Empresários doam milhões a partidos em vez de candidatos e dificultam identificação de vínculos eleitorais

Ceilândia em Alerta – Grandes empresários têm direcionado doações financeiras a partidos políticos em vez de repassar os recursos diretamente às campanhas eleitorais. A estratégia cria uma distância entre o doador e o candidato, já que o dinheiro pode aparecer inicialmente nas contas anuais das legendas, e não diretamente na prestação de contas dos concorrentes.

Até o dia 24 de agosto, os partidos haviam declarado o recebimento de R$ 43,4 milhões em recursos privados destinados à manutenção das legendas. O valor representa mais da metade dos R$ 78 milhões recebidos pelas campanhas diretamente de pessoas físicas no mesmo período. Os dois montantes ainda podem aumentar à medida que novas informações sejam registradas no sistema da Justiça Eleitoral.

No caso das legendas, os valores incluem desde pequenas contribuições feitas regularmente por militantes até grandes doações concentradas no período que antecede oficialmente a campanha. Entre junho e agosto, os partidos receberam R$ 21,7 milhões em grandes contribuições.

Em 2026, 114 pessoas já doaram mais de R$ 20 mil aos partidos, totalizando R$ 24,4 milhões. Pelo menos cinco desses doadores também fizeram repasses diretamente para campanhas específicas. Do grupo, 53 pessoas contribuíram com mais de R$ 100 mil, enquanto seis doaram R$ 1 milhão ou mais.

No ano passado, quando não houve eleições, os doadores que repassaram mais de R$ 20 mil às legendas somaram R$ 15,4 milhões. Nenhum deles chegou a transferir mais de R$ 1 milhão.

Diferença entre recursos partidários e eleitorais

O fundo partidário é destinado ao funcionamento das legendas, mas parte desses recursos pode posteriormente ser transferida para campanhas eleitorais. Quando isso ocorre, a campanha precisa registrar o repasse e indicar que o dinheiro veio do partido.

Já o fundo eleitoral é destinado exclusivamente ao financiamento das eleições.

Uma das diferenças está também nos prazos de prestação de contas. As campanhas precisam apresentar suas informações financeiras à Justiça Eleitoral até 30 dias depois da eleição. As contas anuais dos partidos, por outro lado, podem ser apresentadas até 30 de junho do ano seguinte.

Essa diferença de prazos faz com que determinadas doações feitas aos partidos não apareçam imediatamente nas prestações de contas das campanhas.

Republicanos concentra grandes doações

O Republicanos aparece como um dos exemplos mais concentrados de grandes doações feitas por pessoas físicas. A legenda não apoiará nenhum candidato à Presidência da República e terá concorrentes ao governo em oito estados.

Entre 15 e 30 de junho, 16 pessoas ligadas ao setor sucroenergético, entre executivos, conselheiros e familiares de empresários, doaram aproximadamente R$ 1,3 milhão ao diretório nacional do partido.

Entre os doadores estão Rubens Ometto, da Cosan, integrantes da família Ometto, ligada à usina São Martinho, membros da família Garms, da Cocal, e conselheiros da Copersucar.

No total, o Republicanos recebeu R$ 7,4 milhões em doações de pessoas físicas.

As empresas mencionadas afirmaram que as contribuições foram feitas legalmente por dirigentes e familiares como pessoas físicas.

Doações e campanha de Tarcísio

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é candidato à reeleição pelo Republicanos. Até 27 de agosto, sua campanha havia recebido R$ 7,8 milhões do diretório nacional e R$ 1 milhão do diretório estadual do partido, por meio do fundo partidário.

A principal doação de pessoa física registrada diretamente na campanha foi feita por Fernando de Castro Marques, presidente da União Química.

Nas eleições anteriores, alguns doadores ligados à campanha de Tarcísio também foram alvo de questionamentos. Entre eles estão Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, do Banco Master, que havia doado R$ 2 milhões, e a pecuarista Maribel Golin, que contribuiu com R$ 500 mil e foi citada em investigação da Polícia Federal sobre lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), embora não tenha sido indiciada.

A campanha de Tarcísio e o Republicanos não responderam aos questionamentos sobre as doações feitas ao partido.

Doações também aparecem no PT

A prática também foi registrada em outras legendas. No PT, o empresário José Seripieri Filho, fundador da Qualicorp e proprietário da Amil, fez duas doações de R$ 1 milhão cada ao diretório municipal do partido em Araraquara (SP).

A cidade foi administrada por Edinho Silva, atual presidente nacional do PT e candidato a deputado federal. Seripieri é apontado como amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na prestação de contas da campanha de Edinho Silva aparecem R$ 1,1 milhão transferidos pelo diretório nacional por meio do fundo eleitoral e outros R$ 19,9 mil provenientes do diretório municipal, valor que teve Seripieri identificado como doador originário.

Apesar disso, o empresário não aparece diretamente na relação de doadores da campanha disponível no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A assessoria de Seripieri afirmou que as doações foram feitas em caráter pessoal e estão de acordo com a legislação eleitoral. Edinho Silva não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Como o dinheiro pode chegar às campanhas

Uma doação feita a um partido pode ser registrada como recurso destinado à manutenção da legenda ou como verba para campanhas eleitorais.

Quando o dinheiro é registrado como recurso para manutenção partidária, ele ainda pode ser utilizado posteriormente para despesas relacionadas às eleições, inclusive para quitar compromissos assumidos pelas campanhas.

Segundo o advogado Alberto Rollo, professor de direito eleitoral da Escola Paulista de Direito, é necessária uma autorização da direção do partido para que os recursos sejam utilizados nas campanhas.

Um integrante de um diretório estadual, ouvido sob condição de anonimato, relatou outra dinâmica. Segundo ele, uma legenda pode receber doações privadas, contabilizá-las como recursos para manutenção partidária e, posteriormente, transferir valores equivalentes do fundo partidário para campanhas, sem vincular diretamente os doadores privados aos candidatos.

Bilhões em recursos públicos

O fundo partidário está estimado em aproximadamente R$ 1,4 bilhão para 2026. Até agosto, os partidos declararam ter recebido cerca de R$ 451 milhões.

O dinheiro é distribuído mensalmente às legendas e utilizado para financiar suas atividades.

Já o fundo eleitoral conta com R$ 4,96 bilhões destinados exclusivamente às eleições. Os partidos podem transferir recursos do fundo partidário para as campanhas, desde que registrem os repasses.

Nesse caso, não há necessidade de indicar um doador originário, pois a obrigação de identificar a origem dos recursos se aplica ao dinheiro privado.

Dados ainda podem mudar

As informações sobre as doações são provisórias. As contas partidárias referentes a 2026 só precisarão ser entregues obrigatoriamente à Justiça Eleitoral em junho de 2027.

Além disso, a base de dados do TSE é atualizada à medida que os diretórios partidários registram novas operações.

Entre 15 e 22 de agosto, por exemplo, foram incluídas 119 novas doações, que somaram R$ 3,1 milhões. Algumas delas foram registradas com datas anteriores, inclusive de fevereiro.

O cenário, portanto, ainda pode sofrer alterações até que todas as movimentações financeiras dos partidos sejam lançadas e posteriormente consolidadas pela Justiça Eleitoral.

Fonte: Folhapress

Nota de transparência: Esta reportagem foi produzida com o auxílio de inteligência artificial para organização e aprimoramento do texto, passando por revisão, checagem e edição humana antes de sua publicação.

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