A proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao Ministério Público e à Polícia Federal foi recebida com forte desconfiança pelos investigadores do caso Master. Segundo reportagem do jornal O Globo, a avaliação interna é de que a colaboração apresentada até agora é “frágil”, seletiva e construída para proteger aliados estratégicos do dono do Banco Master.
O ponto que mais chamou atenção da equipe responsável pelas investigações foi o capítulo dedicado ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), considerado um dos principais operadores políticos ligados aos interesses do banqueiro em Brasília. O conteúdo apresentado por Vorcaro teria sido tão superficial e favorável ao parlamentar que, nos bastidores da investigação, ganhou o apelido de “beatificação de Ciro”.
A Polícia Federal cumpriu nesta quinta-feira (7) mandados de busca e apreensão contra o senador, investigado por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo os investigadores, porém, Vorcaro omitiu justamente os elementos mais comprometedores já reunidos pela PF, incluindo a suposta mesada de até R$ 500 mil paga ao parlamentar em troca da aprovação de matérias de interesse do Banco Master no Congresso Nacional.
Na interpretação dos investigadores, o banqueiro tenta preservar parte da rede política e institucional que construiu ao longo dos últimos anos e que, segundo a PF, foi alimentada por pagamentos indevidos a autoridades, parlamentares e operadores estratégicos. A leitura predominante é de que Vorcaro ainda aposta na influência acumulada para encontrar uma saída alternativa à colaboração premiada.
Os anexos entregues pela defesa do banqueiro, armazenados em dois pen drives encaminhados a delegados e procuradores, também frustraram expectativas porque deixaram de aprofundar relações consideradas centrais para o esquema investigado. Entre os nomes citados nos bastidores estão ministros de tribunais superiores e integrantes de órgãos de controle.
Segundo a reportagem de O Globo, investigadores avaliam que a proposta não esclarece de maneira satisfatória as conexões políticas e jurídicas do banqueiro. Além de Ciro Nogueira, também são mencionados nos bastidores do caso os ministros Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU).
O nome de Moraes aparece em razão de mensagens trocadas com Vorcaro antes da prisão do banqueiro, ocorrida em 17 de novembro do ano passado. Conforme revelou anteriormente o blog de Malu Gaspar, horas antes de ser detido pela Polícia Federal no aeroporto internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai com escala em Malta, Vorcaro enviou a seguinte mensagem ao ministro:
“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Outro ponto sob análise dos investigadores envolve o contrato firmado entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O acordo previa pagamentos de R$ 3,6 milhões mensais durante três anos para atuação junto a órgãos como Receita Federal, Banco Central, Cade e Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Segundo a reportagem, porém, não há registro conhecido de atuação concreta da advogada nesses processos.
Mesmo assim, a delação entregue até agora não aprofunda nem apresenta novos elementos sobre essas relações.
Nos bastidores das negociações, investigadores avaliam que Vorcaro tenta evitar mencionar autoridades com forte influência institucional. Uma fonte ouvida pela coluna resumiu o clima em torno da negociação:
“Sempre que alguém delata ministro do STF, as coisas desandam.”
A declaração faz referência ao precedente da delação do ex-governador Sérgio Cabral, que citou supostos pagamentos ao ministro Dias Toffoli. O acordo acabou posteriormente anulado pelo próprio Supremo Tribunal Federal.
Antes do início formal das negociações, a defesa de Vorcaro sinalizava que o banqueiro faria uma delação “completa” e “sem poupar ninguém”. Até agora, no entanto, a percepção dos investigadores é oposta: a proposta apresentada se aproxima mais de uma estratégia de defesa do que de uma colaboração efetiva.
A própria Polícia Federal encontrou indícios de preocupação de Vorcaro com o ambiente que cercava suas operações financeiras e políticas. Em conversa obtida pelos investigadores, enviada à então namorada, a influenciadora Martha Graeff, o banqueiro escreveu:
“Esse negócio de banco sempre falei que é igual máfia. Não dá pra sair. Ninguém sai. Bem não sai. Só sai mal”.
A mensagem foi enviada em 7 de abril de 2025, período em que Vorcaro tentava obter aprovação do Banco Central para a venda do Banco Master ao BRB. A operação acabou vetada pela autoridade monetária em setembro daquele ano.
Apesar do avanço das investigações, investigadores avaliam que o banqueiro ainda acredita ser possível preservar parte de sua estrutura de proteção política e institucional para reduzir os danos do escândalo que atinge o Banco Master e setores do sistema político brasileiro.
Com informações do portal 247
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