Multidão vai às ruas na Argentina contra cortes de Milei nas universidades públicas

Centenas de milhares de pessoas se manifestaram nesta terça-feira (12) em todas as províncias da Argentina, como parte da Quarta Marcha Universitária Federal. O protesto reuniu estudantes, professores, autoridades universitárias, funcionários não docentes, sindicatos, organizações e famílias que foram às ruas em defesa da educação pública e para exigir que o governo de Javier Milei cumpra a Lei 27.795 sobre o Financiamento das Universidades. A medida foi aprovada em outubro de 2015 após a derrubada do veto presidencial.

Em todo o país, marchas denunciaram a política de desfinanciamento e desmantelamento implementada pelo Executivo Nacional, num contexto em que 70% dos salários de professores universitários e funcionários não docentes estão abaixo da linha da pobreza, com perda salarial equivalente a oito salários desde o início do governo La Libertad Avanza.

Mais de 60 universidades em todo o país exigiram o cumprimento da lei e a destinação de verbas para garantir seu funcionamento. Segundo os organizadores, 1,5 milhão de pessoas se mobilizaram nesta terça-feira em diferentes partes do país.

Sob o lema “Pela educação, universidade pública e ciência nacional”, a mobilização em Buenos Aires foi organizada com o apoio da Federação Argentina de Universidades (FUA), da Frente Nacional de Sindicatos Universitários e do Conselho Interuniversitário Nacional (CIN), e teve seu epicentro na Plaza de Mayo, onde ocorreu o evento principal.

Durante o dia, também foram registradas mobilizações massivas em cidades como Córdoba, Rosário, Santa Fé, Mendoza, Neuquén, Salta, Jujuy, Mar del Plata, Corrientes e Resistencia, entre outras.

Durante a marcha na capital argentina, Guadalupe Perez Bentancur, estudante do curso de bacharelado em Artes Digitais da Universidade Nacional de Quilmes (UNQ), relatou que a situação é preocupante.

“Como estudantes, entendemos a situação atual. Participamos das greves, vamos às marchas com os professores e funcionários administrativos, mas, ao mesmo tempo, sempre existe a preocupação sobre se conseguiremos continuar nossos estudos, se conseguiremos nos formar”, disse.

“Estamos preocupados que o semestre não termine e que a universidade acabe fechando. Sabemos que a única coisa que podemos fazer agora é continuar participando das marchas, das greves e de todas as outras formas de protesto possíveis. Este é um problema visível; tudo o que resta é insistir e pressionar quem está no poder”, pontua Pérez Betancourt.

Segundo um relatório do Centro Ibero-Americano de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Inovação (Ciicti), o orçamento das universidades argentinas caiu este ano para 0,428% do Produto Interno Bruto (PIB), o nível mais baixo desde 1989. Esse número contrasta fortemente com os 0,526% do PIB registrados em 2025 e os 0,718% em 2023, antes da posse do atual governo.

O documento aponta que os fundos alocados pelo Ministério da Educação da Argentina para o desenvolvimento do ensino superior sofreram uma queda real de 21,8% em 2024, seguida por um declínio de 3,5% em 2025. As projeções indicam uma queda adicional de 16,9% para 2026, intensificando as preocupações no setor.

Uma das unidades acadêmicas que lideraram o protesto nos últimos meses foi a Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires (UBA), que perdeu um professor a cada dois dias desde dezembro de 2023.

Durante a mobilização, o reitor da instituição, Guillermo Durán, afirmou que Milei está descumprindo a legislação.

“Milei tem que cumprir a lei e não está cumprindo. Resta agora expressar isso a ele nas ruas. Esta é a quarta vez que estudantes universitários vão às ruas para dizer isso a ele”, lembra o reitor.

“O objetivo do governo é eliminar as universidades públicas de qualidade. Quando dizemos: ‘Eles querem fechar as universidades públicas’, eles respondem: ‘Vejam, não estamos fechando’. Não, o que eles estão fazendo é sufocá-las, estrangulá-las para que se tornem de baixa qualidade e, então, uma vez que estejam de baixa qualidade, dirão: ‘Agora não precisamos financiá-las porque são de baixa qualidade’. É perverso”, afirmou Durán.

Durante a mobilização em Entre Ríos, a estudante Sofía Citelli afirmou que “estudar se tornou muito mais difícil porque cada vez mais pessoas precisam sair em busca de trabalho em um contexto em que conseguir um emprego se tornou uma ‘missão impossível’”.

Da mesma forma, ela acrescentou que “alguns estão cursando menos disciplinas e outros simplesmente desistiram porque não conseguem mais pagar o aluguel, o transporte diário ou as despesas básicas”.

Cristian Silva, estudante de Antropologia Social na Universidade Nacional de Misiones, expressou preocupação com a situação em sua universidade. “Muitos professores manifestaram a intenção de abandonar seus cargos. 75% do corpo docente é composto por professores em regime parcial, que recebem um salário máximo de 364.000 pesos. E os estudantes estão vendendo chipa, focaccia, perfumes e outros itens para tentar ganhar algum dinheiro”, afirmou Silva.

Por sua vez, Karen Acosta, estudante do curso de bacharelado em Artes Digitais da UNQ, lamenta as condições dos estudantes e professores.

“Há muitos professores com doutorado e títulos de pós-graduação, e é muito injusto que eles estejam passando por essa situação em que as políticas não os protegem”, protesta a estudante.

Em Buenos Aires, os grupos organizadores denunciaram que a crise enfrentada pelas universidades “não é apenas orçamentária”. “O Poder Executivo, num ato sem precedentes de desprezo institucional, decidiu se insurgir contra os outros dois poderes: ignora a Lei de Financiamento das Universidades nº 27.795, aprovada e ratificada por ampla maioria no Congresso, e desconsidera as decisões judiciais que ordenam seu cumprimento imediato”, declararam membros da Confederação das Universidades Argentinas (FUA) durante a leitura do documento no evento principal na Plaza de Mayo.

“Não podemos permitir que os pilares de nossas universidades — trabalhadores, docentes, funcionários, pesquisadores e estudantes — sejam expulsos do sistema. Se não defendermos nossas universidades hoje, o futuro de prosperidade do país não passará de um sonho. É aqui e agora. As universidades públicas devem ser defendidas. Por mais e melhor educação pública e ciência”, concluíram.

O acesso ao ensino superior público na Argentina é gratuito para os estudantes desde 1949, e muitas das 57 universidades nacionais, financiadas pelo Estado, gozam de sólida reputação acadêmica. Essa tradição de gratuidade e excelência está ameaçada por cortes orçamentários, o que motivou a grande manifestação desta terça em defesa do modelo nacional de educação.

*Com informações do Brasil de Fato

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