Lula vê ‘bagunça’ na Casa Branca em meio ao tarifaço

Lula viajou para o G7 mas não pediu reunião formal com Trump. Negociações são conduzidas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

O presidente Lula (PT) viajou à França para participar da cúpula do G7, mas decidiu não solicitar uma reunião formal com Donald Trump em meio ao tarifaço proposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. As negociações com Washington estão sendo conduzidas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em uma estratégia do Planalto para reduzir riscos políticos e diplomáticos, informa Malu Gaspar, no jornal O Globo.

A decisão de não insistir em uma agenda oficial com Trump foi apresentada por Lula a aliados próximos como parte de um cálculo de “redução de danos”. O presidente até admite a possibilidade de uma conversa rápida com o americano caso haja oportunidade durante a cúpula, mas preferiu evitar a formalização de um encontro que pudesse criar expectativas difíceis de controlar.

A cautela ocorre após os Estados Unidos anunciarem, no início de junho, uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Além disso, Washington avalia impor uma taxa adicional de 12,5% a 60 países, incluindo o Brasil, por supostas falhas relacionadas ao “trabalho forçado”.

O ambiente bilateral também foi afetado por outras decisões do governo americano. Entre elas, a classificação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital, o PCC, e Comando Vermelho, o CV, como organizações terroristas. Outro episódio que provocou incômodo no governo brasileiro foi a recepção do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por Trump na Casa Branca.

Nos bastidores, Lula avaliou que não teria algo novo a apresentar a Trump neste momento. Os dois presidentes já haviam se reunido há cerca de cinco semanas, em um encontro com ministros brasileiros e auxiliares do governo americano. Na ocasião, foi definido um calendário de conversas bilaterais entre integrantes de segundo escalão dos dois países, processo que ainda está em andamento.

Outro ponto levado em conta pelo presidente é a percepção de desorganização dentro da administração americana. Para Lula, o governo Trump seria uma “bagunça”, dividido entre grupos com posições diferentes sobre como atuar em relação à América Latina e ao Brasil. Essa avaliação reforçou a decisão de não se expor em uma reunião formal que poderia resultar em novo desgaste.

O receio no Planalto é que Trump assuma uma posição em uma conversa e, posteriormente, adote outra direção, como já teria ocorrido em momentos anteriores. Nesse cenário, a tentativa de agendar uma reunião oficial poderia aumentar a exposição de Lula sem oferecer ganhos concretos ao Brasil.

A frente considerada mais efetiva pelo governo brasileiro está nas tratativas conduzidas pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa. Ele vem negociando diretamente com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, e com o secretário de Comércio, Howard Lutnick.

Os três participaram de uma reunião virtual no sábado (13) e devem realizar uma nova rodada técnica nos próximos dias. A estratégia do Planalto é manter o canal de negociação aberto, mas sem deslocar o tema para uma nova conversa presidencial antes que haja avanços concretos.

A decisão de Lula também passa por uma leitura do cenário político interno. No entorno do presidente, a avaliação é que o tarifaço anunciado por Trump acabou fortalecendo o discurso de defesa da soberania nacional associado a Lula e prejudicou Flávio Bolsonaro.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada na semana passada indicou que 47% dos entrevistados veem Lula como quem melhor representa o patriotismo e a defesa do Brasil. Outros 37% atribuíram essa posição a Flávio Bolsonaro.

O levantamento também perguntou sobre o tarifaço dos Estados Unidos. Nesse ponto, 47% dos entrevistados disseram concordar mais com Lula, que acusa Flávio Bolsonaro de ter articulado as tarifas junto a Trump. Já 35% afirmaram concordar mais com o pré-candidato do PL, que diz ter pedido ao presidente americano que não impusesse novas sanções à economia brasileira.

Embora tenha evitado solicitar uma reunião oficial, Lula não descarta falar com Trump se houver uma oportunidade durante o encontro do G7. A diferença, segundo a estratégia adotada, é que essa conversa seria rápida, eventual e sem expectativa pública prévia.

A posição do Planalto combina cautela diplomática, cálculo político e tentativa de preservar margem de negociação com os Estados Unidos. Por ora, o governo brasileiro aposta em tratativas técnicas para lidar com o tarifaço e evitar que uma nova reunião presidencial amplie o desgaste em uma relação marcada por instabilidade e tensão.

Com informações Brasil 247

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