Um estudo fundamental de pesquisadores do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp, publicado na Revista Brasileira de Economia Social e do Trabalho (2025), derruba o mito da “quebra da economia” diante da redução da jornada. A pesquisa indica que reduzir em quatro horas a jornada semanal média no Brasil pode gerar até 4,5 milhões de novos postos de trabalho e elevar a produtividade por hora em cerca de 4%.
O artigo integra o “Dossiê 6×1”, compilação de 37 estudos organizada pelo Cesit/Unicamp com a Remir e o Dieese. Assinado por Marilane Teixeira, Clara Saliba, Caroline Oliveira e Lilia Alsisi, o trabalho converge com a nota técnica de Pietro Borsari, Ezequiela Scapini, José Dari Krein e Marcelo Manzano, que denuncia a insustentabilidade do modelo atual.
A ciência contra o dogma ortodoxo
A análise rebate o alarmismo de entidades, como a Fiemg, que preveem queda no PIB ou insolvência. Os economistas demonstram que a produtividade é uma construção social e que adaptações dinâmicas permitem manter ou elevar o produto nacional. O cálculo da Unicamp simula três caminhos para a preservação do PIB:
- Ganho de produtividade: Trabalhadores rendem mais em menos horas;
- Novas contratações: Abertura de vagas para cobrir as lacunas das escalas reduzidas;
- Cenário Híbrido: Combinação de eficiência e novas vagas, resultando nos 4,5 milhões de empregos, concentrados no comércio e serviços — setores onde a 6×1 é mais predatória.
O fator humano: descanso gera eficiência
A lógica baseia-se na fisiologia: o descanso adicional reduz erros, acidentes e adoecimentos causados pela exaustão. Historicamente, o Brasil já comprovou isso: após a Constituição de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas, a produtividade cresceu 6,5% ao ano na década seguinte.
O estudo destaca o impacto devastador da jornada atual sobre a juventude. Dados da Fiocruz (2024) revelam maior taxa de acidentes entre jovens de 20 a 24 anos, enquanto a saúde mental foi o tema urgente na Conferência Nacional da Juventude (2023), com 80% dos jovens relatando transtornos. A 6×1 é, portanto, uma crise de saúde pública.
Lucros bilionários e a falsa insolvência
Enquanto o discurso patronal usa a pequena empresa como escudo, os dados mostram que grandes redes de farmácias (R$ 91,3 bilhões de faturamento) e supermercados (R$ 348 bilhões) têm plena capacidade de absorver novas contratações. Nos pequenos negócios, a mortalidade empresarial liga-se à falta de crédito e planejamento, não ao descanso do trabalhador.
A experiência internacional — Islândia, Alemanha, Bélgica e o México de Claudia Sheinbaum — reforça a viabilidade da redução. O Brasil, com uma das maiores jornadas anuais do mundo (1.936 horas), caminha na contramão da dignidade.
Uma agenda para a vida
Para o economista José Dari Krein, o fim da 6×1 deve impulsionar uma reforma profunda contra a herança escravocrata do “excedente de força de trabalho”, que perpetua salários baixos. A proposta do Dossiê 6×1 é clara: reduzir a jornada com preservação salarial para distribuir os ganhos tecnológicos. É uma escolha política entre a exploração desenfreada e uma economia que sirva à vida.
Com informações do Brasil247
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