“EU ESTOU CANSADO…”

Excelente texto do poeta Alberto Pucheu nos dando uma visão demais lúcida, sobre o Brasil, as eleições, as incertezas e a grande crise política que vivemos atualmente.
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““Eu estou cansado”… Essa frase de Lula, dita e repetida em seu depoimento de ontem como um refrão, lembrou-me, ainda que com todas as diferenças, uma do poeta Fernando Ferreira de Loanda quando Sergio Cohn e eu o entrevistamos: “As palavras me fogem… As palavras me fogem…”. As palavras não fogem a Lula, mas, para Loanda, a fuga das palavras lhe causava certamente um enorme cansaço, por conta das isquemias que tivera. Era-lhe difícil preservar a continuidade da fala. O cansaço evidente de Lula não retira dele a imensa habilidade com as palavras, um desejo veemente de justiça nem um humor inteligente. Mas Lula está visivelmente cansado, tão cansado que diz e rediz isso como um refrão em sua fala. Como ele não estaria cansado? Estar cansado é pouco para tudo o que vem passando.

Quando do impeachment da Dilma, lembro-me bem de algumas pessoas de esquerda falando e escrevendo que eram favoráveis ao impeachment e outras, senão favoráveis, ao menos condescendentes a ele. Os argumentos eram dois: 1) Dilma e Temer eram a mesma coisa, nada mudaria de um governo a outro; 2) com o PT no governo, o nascimento de uma “nova esquerda” era impossível, portanto, sem o PT, uma nova esquerda, à esquerda do PT, se articularia.

Sempre discordei desses dois argumentos, achando o primeiro inteiramente absurdo e o segundo não menos. Antes de se construir uma nova esquerda sem o PT, eu achava que uma direita tomaria o poder e faria tudo para ficar nele por muito tempo, dificultando muito uma nova articulação para qualquer esquerda que ambicionasse a presidência. Eu achava que se uma nova esquerda não conseguia se articular com o PT, não seria evidentemente sem ele que ela conseguiria, ao menos, a curto prazo. E, sem o PT no governo, o estrago seria imenso, infinitamente maior do que o que estava em curso. Eu achava igualmente que uma esquerda, supostamente à esquerda do PT, teria de passar, em algum grau, pelo PT. Eu não poderia imaginar que o resultado seria o que foi, o de, com o golpe, não a direita, mas a extrema-direita tomar o poder.

As eleições mostraram, ao menos a mim, que, fazendo-me o que me parece ter sido uma autocrítica interna, o PT lançou uma chapa, quando Lula foi retirado à força da concorrência, com um candidato cuja integridade e feitos parecem-me inquestionáveis, com uma vice de um partido mais à esquerda que o PT (não mais um homem de direita, como Temer, mas uma mulher de esquerda, como Manuela. No Rio, com Marcia Tiburi, o PT lançou igualmente uma mulher, professora, filósofa – em algum grau, um perfil como o de Haddad, ainda que sem a experiência política dele). Desde o início dessas eleições, a autocrítica do PT se deu nesses atos.

Além disso, quem apoiou verdadeiramente o PT nessas eleições foi quem estava consistentemente à esquerda do PT, Guilherme Boulos, candidato do PSOL, intimamente ligado ao MST e MTST, que, tendo colocado as questões verdadeiramente de esquerda, corajosamente, continua apoiando o PT.

Curiosamente, se antes as coalisões do PT eram questionadas por uma certa esquerda, dizendo que o PT tinha de ir mais à esquerda, o que aconteceu com uma parcela dos comentadores durante às eleições? Um desejo de que o PT fosse para a direita. No momento em que o PT, parece-me que, tendo feito uma autocrítica interna, vai para a esquerda, exigem dele que ele vá para a direita, já que seu opositor era de extrema-direita. O que acabou sendo feito por Ciro Gomes e Marina, que querem conquistar esse eleitorado de centro-direita, fazendo as coalisões que foram criticadas quando o PT as fez para poder governar o país. Com Boulos apoiando o PT, e Ciro e Marina buscando uma nova frente, parece-me claro que essa nova frente com Ciro e Marina não é nem conseguirá ser de centro-esquerda, mas de centro-direita. Fico com Haddad, Manu, Boulos, MST e MTST e a frente que surgir a partir daí, já que Ciro fugiu para a Europa e, voltando na véspera mesmo da eleição, quer ser o portavoz da centro-direita, com Marina e quem chegar.

Às acusações que fazem ao PT nessas eleições, de ter colaborado com o antipetismo, jogando para o partido a responsabilidade da perda da presidência, hipervaloriza tal culpabilização da esquerda em detrimento de aceitar como uma força descomunal tudo o que a direita fez para vencer as eleições e tentar acabar com o PT. Pautas bombas, destituição da Dilma da presidência, prisão de Lula, proibição de Lula sair como presidente (que ganharia as eleições possivelmente no primeiro turno e proibição contestada pela ONU, que determinou que seus direitos políticos fosse preservados), fake news ao longo desse processo todo de criminalização do PT realizadas pela grande mídia concomitantemente à partidarização de Moro e da Lava Jato, fake news da campanha de Bolsonaro com os tais “disparos em massa” empresariais por caixa 2, um Supremo não acovardado mas visivelmente parcial, um TSE idem… Além disso, esse perverso jogar contínuo midiático comparando Haddad e Bolsonaro como dois extremos opostos. Como se o PT fosse um extremo! Como se Haddad fosse um extremo!!! Não há autocrítica que dê conta desses atos escandalosos em massa financiados a custos descomunais! (alguém já fez a conta de quanto o Brasil perdeu desde o golpe? digo, mesmo economicamente… para não falar do resto que importa tanto e mais ainda…)

Acabei de ver o depoimento de Lula ontem. “Eu estou cansado”. Sim, se eu também estou cansado, imagino Lula, o presidente que mais fez pelo Brasil em todos os tempos, ao menos, certamente, nos últimos 50 anos ou mais. Em que governo houve uma inclusão social maior do que a que houve no governo Lula? Alguns podem dizer que ele poderia ter feito isso, aquilo, aquilo outro… Sim, poderia. Mas quem FEZ mais do que ele? Quem realizou uma inclusão social maior do que a dele?

Para terminar, espanta-me que hoje queiram virar a página, esquecendo Lula. Esquecer Lula preso, não levar isso junto com novas pautas de esquerda, é naturalizar o golpe e não levar em conta tudo o que ele fez. Ainda não consigo imaginar uma nova esquerda, ao menos uma nova esquerda que tenha pretensões ao executivo, sem o PT. Consigo apenas imaginar uma centro-direita, que acabará onde sempre esteve, com o PSDB ou fazendo seu papel. Em todo caso, acho ao menos covardia, bem como uma naturalização do golpe, largarem Lula de lado. Vejo muitos dos que, de uma certa esquerda, sempre criticaram Dilma, atacando Bolsonaro pelo twitter que levou à honrosa retirada por Cuba de seus médicos, que prestaram mais de 100 milhões de atendimentos e atenderam em grande escala pequenos municípios do interior sem médicos e os índios. Mas eles são incapazes de elogiar Dilma por ter trazido os médicos cubanos. Não acho que temos de naturalizar o golpe nem o antipetismo. Temos de lutar por um país mais digno, com um pouco da dignidade, por exemplo, que Lula tem. Um país que tem Lula preso, que faz Haddad perder as eleições para ninguém menos do que Bolsonaro é um país doente. Muito doente. E não foi o PT quem criou essa doença. Com os erros que cometeu (quem não os comete?), o PT é, antes, o ponto fora da curva do Brasil. Porque a curva sempre foi mesmo dos militares, dos empresários mais ricos e tacanhos, dos ruralistas, da Globo e da grande mídia, que não sempre buscaram aniquilar seus opositores e os mais necessitados.”

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