Na entrevista que concedeu à imprensa independente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu organizar o debate sobre o caso Banco Master a partir de um critério simples, e politicamente incômodo para a direita: a cronologia dos fatos.
“Quando você apura, aparece”, afirmou. E, na sequência, estabeleceu o que chamou de “jogo da verdade”: identificar quando um problema começa e sob qual contexto institucional ele se desenvolve.
A cronologia ajuda a entender o ponto colocado por Lula.
Em fevereiro de 2019, ainda sob a presidência de Ilan Goldfajn no Banco Central, a tentativa de transferência de controle do então Banco Máxima para Daniel Vorcaro foi barrada. A decisão foi unânime e baseada em dúvidas relevantes: origem dos recursos, capacidade econômica do comprador e riscos reputacionais.
O alerta, portanto, existiu, e foi formal.
O que muda o rumo da história ocorre meses depois. Em outubro do mesmo ano, já sob a gestão de Roberto Campos Neto, a operação é aprovada.
Nesse intervalo, o comprador reapresenta a proposta com documentação ajustada e declarações retificadas. Ainda assim, permanece um dado sensível: havia questionamentos internos registrados sobre sua reputação.
Mesmo assim, o aval foi concedido.
É nesse ponto que se sustenta o argumento de Lula.
Não se trata de dizer que o crime nasce com a investigação atual, mas de apontar que a decisão institucional que permitiu a estruturação do banco ocorreu naquele momento.
Ou seja: o problema não começa quando aparece, mas quando se torna possível.
“Se você pegar a cronologia, foi tudo no governo passado”.
E foi mesmo, até o último ato, quando, ao final de seu mandato, Roberto Campos Neto tentou convencer os bancos a ajudarem na venda do Master para outra instituição, como contou o deputado federal Lindbergh Farias em entrevista à Globonews.
“E o Roberto Campos Neto chama uma instituição financeira e pede para essa instituição financeira comprar o Banco Master, preço de graça, zero centavo, um real. E esse assunto foi bater no Fundo Garantidor (de Crédito, o FGC)”, disse.
A ideia é que o Fundo liberasse empréstimo ao novo controlador, mas um dos seis bancos que comandam o FGC não concordou, já que Daniel Vorcaro sairia impune e com muito dinheiro no bolso.
“E essa operação não foi consumada, porque um banco, um representante de um banco, disse: ‘não, nós não podemos deixar que esse tipo de picaretagem, de banditismo, prospere. Mesmo que a gente perca mais dinheiro’”, revelou Lindbergh.
O deputado, que conversou com Lula e também com banqueiros sobre o caso, fez um desafio aos jornalistas que o entrevistaram na GloboNews: irem atrás dessa história.
Até agora, não foram, mas, na mesma entrevista, Malu Gaspar tentou implicar Lula, ao dizer que, na mesma época, Vorcaro foi recebido em audiência pelo presidente, como já é público. E Lindbergh respondeu que Lula recebe empresários – nesse caso, por sinal, na presença de muita gente –, mas em nada mudou a visão dele.
O Banco Central e a PF começaram a apurar o caso, e descobriram aquilo que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad considera a maior fraude financeira da história do Brasil.
Lula sabe que a imprensa corporativa não dá trégua a ele, e, na entrevista à mídia independente, citou o caso da edição do debate com Fernando Collor, em 1989, feita pela Globo, que ajudou na eleição de seu adversário.
Para demonstrar que nada mudou, Lula falou do caso recente do PowerPoint da GloboNews, que publicou a sua imagem associada a Daniel Vorcaro. Lula deu ao episódio o nome adequado: “sacanagem”, e revelou que conversou com um dirigente da Globo, mas, ao final, quem pagou o pato foi um “bagrinho”.
Para ele, ignorar a origem dos fatos, como faz a Globo, e enfatizar apenas o momento da investigação, equivale a inverter responsabilidades.
“Falem mal, mas falem a verdade. Não inventem história”, disse.
No fundo, o debate não é apenas sobre o Banco Master.
É sobre um padrão recorrente no Brasil: problemas estruturais que só ganham visibilidade quando já estão em funcionamento, e que acabam desonestamente atribuídos a quem os expôs e puniu, não a quem os viabilizou.
O “jogo da verdade” proposto por Lula, nesse sentido, não é uma disputa por narrativa, mas tentativa de fixar um marco civilizatório: ao mesmo tempo em que se expõem as consequências, encara-se a origem, para punir o criminoso.
E, nesse caso, a origem — pelos próprios registros institucionais — está em 2019, na gestão de Roberto Campos Neto. O Master, portanto, é mais um crime da turma de Bolsonaro.
Com informações do Brasil247
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