Para Rafael Cortez, caso da Conafer e CPMI no Congresso reforçam momento negativo na agenda do Planalto
A investigação da Polícia Federal sobre o desvio de R$ 640 milhões de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), por meio da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), tende a gerar repercussões políticas e de imagem para o governo federal. A avaliação é do cientista político Rafael Cortez, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo ele, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS tem revelado “elementos importantes, não só para o descobrimento do esquema, mas para o entendimento melhor da origem e do mecanismo desses desafios”. Diante disso, para Cortez, o governo deve enfrentar um cenário impopular. “É possível que comecemos a ver algum desgaste maior do que o esperado pelo Planalto, que imaginava conseguir dividir o ônus de todo esse processo com a administração anterior, com a prisão do ex-presidente do INSS [Alessandro Stefanutto]”, prevê.
Questionado sobre as causas estruturais das fraudes, o pesquisador relaciona o episódio ao desmonte de órgãos fiscalizadores entre 2017 e 2023, durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), justamente quando ocorreu o desvio. “Não há dúvida, esses fenômenos estão interligados. Em uma situação de menor controle, esse potencial [de fraude] aumenta. Então há, sim, uma relação causal entre o fortalecimento de órgãos de controle e a ocorrência de desvios”, explica.
No entanto, ele reforça, “nesse caso, é menos uma questão do que de fato aconteceu e mais de como o governo vai conseguir colocar a sua mensagem.” Para ele, o maior desafio do governo Lula (PT) agora é comunicacional. “Quando ocorre uma prisão desse tipo, tem um efeito midiático e imagético muito forte. Então vai dificultando um pouco essa tarefa do governo de estabelecer esse fio, pelo menos esse de 2017 até chegar a 2023”, afirma Cortez.
O cientista político aponta que esse contexto pode dificultar a tramitação de projetos prioritários no Congresso, como o Projeto de Lei (PL) Antifacção, enviado pelo governo, mas sob relatoria do deputado oposicionista e secretário licenciado de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP-SP). “O governo sente que perde o conteúdo desse projeto. Então tem esse primeiro impacto no próprio ambiente político”, analisa.
Do ponto de vista da opinião pública, Cortez destaca as pesquisas mais recentes, que indicam uma queda na aprovação do governo. “O governo vinha de um bom momento, com temas que ajudavam a sua imagem, e agora enfrenta um conjunto de dificuldades do ponto de vista de comunicação perante a opinião pública”, observa.
Apesar das dificuldades, o cientista político reconhece acertos na reação do governo, como a devolução dos descontos fraudados. “O governo foi feliz na escolha, não só evidentemente pelo impacto na opinião pública, mas pelo próprio desenho da política pública”, avalia. Segundo ele, fortalecer essa ação e dar transparência às apurações “vai fazer uma importante diferença para minimizar eventual dano”.
“Tem uma divisão hoje da sociedade muito grande e sabemos que uma parcela da centro-direita, que é da própria base do governo, começa a fazer essas movimentações [eleitorais] também. O governo precisa aumentar a sua coesão interna para justamente conseguir uma melhor resposta para todos esses dilemas de imagem”, conclui Cortez, destacando a proximidade das eleições de 2026.
Fonte: brasil de fato
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