Organizações internacionais apontam vínculos entre fornecedores da empresa e mais de 6,5 milhões de hectares desmatados; companhia contesta as acusações e afirma monitorar propriedades rurais por satélite.
Ceilândia em Alerta – A multinacional brasileira JBS, considerada a maior empresa de processamento de carnes do mundo, tornou-se alvo de 14 denúncias apresentadas nesta quinta-feira (5 de novembro) em quatro países europeus. As acusações envolvem suspeitas de lavagem de dinheiro relacionada à comercialização de gado proveniente de áreas associadas ao desmatamento ilegal na Amazônia brasileira.
As medidas foram encaminhadas por organizações integrantes da Coalizão Jurídica Transnacional (TLC), que também questionam a atuação de bancos, investidores, escritórios de advocacia e empresas de auditoria ligados à companhia.
As denúncias foram apresentadas a autoridades do Reino Unido, Irlanda, Alemanha e Países Baixos. O objetivo é investigar se recursos obtidos com atividades relacionadas a crimes ambientais circularam pelo sistema financeiro internacional sem a adoção dos mecanismos de controle exigidos pela legislação europeia.
A iniciativa se baseia em um levantamento realizado pela organização ambiental AidEnvironment, que identificou vínculos entre a cadeia de fornecimento da JBS e extensas áreas de desmatamento na Amazônia.
Investigação aponta 6,5 milhões de hectares desmatados
Segundo o estudo, fornecedores diretos e indiretos da JBS estiveram associados a aproximadamente 6,6 milhões de hectares desmatados entre 1988 e julho de 2025.
Desse total, cerca de 3,4 milhões de hectares estão relacionados a fornecedores diretos, enquanto outros 3,2 milhões correspondem a fornecedores indiretos.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram registros oficiais de movimentação de gado, cadastros de propriedades rurais e informações sobre desmatamento produzidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A análise examinou 12.576 fornecedores localizados nos estados de Mato Grosso, Pará e Tocantins.
De acordo com as organizações responsáveis, mais de 80% dos fornecedores analisados apresentaram registros de desmatamento em áreas especialmente protegidas, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente.
É importante destacar que a associação de propriedades ao desmatamento não significa, por si só, que toda a área identificada tenha sido desmatada ilegalmente ou que a responsabilidade criminal da JBS esteja comprovada.
A maior parte do desmatamento identificado no levantamento ocorreu antes de agosto de 2008. As denúncias buscam justamente investigar a origem dos produtos e dos recursos financeiros relacionados às operações comerciais.
Bancos e investidores também são citados nas denúncias
A estratégia jurídica adotada pela coalizão procura responsabilizar não apenas empresas que comercializam produtos de cadeias associadas ao desmatamento criminoso, mas também instituições que financiam ou prestam serviços a essas operações.
Entre as instituições mencionadas estão Barclays, Standard Chartered, Rabobank, ING Bank, BlackRock e a filial londrina do Banco do Brasil.
Empresas de auditoria e consultoria, como KPMG e EY, também aparecem entre os alvos das representações encaminhadas aos órgãos reguladores.
Nos Países Baixos, onde está sediada a controladora JBS N.V., foi apresentada uma notícia-crime ao Ministério Público solicitando investigação sobre possível lavagem de dinheiro.
No Reino Unido, uma subsidiária da companhia também foi denunciada às autoridades competentes.
O argumento jurídico das organizações é que animais criados em áreas ilegalmente desmatadas podem constituir bens provenientes de atividade criminosa. Consequentemente, os recursos gerados por sua comercialização poderiam configurar lavagem de dinheiro, conforme as circunstâncias e a legislação aplicável.
A coalizão sustenta que instituições financeiras e prestadores de serviços têm a obrigação de identificar operações suspeitas, realizar verificações adicionais e comunicar possíveis irregularidades.
Desmatamento também ameaça territórios indígenas
As organizações denunciam que a expansão irregular da pecuária na Amazônia provoca consequências ambientais e sociais que ultrapassam a destruição da vegetação.
Entre os impactos estão a pressão sobre terras indígenas, conflitos territoriais, ameaças a comunidades tradicionais e a perda de biodiversidade.
A coalizão cita a Terra Indígena Apyterewa, no Pará, como exemplo dos problemas associados à invasão de territórios para criação irregular de gado.
Representantes indígenas defendem que a responsabilização por crimes ambientais alcance também os agentes econômicos que financiam ou obtêm benefícios de cadeias produtivas relacionadas à destruição florestal.
Para as organizações, a atuação internacional é necessária porque os produtos agropecuários e os recursos financeiros circulam entre diferentes países, enquanto os danos ambientais se concentram nos territórios de origem.
JBS contesta acusações e defende sistema de monitoramento
Procurada pelo Brasil de Fato, a JBS afirmou que a organização responsável pelo levantamento não disponibilizou os dados e a metodologia utilizados para sustentar as acusações.
A companhia declarou que, sem acesso a essas informações, não consegue avaliar adequadamente as alegações apresentadas.
A empresa também informou que monitora seus fornecedores de gado na Amazônia desde 2010, utilizando imagens de satélite e sistemas de georreferenciamento.
Segundo a JBS, o mecanismo acompanha diariamente mais de 600 mil quilômetros quadrados do território brasileiro e bloqueia propriedades com registros de desmatamento ilegal, embargos ambientais, sobreposição com terras indígenas e quilombolas ou ocorrência de trabalho análogo à escravidão.
A companhia afirma seguir critérios de controle estabelecidos em protocolo relacionado ao Ministério Público Federal.
Denúncias ainda dependem de investigação pelas autoridades
As representações apresentadas na Europa não equivalem a uma condenação judicial. Caberá às autoridades competentes avaliar as informações, decidir sobre a abertura de investigações e verificar eventuais responsabilidades.
O caso amplia o debate internacional sobre a rastreabilidade da produção pecuária, a responsabilidade de grandes empresas e o papel do sistema financeiro no combate aos crimes ambientais.
Também evidencia os desafios enfrentados pelo Brasil para conciliar atividade econômica, fiscalização das cadeias produtivas e preservação da Amazônia.
A evolução das investigações poderá estabelecer precedentes importantes sobre a aplicação de normas de combate à lavagem de dinheiro em operações comerciais associadas a possíveis crimes ambientais.
Fonte: Brasil de Fato
Fontes complementares: Global Legal Action Network | Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos



