um novo herói brasileiro voltaria a encantar o mundo.

A espera chegou ao fim ontem, quando João Fonseca derrotou Novak Djokovic na terceira rodada do campeonato realizado em Paris, e a data não poderia ser mais simbólica. Exatamente 22 anos atrás, no mesmo dia, o próprio Guga derrubava Roger Federer, então número 1 do mundo, por 3 sets a 0, também na terceira rodada do torneio parisiense. A história, generosa, escolheu repetir o roteiro.

O carioca João Fonseca, de apenas 19 anos, encarou o que muitos consideravam uma missão praticamente impossível: derrubar Novak Djokovic. Mas por que seria impossível? Djokovic é humano como qualquer outro. Sente a pressão, sente o cansaço, sangra se cortado. E foi exatamente assim que Fonseca o tratou, como um adversário, não como um mito intocável.

A tarefa não foi fácil. Afinal, o sérvio Novak Djokovic é o maior vencedor da história de Grand Slams, com 24 títulos. Antes do duelo, João Fonseca nunca havia vencido um jogador figurado no top-5 do ranking mundial, e não triunfava sob um atleta no top-10 desde a vitória contra Rublev, no Australian Open de 2025, número nove do mundo na ocasião.

Sob essa mística, os tenistas entraram em quadra às 11h. Para o próprio João Fonseca, os dois primeiros sets foram completamente do sérvio. “Acho que nem eu acreditava depois do segundo set. Ele estava me destruindo. Eu batia forte, ele voltava na paralela. Estava em todos os lados. Estava calor, a bola estava cuspindo rápido da raquete. Gosto de girar um pouco mais e ele só estava tocando”, comentou João.

Com 2 x 0 no placar, parciais de 6/4 e 6/4, Djokovic precisava de apenas mais um set para eliminar João Fonseca e avançar à próxima fase. Em toda a carreira, o sérvio nunca havia perdido uma partida em Grand Slam quando abria essa vantagem no placar, com uma única exceção. Em 2010, nas quartas de final deste mesmo Roland Garros, o austríaco Jürgen Melzer protagonizou o improvável e virou o jogo. Um caso isolado em mais de 15 anos de domínio absoluto. Mas João não iria se entregar por uma estatística.

No terceiro set, Fonseca elevou o nível. Impôs um ritmo mais intenso à partida e, pela primeira vez no confronto, colocou o saque de Djokovic em perigo. “Fui ficando mais forte nos pontos e consegui o break, eu acho que o fato de ele (Djokovic) estar sentindo um pouco de calor e cansaço, me deu mais de esperança. Pensei: ‘vamos continuar'”, afirmou o carioca.

No quarto set, Fonseca entrou embalado e logo abriu vantagem com a quebra. Djokovic parecia abatido, mas só parecia. Elevou o nível, devolveu a quebra e igualou o placar. O jogo chegou ao limite. Perder o set significava a eliminação para o brasileiro. Novak, irritado, não parava de questionar os treinadores a cada ponto perdido. Mas Fonseca não cedeu. Com 3h46 de partida, arrancou mais uma quebra, confirmou o serviço, fechou em 7/5 e levou o duelo ao quinto set, mais uma vez nesta edição de Roland Garros.

A partida havia chegado ao momento crucial. A cada ponto, a cada erro, a cada escolha, o preço subia. Na Philippe Chatrier, palco de tantos duelos históricos e ainda impregnada da aura de Guga, João Fonseca e Novak Djokovic travavam um confronto de 10 anos de diferença entre dois tenistas, uma eternidade de história separando suas gerações.

O sérvio quebrou primeiro. Fonseca respondeu. A 5/5, o carioca arrancou mais uma quebra e foi sacar para a vitória, ou melhor, para a história. No momento de mais pressão da carreira do jovem tenista em uma quadra ele anotou três aces. O jogo estava fechado, e o nome de João Fonseca, gravado para sempre em Roland Garros. A vitória marcou não só o início de uma grande trajetória, mas também foi um ótimo presente de João a sua mãe, Roberta Fonseca, aniversariante do dia.

“Estou arrepiado, sério. Sem palavras, sinceramente. Ainda nem caiu a ficha. Estou exausto… Nem consigo pensar direito, falar, muito menos. Só estou curtindo o momento e, caraca, que momento! Estou sem acreditar ainda”, celebrou João ao final da partida.

*Estagiário sob a supervisão de Marcos Paulo Lima

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