Presidente confirma ida ao G7, na França, onde espera se encontrar com o republicano e tratar das sobretaxas a produtos brasileiros
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou que vai à cúpula do G7, entre os dias 15 e 17 deste mês, em Evian, na França. E nessa reunião das sete maiores economias do mundo, a expectativa é de que o chefe do Planalto consiga se encontrar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para abordar a ameaça de nova taxação, de 25%, sobre produtos brasileiros. Estará na pauta de uma eventual conversa, também, a sugestão do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), divulgado nessa quarta-feira, de sobretaxar o Brasil e outros 59 países, em 12,5%, por falhas no combate ao trabalho forçado.
Segundo Lula, a ida à reunião do G7 terá o objetivo de “colocar ordem na casa” em meio a um “desmonte do multilateralismo e da democracia” no mundo. “Eu nem ia no G7, mas agora eu vou ao G7, porque é preciso alguém tentar colocar ordem na casa e dar um paradeiro nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições”, enfatizou, na abertura da reunião interministerial, nessa quarta-feira, no Palácio do Planalto.
A ida de Lula ao G7 ocorrerá na condição de convidado pelo grupo, formado por França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.
Na reunião com ministros, o presidente elevou o tom ao comentar as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Ele contestou os argumentos usados para justificar a medida e afirmou que o Brasil não aceitará ser tratado como uma “republiqueta insignificante”.
Ele reiterou que o governo foi surpreendido pela decisão de Washington, em meio aos diálogos mantidos com os EUA nos últimos meses. De acordo com o chefe do Executivo, o Brasil buscou construir uma relação baseada na cooperação e na diplomacia, mas acabou sendo alvo de medidas injustificadas.
Lula também questionou a alegação de que os Estados Unidos teriam deficit comercial na relação bilateral. Segundo ele, os números apontam justamente o contrário.
Na avaliação do presidente, a adoção das tarifas representa um momento delicado para a política externa brasileira e exige uma resposta firme em defesa da soberania nacional. Ele ressaltou que o país tem ampliado sua presença internacional e não pode aceitar tratamento desigual por parte de outras nações.
O petista relatou que no encontro que teve com Trump em Washington, entregou pessoalmente ao republicano quatro documentos, abordando temas considerados estratégicos para a relação bilateral. O material tratou de combate ao narcotráfico e ao crime organizado, da agenda comercial entre os países, do acordo negociado por Brasil e Turquia com o Irã em 2010 sobre o enriquecimento de urânio e de questões relacionadas a terras raras e minerais críticos. “Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos”, contou. “Confesso a vocês que fui pego de surpresa.”
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, foi novamente alvo de críticas do chefe do Planalto. “Esse Marco Rubio não gosta da América Latina e muito menos do Brasil. Ele é um latino-americano frustrado”, disparou.
Nada de choro
Aos ministros, Lula orientou “não baixar a cabeça” ante as ameaças e enfatizou que, caso não haja acordo com os Estados Unidos, o Brasil tem de procurar outros parceiros comerciais. “Se os Estados Unidos querem problema, nós não vamos ficar chorando, vamos procurar outros parceiros. Se eles não querem comprar, vamos vender para quem quiser comprar, a gente não vai ficar reclamando”, frisou.
Sem citar a família Bolsonaro, Lula disparou críticas a pessoas que, segundo ressaltou, trabalham para incentivar medidas contra o próprio país por razões eleitorais. “Vocês, ministros, não podem deixar de dizer isso em alto e bom som: estão tentando trair o Brasil com interesses mesquinhos, rasteiros, de uma disputa eleitoral”, disse. “Não há disputa eleitoral, em qualquer país do mundo, que possa dar valor a alguém que trai a pátria.”
As ameaças de sanções ao Brasil ocorreram dias depois da visita do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, e do irmão dele, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, ao chefe de Estado americano, na Casa Branca.
O presidente reiterou que o Brasil continuará buscando o diálogo diplomático com os Estados Unidos, mas ressaltou que país não abrirá mão de sua soberania nem aceitará decisões que prejudiquem seus interesses econômicos.
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