Tragédia pouca é bobagem! Vai dizer o insuperável Ariano Suassuna que “por aqui o que não é buraco é beira”; é ‘destruição em massa’ e nossos corações seguem massacrados.
Pisados pelo rolo compressor da história. Nos angustiamos em todas as vinte e quatro horas do dia. A tristeza é evidente e um mal-estar forte e duro faz morada nos confins do nosso ser.
A esposa percebe o marido triste; um irmão identifica que algo de estranho acontece com o outro irmão; o companheiro do sindicato sabe que o entusiasmado camarada está diferente; o professor moderno segue com suas aulas com apatia notavelmente visível.
Como canta o bom samba: “A tristeza é senhora”! E eu, reparem… Passava todo descolado na Rua Santa Rita, aqui no centro de Itumbiara, quando avistei em uma loja uma bicicleta bem bacana; “talvez eu compre no mês que vem; bicicleta é saúde” pensei entusiasmado. De repente, ergo a cabeça e vejo na seção de TV’s – valha-me Deus! – que é a diplomação do “Coiso”.
Parei… Vi-me estático! Em um átimo de tempo despontou no juízo um turbilhão de coisas! Vi Dilma Roussef sendo pisoteada em um dos mais indignos processos políticos da história brasileira e que fora a farsa do impeachment.
Lembrei de Lula em uma São Bernardo do Campo fervilhante onde milhares de militantes firmes e honrados sustentavam sua liberdade, uma liberdade teimosa e necessária.
Veio a cena de um PT costurando estratégias para o pleito eleitoral de 2018; uma operação vigiada, difícil e arriscada; meio certa, meio errada.
Mas lembrei das águas do Rio São Francisco enchendo igarapés, açudes e cacimbas no semi-árido; me veio a cena das centenas de institutos federais e espalhados em todos os estados do país; garantindo o melhor da educação pública para milhares de meninos e meninas; uma vasta e bela garotada cabocla, negra, parda, misturada.
Lembrei do meu irmão, professor em um desses institutos federais; onde aulas, reflexões, feiras, trabalhos de campo e leituras e mais leituras obrigatórias se combinam diariamente para a construção e solidificação de um saber técnico mas também e, sobretudo, cidadão, ético, moral e moderno.
Recordei do ‘Bolsa-Família’, esse tão odiado programa social e que reduziu a miséria estrutural e ancestral desse país em velocidade incomparável e em ritmo revolucionário.
Lembrei… Rememorei das centenas e milhares de casas populares feitas pelo “Minha Casa, Minha Vida” aqui nesta Itumbiara de latifundiários, rentistas e oligarcas. Casas simples mas dignas, com energia elétrica, água encanada, calçamentos e vida para milhares de pobres e miseráveis.
Via aquela TV com aquele homem estranho; alguém que nunca teve o mínimo, o menor trato com os mais pobres, com os pequenos, com os que cometeram erros. Aquele homem que ofereceu capim para o meu povo nordestino. Lembram?
Entendi o quão cruel a vida e a história podem ser! Entendi que as coisas são o que são não por determinação divina mas por um conjunto de articulações inteligentes e perversas vindas “dos de cima” e que nós, em meio a erros e vacilos, também permitimos.
Lembrei do meu pai infartado; tão frágil mas sempre tão digno e de toda sua história desde os sertões do Piauí até seu sequestro pelo exército brasileiro onde fora acusado de ser (imaginem!) um terrível comunista.
Vi a imagem do padre Josimo Morais Tavares, de Chico Mendes, da irmã Doroty Stang e que atuava com economia solidária no sul do Pará; fora cruel e covardemente assassinada; é que organizar pobre, todos sabemos, pode ser perigoso.
Relembrei dos bons professores espalhados neste país; uma gente diferente e que, com sede de transformação, ensina com discursos fortes mas, sobretudo, com exemplos de vida; na dedicação teimosa e diária ao estudo, a pesquisa; na boa produção de ciência; nas contribuições teóricas sempre tão oportunas e necessárias.
Lembrei… Lembrei dos meus irmãos, da minha irmã, dos meus sobrinhos e de tantas pessoas queridas e que por uma razão ou outra votaram nesse homem estranho e odioso e que acaba de assumir o comando do nosso país.
Lembrei e, confesso, chorei! Não sou de ferro, meu corpo é feito de carne e de ossos; sinto, tal qual qualquer ser humano, medo, fome, sede, angústias e receios e, de verdade, é muito bom fazer as pazes com as lágrimas.
Eu vi… E retomei Caetano Veloso quando nos canta que “alguma coisa está fora da ordem”. E está mesmo… E já sabemos, só nós poderemos pôr abaixo este casarão de cadáveres perfumados.
E o faremos! Vamos sem medo! A vida é generosa e nós vamos vencer!
Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.
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