Criado em Ceilândia, centro mantém turmas para jovens, adultos e idosos, além de projetos de inclusão digital, acesso ao ensino superior, saúde e preservação da memória popular.
O Centro de Cultura e Educação Popular de Ceilândia (Cepafre) completa 37 anos em 2026 mantendo ações de alfabetização e educação popular em diferentes territórios do Distrito Federal. Criada em 1989 e inspirada nas ideias do educador Paulo Freire, a organização atende principalmente pessoas que tiveram o acesso à escola interrompido ou negado ao longo da vida.
As atividades alcançam jovens, adultos e idosos e procuram aproximar as salas de aula das comunidades. O Cepafre mantém turmas em locais como Ceilândia, Sol Nascente, Terreiro do Vô Congo Mãe Zenith d’Oxum e acampamento Nova Jerusalém. A proposta é reduzir uma das dificuldades enfrentadas por quem busca retomar os estudos: a distância entre a residência e os locais onde são oferecidas oportunidades de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Entre os estudantes está Jacira dos Santos, de 78 anos. Depois de passar grande parte da vida trabalhando e cuidando das sete filhas, ela começou a estudar no Cepafre neste ano. A alfabetização trouxe mudanças para sua autonomia: Jacira relata que antes dependia de outras pessoas para se deslocar por Brasília porque não conseguia ler endereços. Agora, afirma conseguir circular sozinha pela cidade e pretende continuar estudando até chegar à faculdade.
As histórias pessoais são incorporadas ao processo de aprendizagem. Segundo a professora Patrícia Lourdes, compreender a trajetória dos estudantes ajuda os educadores a identificar as circunstâncias que impediram o acesso à alfabetização. Entre os relatos estão situações de pobreza, dificuldades de acesso às escolas na zona rural e mulheres que foram impedidas de estudar por familiares ou companheiros.
Projetos vão além da alfabetização
A atuação do Cepafre não se restringe ao ensino da leitura e da escrita. O centro também desenvolve formação de educadores populares, atividades culturais, inclusão digital e iniciativas destinadas à continuidade da trajetória educacional.
Em 2026, uma das ações é o Projeto LER — Letramento, Educação Popular e Rede Social, realizado em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Ministério da Educação (MEC). A iniciativa prevê 12 turmas entre agosto e dezembro e combina letramento linguístico, social e digital.
Outro projeto é o ComFreire, cursinho popular ligado à Rede CePop e direcionado a jovens e adultos interessados em ingressar no ensino superior. A proposta permite que estudantes alfabetizados ou que retomaram sua trajetória escolar encontrem caminhos para avançar nos estudos.
O PodCei, iniciado em abril, promove discussões sobre temas relacionados ao cotidiano das comunidades, reunindo movimentos populares, pesquisadores, parlamentares e lideranças para conversar sobre educação, saúde, moradia, mobilidade, cultura e direitos sociais.
Na área da saúde, o AgPopSUS trabalha com educação popular e formação de agentes populares para atuação relacionada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O centro também mantém o Cine Popular, utilizando o audiovisual como instrumento de cultura e formação.
Outra frente é o Centro de Memória Viva, dedicado à preservação de documentos, produções acadêmicas, materiais audiovisuais e registros sobre as experiências de educação popular e as lutas sociais desenvolvidas em Ceilândia.
Sede própria chegou após 36 anos de atividades
Durante boa parte de sua história, o Cepafre funcionou em espaços cedidos. A situação mudou em dezembro de 2025, quando a instituição conseguiu um imóvel em Ceilândia por meio de contrato de cessão gratuita de uso.
A conquista permitiu concentrar atividades que anteriormente precisavam ser distribuídas em diferentes locais. O espaço, entretanto, foi recebido sem toda a infraestrutura necessária e passou por um processo de organização com doações e apoio de colaboradores.
Maria Madalena Torres, diretora de projetos e primeira presidente do Cepafre, recorda que as dificuldades estruturais acompanham a organização desde sua criação. Nos primeiros anos, materiais utilizados nas aulas precisavam ser guardados nas residências dos próprios educadores.
A história da instituição também mantém uma relação direta com Paulo Freire. O educador esteve em Ceilândia em 30 de agosto de 1996, durante a instalação do 1º Fórum Regional de Alfabetização de Jovens e Adultos, ocasião em que deixou as mãos moldadas em uma placa de cimento.
A metodologia de educação popular adotada pelo centro procura relacionar alfabetização e realidade social dos estudantes. Para seus dirigentes, entretanto, o trabalho realizado pela organização não deve substituir as políticas públicas de educação.
O presidente do Cepafre, Pedro Lacerda, defende que iniciativas de educação popular podem identificar pessoas que permanecem fora da escola e aproximá-las do sistema educacional, mas considera necessário que o poder público assegure a continuidade dos estudos.
A instituição chega aos 37 anos justamente em um período marcado por duas datas relacionadas à sua trajetória. O Dia Mundial da Alfabetização foi celebrado em 8 de setembro e, em 19 de setembro, é lembrado o aniversário de Paulo Freire, declarado patrono da educação brasileira pela Lei nº 12.612/2012.
Para estudantes como Jacira, a alfabetização representa também a possibilidade de construir novos projetos para o futuro. Aos 78 anos, ela pretende continuar sua formação e estabelece uma meta: prosseguir nos estudos até ingressar no ensino superior.
🔍 Fonte: Brasil de Fato; Centro de Cultura e Educação Popular de Ceilândia (Cepafre).
📰 Edição: Ceilândia em Alerta | Jornal Taguacei
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