Chanceler brasileiro alerta contra iniciativas unilaterais, defende fortalecimento do bloco e anuncia aporte anual de US$ 100 milhões ao fundo do bloco
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta segunda-feira (29) que o Mercosul vive um “momento paradoxal” e precisa decidir se seguirá unido na busca por ganhos concretos para seus povos ou se aceitará um caminho de fragmentação, marcado por iniciativas unilaterais que podem enfraquecer o bloco.
A declaração foi feita durante a 68ª Reunião do Conselho do Mercado Comum (CMC), em Assunção, no Paraguai, na véspera da cúpula de chefes de Estado do Mercosul e foi reportada pela Agência Sputnik.
“Temos que decidir se seguimos unidos obtendo ganhos expressivos para nossas populações ou se optamos por regredir para um cenário anterior ao do Tratado de Assunção”, afirmou o chanceler brasileiro.
Vieira destacou que o comércio entre os países do grupo passou de US$ 4,5 bilhões, em 1991, para cerca de US$ 51 bilhões em 2025. Segundo ele, as exportações intrabloco também cresceram de forma significativa em todos os Estados-membros ao longo dos últimos 25 anos.
O chanceler ressaltou ainda os recentes avanços na agenda externa do Mercosul, como os acordos firmados com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio, conhecida pela sigla EFTA, e Cingapura.
O ministro anunciou que a cúpula desta terça-feira (30) formalizará o lançamento das negociações de um acordo comercial com o Japão. Segundo ele, também há expectativa de concluir ainda neste ano as negociações com o Canadá, iniciar tratativas com o Vietnã em agosto e ampliar o acordo comercial preferencial já existente com a Índia.
Apesar do cenário positivo no comércio exterior, Vieira criticou o surgimento de negociações conduzidas individualmente por alguns parceiros do bloco, sem coordenação no âmbito do Conselho do Mercado Comum.
“Essas iniciativas não estão em consonância com as decisões que determinam negociações em conjunto com parceiros externos. Isso não é negativo somente para dentro; manda um sinal errado para os parceiros externos, tanto os que já assinaram acordos como aqueles com quem estamos em tratativas”, afirmou.
O chanceler também defendeu uma solução consensual para a distribuição das cotas tarifárias previstas nos acordos comerciais do Mercosul, especialmente no tratado com a União Europeia. Para ele, a repartição deve seguir critérios transparentes e objetivos, de modo a permitir que os setores produtivos dos países-membros usufruam dos benefícios negociados coletivamente.
Durante o discurso, Mauro Vieira anunciou que o Brasil destinará US$ 100 milhões anuais à nova etapa do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul, o FOCEM, principal mecanismo de financiamento de projetos de infraestrutura e redução de desigualdades entre os países do bloco.
“O Brasil, maior contribuinte individual do FOCEM, atribui especial relevância à construção de um novo ciclo de cooperação. Um FOCEM-II deve assegurar maior previsibilidade financeira, aperfeiçoar os mecanismos de gestão dos projetos e incorporar, na condição de beneficiário, nosso novo Estado Parte, o Estado Plurinacional da Bolívia”, disse.
Vieira também defendeu que a Argentina amplie sua participação financeira no fundo e que Paraguai e Uruguai discutam uma atualização de suas condições de beneficiários, diante da evolução econômica registrada nas últimas décadas.
Além da agenda comercial e financeira, o chanceler brasileiro defendeu o fortalecimento da integração fronteiriça, a digitalização dos serviços públicos, o reconhecimento mútuo de identidades eletrônicas e a consolidação do Mercosul como polo industrial voltado à agregação de valor em minerais estratégicos.
Ao encerrar sua fala, Mauro Vieira afirmou que, diante do avanço do protecionismo e da fragmentação internacional, o isolamento deixou de ser alternativa para a região.
“A noção obsoleta, hoje, não é a cooperação, é o isolamento. A proposição extravagante, hoje, não é a da integração, é a da fragmentação”, concluiu.



