Programação de Corpus Christi teve missas, confissões, música, procissão e confecção do tapete. Na homilia, o cardeal arcebispo de Brasília, dom Paulo Cezar Costa, transmitiu uma mensagem criticando a polarização política na sociedade
O feriado de Corpus Christi deu espaço para a comunidade católica expressar a fé. Milhares de fiéis ocuparam a Esplanada dos Ministérios, nesta quinta-feira (4/6), para celebrar uma das principais datas do calendário religioso. Com cerca de 50 mil participantes ao longo do dia, a programação reuniu missa, procissão luminosa, confecção do tapete e manifestações públicas em homenagem à Eucaristia, tradição mantida em Brasília há mais de seis décadas.

O ponto alto foi a Santa Missa, presidida pelo cardeal arcebispo de Brasília, dom Paulo Cezar Costa, em frente à Catedral, seguida por uma procissão luminosa com bênçãos em torno da Esplanada. Logo no rito inicial, os ministros passaram pelo tapete confeccionado para a celebração.
Durante a homilia, dom Paulo destacou a importância da espiritualidade para além das preocupações materiais. “A vida não depende apenas de bens materiais. Esse é o grande problema, às vezes nós nos recordamos de Deus apenas quando o problema bate na nossa porta”, afirmou.
Em outro momento, o religioso também direcionou sua mensagem aos desgastes políticos que dividem o país, especialmente em ano de eleição. “Estamos vivendo uma sociedade pluralizada. Comungamos a eucaristia e continuamos a odiar aquele e aquela que pensa diferente de mim ou que tem uma opção política diferente. Mas pensar diferente, na vida de uma sociedade, deve ser riqueza, não motivo de ódio, desavenças ou brigas”, declarou. “O homem e a mulher de fé, que vive de eucaristia, não podem ter essas mesmas atitudes, mesmo que seja um político”, completou.

Na procissão, milhares de velas iluminaram a Esplanada. Neste ano, o Santíssimo Sacramento ocorreu no mesmo papamóvel utilizado por São João Paulo II durante sua visita histórica à capital federal. Ao longo do trajeto, o arcebispo concedeu bênçãos especiais aos enfermos, governantes e famílias.
A celebração teve a presença de autoridades, entre elas, os senadores Leila do Vôlei (PDT) e Izalci Lucas (PL), e os deputados federais Bia Kicis (PL) e Rodrigo Rollemberg (PSB).
Fiéis e voluntários
Entre os voluntários que ajudaram na cerimônia estava Sandoval Santos, 51 anos, militar e ministro extraordinário da Sagrada Comunhão (MESC). Servindo na distribuição da Eucaristia próximo ao tapete de Corpus Christi, ele descreveu a participação como uma missão. “É uma alegria muito grande estar aqui junto com o povo de Deus, uma satisfação enorme servir a Deus em nome de Jesus. Vou acompanhar os padres e os outros párocos para poder distribuir a Eucaristia aqui na área do tapete. Todos os anos participo”, disse.

Para o padre Roger Araújo, o evento representa o centro da fé católica. “Essa é a grande festa do amor de Deus por nós. A festa de Corpus Christi é a festa do corpo e do sangue de Cristo. É o grande presente que Deus nos deu, o grande presente que Jesus nos deixou antes de voltar para o céu. A Igreja se reúne no mundo inteiro para fazer memória daquele dia em que Cristo nos deixou o memorial da Eucaristia”, avaliou.

A publicitária Ana Cintia Silva, 33, moradora de Arniqueira, acompanhou a programação ao lado de familiares. “Veio a família toda. Todo ano é assim. É um dia muito importante para nós, católicos. Jesus Eucarístico é o mais importante para a gente, então é um sentimento muito bom. E esse ano eu participei da confecção do tapete também, foi muito legal”, contou.

Tapete colorido
Nas primeiras horas da manhã, a tradicional confecção dos tapetes transformou o gramado da Esplanada em um ateliê a céu aberto, reunindo milhares de pessoas. O trabalho coletivo, marcado pelo uso de materiais como serragem, borra de café, sal e areia, deu forma aos 125 metros de extensão e 25 quadros que compõem o percurso do Santíssimo Sacramento.
Sob o sol da capital, os bastidores da montagem dos painéis artísticos foram desenhados por histórias de superação de barreiras, inclusão social e forte tradição familiar que atravessa gerações. Entre os grupos que ocupavam o canteiro central, a Pastoral dos Surdos da Arquidiocese de Brasília levou para o tapete o painel “Fonte de Misericórdia”, utilizando a arte sacra para dar visibilidade e acolhimento à comunidade no maior evento católico do Distrito Federal.

“O nosso tema hoje reúne toda a pastoral de Brasília. Convidei todos os surdos para participarem desse momento”, explicou o coordenador do grupo, Erivelton Santos, 39, morador do Recanto das Emas, cujas falas em Libras foram traduzidas pela professora e intérprete Daniele Galeano, 44. Segundo a equipe, a produção conjunta reforça o papel de integração e acessibilidade dentro da igreja.
Alguns metros adiante, o painel de Nossa Senhora, intitulado “Sacrário Vivo do Amor”, foi montado pelo movimento juvenil VEM, da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Lago Sul), e mobilizou diferentes gerações da família Menegaz. A estudante Manuela, 11, ajudou a preencher o manto da santa com serragem colorida e brincou sobre o caráter efêmero da obra: “Olhando de cima fica lindo, pena que a chuva tira tudo depois”.

A mãe, Adriana Menegaz, 44, que participou do mesmo movimento católico quando tinha a idade da filha, acompanhou o trabalho emocionada ao lado da caçula Cecília, 10. “A gente precisa trazer as crianças para a igreja para vivenciarem esse amor. Ver minhas filhas aqui, 34 anos depois da minha estreia, faz toda a diferença”, concluiu.
Com informações do Correio Braziliense
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