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Mídia Repórter da Globo atuou como parça da Lava-Jato (mas “sujos” éramos nós)

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É lamentável que jornalistas tenham descido tão baixo, jogado sua ética na lama, para agradar os patrões e ascender profissionalmente

MORO É PREMIADO POR JOÃO ROBERTO MARINHO EM 2014. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em minha curta e melancólica (para mim) passagem pela Veja, aconteceu um episódio que colocou em xeque tudo que aprendi sobre a relação entre jornalista e fonte. Fui pautada para fazer o perfil de um advogado famoso em Brasília. Marcamos no restaurante de um hotel. Ele, ressabiado, já me recebeu reclamando:

– Poxa, mas a Veja vai falar mal de mim? Logo eu, que dei tantas informações, tantos furos à revista… Inclusive quando fulano (um jornalista com cargo de chefia na Veja à época) precisou de um advogado eu atuei para ele de graça.

Foi constrangedor, porque eu não tinha como não transmitir essa cobrança de favores a meus superiores. Lembro de ter comentado com minha chefe que seria muito raro algo do gênero acontecer com um profissional que tivesse passado pela Folha, como nós duas. Nos anos em que estive lá (não sei como está hoje), o jornal era absolutamente intransigente com esse tipo de comportamento, que rendia demissão imediata.

Mesmo antes da Vaza-Jato, a postura dos setoristas da Lava-Jato era questionável eticamente. Como assessores de imprensa, publicavam sem questionar os “releases”  vazados pela força-tarefa ou por Moro

“Cultivar sua rede de contatos é tarefa fundamental, mas evite a proximidade excessiva com fontes ou personagens do noticiário. Informe sempre aos superiores se tiver ou vier a desenvolver relacionamento que extrapole os limites profissionais e possa interferir no seu trabalho ou aparentar conflito de interesses”, prega o Manual de Redação da Folha. “O jornalista não pode oferecer valores ou favores pessoais em troca de informação. Tampouco pode aceitar valores ou favores pessoais para publicar ou omitir uma notícia.”

Os Princípios Editoriais do Grupo Globo dizem praticamente a mesma coisa: “Fazer e manter boas fontes é um dever de todo jornalista. Como a isenção deve ser um objetivo permanente, é altamente recomendável que a relação com a fonte, por mais próxima que seja, não se transforme em relação de amizade. A lealdade do jornalista é com a notícia”.

É natural que o jornalista tenha suas fontes, e que as conserve. Mas não é nada natural nem aceitável a promiscuidade entre um jornalista e suas fontes. Mesmo antes da Vaza-Jato, a postura dos setoristas da Lava-Jato já era questionável eticamente, porque nem sequer faziam investigação para suas “reportagens”: simplesmente recebiam as informações e as publicavam no jornal. Atuavam como assessores de imprensa da operação, publicando sem questionar os “releases” que lhes eram vazados sistematicamente pela força-tarefa ou pelo então juiz Sergio Moro.

Mas, à medida que mais mensagens vêm à tona, percebemos que (como suspeitávamos) havia algo de muito podre na relação entre a imprensa e a Lava-Jato. Os jornalistas que cobriam a operação colaboravam com os procuradores, davam sugestões, avisavam quando era um bom momento para jogar no ar algo novo, submetiam seu trabalho ao crivo da força-tarefa e de Moro. Sob qualquer ponto de vista, inadmissível a um profissional sério de imprensa –e também um comportamento vedado nos manuais de redação dos principais veículos do país.

Os jornalistas que cobriam a operação colaboravam com os procuradores, davam sugestões, submetiam seu trabalho ao crivo da força-tarefa e de Moro. Comportamento inadmissível a um profissional sério –e vedado nos manuais de redação dos principais veículos

Até agora, os nomes dos jornalistas vinham sendo poupados, com seus nomes cobertos por uma tarja nas reportagens do The Intercept Brasil que revelaram as mensagens hackeadas. Mas uma conversa em particular foi publicada esta semana com o nome dos protagonistas, porque os editores do site entenderam que “ajudar funcionários públicos na confecção de uma nota para rebater publicamente a defesa de um réu é um desvio ético e nada tem a ver com a relação habitual entre o jornalista e a fonte”.

É uma conversa exemplar do que um repórter não deve fazer. Nela, Vladimir Netto, repórter da TV Globo em Brasília, opina sobre a nota oficial da força-tarefa a respeito da condução coercitiva do ex-presidente Lula, no dia 4 de março de 2016. “Você acha que temos que fazer nota sobre a condução coercitiva?”, pergunta o chefe da força-tarefa, Deltan Dallagnol. “Não”, responde o repórter da Globo, como se fizesse parte da operação. “Pra quê? Não vejo o que vocês iriam ganhar com isso.” Não era uma relação jornalista-fonte. Dallagnol e o repórter da Globo agem como parças.

Outra reportagem mostrou que Deltan teria revisado o texto final do inacreditavelmente chapa-branca livro de Netto sobre a Lava-Jato. Em e-mail enviado ao site DCM, o repórter negou que o procurador tenha sido seu revisor. E, em resposta ao Intercept, afirma que os diálogos “não são verdadeiros”, embora as mensagens do Telegram tenham sido periciadas pela Polícia Federal antes de serem liberadas pelo Supremo Tribunal Federal, atestando sua integridade.

É lamentável o caminho tomado pelo jornalismo brasileiro para arrancar o PT do poder. É lamentável que jornalistas tenham descido tão baixo, jogado sua ética na lama, para agradar os patrões e ascender profissionalmente. Não são os jornais ou as televisões que escolhem nossos governantes; quem faz isso é o povo. O papel da imprensa é informar, perseguir a verdade dos fatos, não atuar em conspirações contra quem os patrões consideram seus inimigos políticos.

Não são os jornais ou as televisões que escolhem nossos governantes; quem faz isso é o povo. O papel da imprensa é informar, perseguir a verdade dos fatos, não atuar em conspirações contra quem os patrões consideram seus inimigos políticos

Todos esses anos, apenas por sermos de esquerda e admirarmos Lula –não poucas vezes criticado por nós– fomos chamados de “blogueiros sujos” pela mídia comercial. Nunca participamos de tramas antidemocráticas, nunca nos juntamos a falsos justiceiros para eliminar adversários de quem quer que seja, nunca divulgamos conversas obtidas ilegalmente para prejudicar pessoas.

A maioria dos “blogueiros sujos” é gente simples, trabalhadora, vinda dos movimentos sociais. Muitos nem jornalistas são. São militantes que resolveram fazer um blog para servir de contraponto ao massacre que o PT sofria da mídia comercial desde que Lula assumiu o poder, ao mesmo tempo em que jurava a seus leitores (e jura até hoje) ser “imparcial”.

Eu não sou imparcial. Isso é uma falácia feita para enganar pessoas crédulas, que não conhecem do quê o jornalismo é feito. Jornalista não tem que ser imparcial, tem que ser honesto. Sou jornalista formada em universidade pública, tenho mais de 30 anos de profissão. Passei pelos mais importantes veículos do país. Jamais em minha carreira participei de uma patifaria destas. Mentir, achincalhar, me envolver em situações desonestas, com gente desonesta, para influenciar politicamente os rumos do meu país. Que vergonha.

Eu pergunto: quem são os “sujos” agora?

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