Resultado das eleições deixa governo e oposição sem maioria parlamentar; avanço histórico da representação árabe coloca partidos diante de negociações decisivas.
Ceilândia em Alerta – O resultado das eleições parlamentares de Israel colocou os partidos de maioria árabe no centro das negociações para a formação do próximo governo. Após a votação realizada na terça-feira (27), o bloco liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu perdeu a maioria no Parlamento, mas seus adversários também não conseguiram reunir, sozinhos, os votos necessários para assumir o poder. Diante desse cenário, a oposição poderá precisar do apoio de parlamentares árabes para construir uma alternativa ao atual governo.
A composição do Knesset, Parlamento israelense formado por 120 deputados, exige o apoio de pelo menos 61 parlamentares para a formação de uma maioria. Conforme os resultados divulgados nesta sexta-feira (30), o bloco de Netanyahu conquistou 53 cadeiras, enquanto os partidos de oposição liderados por Gadi Eisenkot somaram 48. As legendas de maioria árabe alcançaram 19 assentos, ampliando significativamente sua representação política.
O resultado não determina automaticamente a saída de Netanyahu do cargo. O primeiro-ministro permanece à frente do governo enquanto as forças políticas negociam a formação de uma nova coalizão.
Partidos árabes conquistam espaço decisivo no Parlamento
O crescimento da representação árabe é um dos acontecimentos mais importantes das eleições israelenses de 2026. A Lista Conjunta e o Ra’am ampliaram sua presença no Parlamento, resultado associado à elevada participação de cidadãos palestinos com nacionalidade israelense.
A nova composição parlamentar cria uma situação delicada para a oposição. Embora diferentes partidos defendam a substituição de Netanyahu, algumas de suas principais lideranças rejeitam a possibilidade de formar governo com legendas árabes.
Entre elas estão o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett e Avigdor Lieberman, que já manifestaram resistência à participação dessas organizações em uma coalizão governamental.
O principal nome da oposição, Gadi Eisenkot, também enfrenta dificuldades para reunir forças políticas com posições divergentes sobre segurança, relações com os palestinos e participação dos cidadãos árabes nas decisões nacionais.
Em entrevista à Agência Brasil, a professora de Relações Internacionais Karina Stange Calandrin, do Ibmec de São Paulo, explicou que os principais adversários de Netanyahu possuem posições semelhantes às do primeiro-ministro em temas militares e de segurança.
Segundo a especialista, essa proximidade ideológica dificulta a construção de alianças com partidos árabes, mesmo diante da necessidade de alcançar uma maioria parlamentar.
Resistência política pode dificultar formação de novo governo
Para o professor Michel Gherman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma alternativa seria a formação de um governo minoritário com apoio externo de parlamentares árabes.
Nesse modelo, os partidos árabes não precisariam necessariamente integrar o gabinete ministerial, mas poderiam oferecer sustentação parlamentar em votações decisivas.
A possibilidade, entretanto, depende de negociações e concessões entre grupos que possuem diferenças importantes sobre a questão palestina.
O cenário também evidencia uma contradição da política israelense: embora os cidadãos árabes participem das eleições e tenham representantes legitimamente eleitos, parte das lideranças partidárias judaicas rejeita sua participação na formação do governo.
As divergências não se limitam à composição parlamentar. Questões como a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, a guerra na Faixa de Gaza e as relações diplomáticas com países árabes continuam dividindo as forças políticas.
Netanyahu questiona resultado e denúncias de fraude são investigadas
Após o crescimento dos partidos árabes, Netanyahu e integrantes do Likud passaram a divulgar acusações de supostas irregularidades eleitorais e interferência estrangeira.
As denúncias mencionaram possíveis financiamentos provenientes do Catar, mas não foram acompanhadas de provas públicas capazes de demonstrar fraude generalizada.
Autoridades eleitorais israelenses afirmaram não haver evidências de irregularidades sistemáticas que comprometessem a votação. Investigações sobre suspeitas específicas poderão prosseguir, sem que isso signifique a invalidação dos resultados.
O presidente de Israel, Isaac Herzog, deverá conduzir as consultas políticas previstas no sistema parlamentar e indicar um representante para tentar formar governo.
Caso nenhuma liderança consiga reunir apoio suficiente, o país poderá enfrentar um período prolongado de negociações e até mesmo a necessidade de novas eleições.
O impasse ocorre em um momento de profundas tensões políticas e sociais, após anos de conflito na Faixa de Gaza e de questionamentos internos sobre a condução do governo Netanyahu.
Com 19 cadeiras, os partidos de maioria árabe passaram a ocupar uma posição relevante nas negociações. A participação dessas legendas, seja em uma coalizão formal ou por meio de apoio parlamentar externo, tornou-se um dos principais pontos de discussão sobre a futura composição do governo israelense.
Fonte: Agência Brasil
Fontes complementares: Agência Brasil – Negociações para formação do governo | Associated Press



