Dia da Visibilidade Lésbica reforça desafios no acesso à saúde feminina

Ceilândia em Alerta — O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, celebrado em 29 de agosto, chama atenção para questões que ainda afetam o cotidiano de milhares de mulheres, entre elas o acesso à saúde sexual, ginecológica e reprodutiva. Especialistas alertam que a heteronormatividade presente em parte dos serviços de saúde pode criar constrangimentos e dificultar o acompanhamento médico.

No atendimento ginecológico, por exemplo, uma abordagem que não presuma a orientação sexual da paciente pode contribuir para uma relação mais segura entre profissional e paciente. Perguntas sobre vida sexual, parcerias e práticas devem ser feitas de maneira individualizada, de acordo com as necessidades de cada mulher.

Para a ginecologista e obstetra Marcelle Thimoti, do Grupo Elas Brasília, presumir que toda mulher se relaciona com homens pode levar a uma avaliação inadequada de determinados aspectos da saúde.

Segundo a médica, quando a paciente sente que terá de explicar ou justificar sua orientação sexual para ser compreendida, pode acabar evitando novas consultas. Com isso, oportunidades de prevenção, diagnóstico e acompanhamento podem ser perdidas.

Atendimento precisa considerar cada paciente

A heteronormatividade pode aparecer no atendimento de diferentes formas, inclusive em perguntas e orientações aparentemente comuns. A recomendação é que profissionais não façam pressuposições sobre a vida sexual da paciente e procurem compreender sua realidade.

Essa abordagem permite avaliar individualmente questões como prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), vacinação, planejamento reprodutivo e necessidade de exames.

A orientação sexual, por si só, não determina a necessidade de determinados exames. No caso do HPV, por exemplo, o que deve ser considerado é a exposição ao vírus e as características de cada paciente.

Também existe o mito de que relações entre mulheres não oferecem risco de transmissão de ISTs. Dependendo das práticas sexuais, infecções podem ser transmitidas por contato entre mucosas, pele, secreções e pelo compartilhamento de acessórios.

Entre as infecções que podem ser transmitidas estão HPV, herpes, sífilis e tricomoníase.

Exames ginecológicos devem ser individualizados

O acompanhamento ginecológico também deve levar em consideração experiências anteriores da paciente. Exames como o especular e a ultrassonografia transvaginal devem ser explicados previamente, e a mulher precisa ter espaço para comunicar desconfortos ou solicitar a interrupção do procedimento.

O tamanho do espéculo, por exemplo, deve ser definido conforme as características anatômicas da paciente, e não pela orientação sexual.

A mesma atenção deve ser dada ao rastreamento do câncer do colo do útero. Ser lésbica não elimina a necessidade de acompanhamento quando a paciente possui colo uterino e se enquadra nos critérios estabelecidos para o rastreamento.

Discriminação pode afastar mulheres dos serviços

Dados do I LesboCenso Nacional, realizado com cerca de 22 mil mulheres lésbicas, apontaram que 25% das entrevistadas relataram ter sofrido discriminação durante atendimento ginecológico.

Experiências negativas podem fazer com que pacientes adiem consultas, deixem de realizar exames ou procurem atendimento somente quando apresentam sintomas.

O Brasil também passa por uma mudança na estratégia de rastreamento do câncer do colo do útero, com a adoção progressiva do teste de DNA-HPV como método primário. Nesse cenário, especialistas reforçam que a orientação sexual não deve ser utilizada como critério isolado para definir a necessidade de acompanhamento.

Racismo e desigualdade podem ampliar barreiras

As dificuldades de acesso à saúde também podem ser influenciadas por outros fatores sociais, como raça, cor e condição econômica.

Dados de pesquisa sobre o rastreamento do câncer do colo do útero no Sistema Único de Saúde (SUS) mostram diferenças na cobertura do exame entre grupos raciais. Entre 2021 e 2023, a cobertura nacional entre mulheres de 25 a 64 anos foi de 39,03%. O índice foi de 43,71% entre mulheres brancas, 36,20% entre não brancas e 37,58% entre indígenas.

Para Marcelle Thimoti, não basta que um exame esteja disponível. É necessário verificar se as pessoas conseguem efetivamente marcar consultas, comparecer aos atendimentos, buscar resultados e ter acesso a especialistas quando necessário.

A médica também destaca que o racismo pode aparecer de maneira menos evidente no atendimento, como na desvalorização de uma queixa, na demora para chegar a um especialista ou na dificuldade para obter um diagnóstico.

Quando essas barreiras se somam à lesbofobia, a permanência da paciente no sistema de saúde pode se tornar ainda mais difícil.

Atendimento especializado é importante, mas não deve ser a única alternativa

Em Brasília, o Ambulatório LGBTQIA+ do Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB/HU Brasil) oferece atendimento a mulheres lésbicas que enfrentam sofrimento relacionado à orientação sexual, preconceito e estigma.

Serviços especializados podem funcionar como espaços de acolhimento, além de concentrar conhecimento e contribuir para a capacitação de profissionais.

No entanto, especialistas defendem que o atendimento respeitoso não deve ficar restrito a esses locais. Mulheres lésbicas também precisam encontrar acolhimento e preparo técnico nas unidades básicas de saúde.

Capacitação deve envolver toda a equipe

A preparação dos profissionais precisa começar antes mesmo da consulta. Recepcionistas, enfermeiros, médicos e demais integrantes das equipes de saúde devem estar preparados para lidar com a diversidade sexual sem constrangimentos ou julgamentos.

Uma pergunta inadequada ou a presunção de que uma parceira é apenas uma amiga pode fazer com que a paciente se sinta insegura antes mesmo de entrar no consultório.

A capacitação deve abordar temas como diversidade sexual, prevenção de ISTs, vacinação, planejamento reprodutivo, comunicação e violência.

O planejamento reprodutivo também deve fazer parte desse cuidado. Casais de mulheres que desejam ter filhos podem recorrer a técnicas de reprodução assistida, como inseminação intrauterina e fertilização in vitro.

Para os especialistas, a proposta não é criar uma ginecologia separada, mas oferecer um atendimento capaz de reconhecer as particularidades de cada paciente.

No Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, a discussão sobre saúde reforça a importância de garantir que mulheres possam buscar atendimento sem precisar esconder sua orientação sexual ou enfrentar situações de preconceito.

Fonte: Correio Braziliense

Nota de transparência: Esta reportagem foi produzida com o auxílio de inteligência artificial para organização e aprimoramento do texto, passando por revisão, checagem e edição humana antes de sua publicação.

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