O que fazer para aumentar segurança e evitar invasões em condomínios

Casos recentes no DF mostram a importância do assunto. De acordo com a SSP-DF, foram 1.359 furtos em residência, em apenas cinco meses

O caso do homem que invadiu um condomínio e tentou estuprar uma mulher, em São Paulo, acende um alerta para a necessidade de reforço na segurança condominial. Aqui no Distrito Federal, não há dados sobre invasões em condomínios, mas, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF), em apenas cinco meses de 2026, foram registrados 1.359 furtos a residências (que incluem condomínios) — uma média de nove por dia ou 271 por mês.

Apesar da falta de dados oficiais, não faltam casos de criminosos que invadiram casas ou apartamentos de condomínios na capital.

Em um dos mais recentes, ladrões encapuzados invadiram uma mansão no Park Way, na noite de 6 de junho. A movimentação foi notada pelo síndico do condomínio. A Polícia Militar (PMDF) chegou a ser acionada, mas nenhum dos criminosos foi localizado durante as buscas na região.

No fim de maio, na Asa Sul, um homem invadiu um apartamento e furtou joias de uma idosa de 85 anos. Segundo a PMDF, o criminoso entrou no apartamento por um andaime de uma obra que está sendo realizada no prédio onde a vítima mora. Ele fugiu após cometer o furto e não foi encontrado.

Em um dos casos mais graves dos últimos dias, um ladrão armado com faca invadiu um apartamento, também na Asa Sul, em abril. Segundo a moradora, ela acordou ao perceber o suspeito puxando seu lençol. O gesto levantou a suspeita da mulher, que temeu que o crime pudesse evoluir para um estupro. Ao reagir com gritos, a vítima conseguiu interromper a ação, fazendo com que o invasor fugisse imediatamente.

Já em março, um homem foi preso após invadir um apartamento, ameaçar o morador com uma faca e roubar pertences da residência. O crime ocorreu em Sobradinho II. Durante a abordagem da Polícia Militar, foram encontrados objetos furtados, além de uma quantia de maconha. Na delegacia, a vítima reconheceu o criminoso.

Falhas de comportamento

Especialista em tecnologia aplicada à segurança eletrônica, Haynner Leonardo disse ao Metrópoles que o principal “ponto cego” no treinamento dos funcionários de condomínios, atualmente, está no excesso de confiança na rotina.

“Depois de meses ou anos sem incidentes, é natural que alguns procedimentos comecem a ser flexibilizados. O porteiro passa a reconhecer rostos, criar atalhos e confiar mais na percepção pessoal do que no protocolo”, destacou.

Segundo ele, criminosos não procuram apenas falhas tecnológicas, mas também por falhas de comportamento. “Vejo muitos condomínios investindo em equipamentos modernos, mas esquecendo que a equipe operacional continua sendo uma das peças mais importantes da segurança”, alertou.

Medidas preventivas

Mas o que pode ser feito para reforçar a sensação de segurança dos moradores e tentar inibir a ação de criminosos que tentam invadir condomínios?

O Porta-voz da PMDF, o major Edimar Oliveira afirma que a orientação aos síndicos de condomínios é sempre no sentido de adotar medidas preventivas.

“Entre elas, o controle rigoroso de acesso de pessoas e veículos, sendo esse realizado na guarita, na parte externa do condomínio. Além disso, é essencial manter portões e sistemas de segurança, como câmeras, em pleno funcionamento”, detalhou.

O major ressaltou ainda que a participação ativa da comunidade nas ações de segurança comunitária, como as reuniões dos conselhos de segurança (consegs) e a rede de vizinhos protegidos, é muito importante.

“A prevenção é uma construção coletiva, realizada por moradores, síndicos, funcionários em conjunto com a PMDF para que crimes patrimoniais e invasões sejam evitados”, alertou, reforçando que, diante de qualquer situação suspeita, o acionamento da polícia, por meio do 190, deve ser realizada.

Ações conjuntas

A orientação repassada pelo porta-voz da PMDF é a mesma do Sindicondomínio-DF, segundo o presidente da diretoria executiva do sindicato, Antônio de Paiva.

“Estimulamos os condomínios para que, em conjunto, procurem a Polícia Militar para treinamento de funcionários e estabelecimento de ações em conjunto para melhorar a segurança”, afirmou.

Antônio pontuou que vários condomínios do DF já estão seguindo o que estabelecido nas reuniões com a PMDF. “Isso melhora muito a sensação de segurança de todos. Segurança é um dever do Estado, mas também é de nossa responsabilidade — moradores e proprietários — que queremos o bem para nós e para nossas famílias”.

Além disso, segundo ele, nas convenções coletivas de trabalho, em conjunto com Sindicato Laboral dos Funcionários em Condomínio, são estabelecidas várias atitudes de segurança na descrição das funções de porteiros (diurnos e noturnos), zeladores, vigias/rondas e garagistas, garantindo ações de segurança.

Conexão em tempo real

Román Cuattrin é presidente da Associação de Moradores e Amigos de Águas Claras (AMAAC) e síndico na região mais vertical do DF. Segundo ele, reuniões com outros síndicos para discutir a pauta de segurança na cidade são promovidas regularmente.

“A última, que reuniu mais de 30 síndicos, aconteceu em março. O encontro teve como objetivo incentivar o compartilhamento das imagens dos circuitos internos dos condomínios com o projeto DF360, da Secretaria de Segurança Pública”, comentou.

Além da atuação como síndico, o presidente da AMAAC participa da moderação de um dos grupos de WhatsApp da região.

Ele ressaltou a importância dessa conexão quase que em tempo real entre os próprios síndicos e também com os órgãos de segurança. “No grupo, são compartilhadas melhores práticas com relação à segurança e as ocorrências mais recentes sobre o tema”, pontuou.

Rosana Medeiros, síndica profissional desde 2012, atua em seis condomínios de Águas Claras e elogiou a criação do grupo. “Por meio dele, já alertamos sobre furtos, inclusive com imagens, as quais repassamos à portaria e que permitiram reforçar a segurança para evitar a mesma ocorrência em nossos empreendimentos”, comentou.

Camadas de proteção

Para o especialista Haynner Leonardo, a portaria não pode ser a única linha de defesa. “Nesses casos, se o invasor consegue passar pela portaria e em poucos segundos está na porta do apartamento. O condomínio tem apenas uma barreira de segurança, quando deveria ter, pelo menos, três”, avaliou.

De acordo com ele, uma estratégia eficiente trabalha com camadas de proteção. “Isso inclui controle de acesso por biometria ou credenciais, elevadores com restrição de andares, monitoramento inteligente por câmeras e protocolos de emergência bem definidos”, detalhou.

Segundo Haynner, o objetivo não é apenas impedir a entrada, mas dificultar a progressão do invasor. “Quanto mais tempo ele leva para avançar, maior é a chance de identificação, reação e acionamento das autoridades”, observou.

Só que, para o especialista, uma parte importante e talvez a “mais difícil” da segurança condominial, é o morador. “Muitos acreditam que a responsabilidade termina quando a taxa de condomínio é paga. Mas a realidade é diferente”, alertou.

“Grande parte das ocorrências acontece porque alguém segurou uma porta para um desconhecido, liberou um visitante sem confirmação ou ignorou um procedimento de segurança”, ressaltou.

Ele comentou que, quando o morador entende que faz parte do sistema de proteção, o condomínio inteiro se torna mais seguro. “A segurança da unidade depende diretamente das atitudes adotadas nas áreas comuns. Nenhuma tecnologia consegue compensar completamente comportamentos inseguros”, pontuou.

Direitos

Especialista em mercado imobiliário, Daniel Claudino afirmou que a primeira atitude prática que os moradores devem exigir do síndico, após qualquer evento de segurança, é a preservação e disponibilização imediata das imagens das câmeras, seguida de um relatório formal descrevendo o que os protocolos previam e se foram cumpridos. “Essa documentação é o que vai separar um crime que o condomínio não tinha como evitar de uma falha que gera responsabilidade civil”, reforçou.

Daniel ressaltou que falha de segurança não é um conceito jurídico único. “A consequência do evento é que define a responsabilidade. Se um invasor entra, mesmo com todos os protocolos do condomínio funcionando corretamente, isso não gera responsabilidade automática para o condomínio nem para o síndico”, alertou.

“A jurisprudência do TJDFT e do STJ é consistente nesse ponto: o condomínio só responde por furto ou dano em área comum quando há previsão expressa na convenção ou no regimento interno, ou quando se comprova falha concreta de um protocolo já existente, que deveria ter sido seguido e não foi”, acrescentou o especialista.

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