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Focus mostra mercado lento para projetar queda dos juros no Brasil

Analistas revisam projeções após fatos consumados; juros em 15% ao ano mantêm economia refém de rentistas enquanto produção e emprego patinam sob custo do crédito

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O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (16) pelo Banco Central escancara uma contradição estrutural do mercado financeiro brasileiro: sua capacidade de reagir apenas a posteriori aos fatos econômicos, ajustando projeções quando os impactos já estão consolidados na vida da população.

O Comitê de Política Monetária (Copom) faz, nesta semana, nova reunião para decidir sobre a taxa básica de juros, a Selic, e a previsão do mercado financeiro é que ela seja reduzida em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. A expectativa está no boletim Focus, a pesquisa divulgada semanalmente pelo BC com a expectativa de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos.

Enquanto o Copom se prepara para a nova rodada de manutenção de juros altos, as instituições financeiras revisam para cima suas estimativas de inflação e mantêm projeções conservadoras para redução de juros, revelando um viés que privilegia a rentabilidade financeira em detrimento do crescimento econômico e da geração de emprego.

Inflação como pretexto: o álibi perfeito para juros estratosféricos

A previsão do mercado para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026 saltou de 3,91% para 4,1%, ainda dentro do teto da meta (4,5%), mas suficiente para justificar, na narrativa dominante, a manutenção de uma taxa básica de juros no patamar mais elevado desde 2006. A justificativa? Pressões externas, como a guerra no Irã e a volatilidade do petróleo.

A previsão do mercado financeiro para a inflação no país em 2027 permaneceu em 3,8%. Para 2028 e 2029, as previsões são de 3,5%, para ambos os anos.

A Selic, definida atualmente em 15% ao ano, é o único instrumento da autarquia para alcançar a meta de inflação. Apesar do recuo da inflação e do dólar, o Copom não interferiu nos juros pela quinta vez seguida, na última reunião, no fim de janeiro. A taxa está no maior nível desde julho de 2006, quando se situou em 15,25% ao ano.

Contudo, essa leitura seletiva ignora que a inflação brasileira tem componentes domésticos relevantes — como a dinâmica de preços administrados e a indexação generalizada da economia — que não se resolvem com juros altos. Ao contrário: taxas restritivas encarecem o crédito, desestimulam investimentos produtivos e transferem renda dos trabalhadores para o sistema financeiro, via remuneração de títulos públicos e aplicações de renda fixa.

O mercado “descobre” o óbvio: reações tardias como estratégia

Na semana anterior, o mercado estimava um corte de 0,5 ponto percentual na Selic. Bastou um novo cenário de incerteza geopolítica para que as projeções fossem revistas para baixo. Essa oscilação não reflete apenas prudência analítica; expõe uma cultura de gestão de risco que prioriza a proteção de ativos financeiros sobre o estímulo à economia real.

A projeção da Selic para o fim de 2026 foi elevada de 12,13% para 12,25% ao ano. Para 2027 e 2028, as estimativas permanecem em patamares restritivos: 10,5% e 10% ao ano, respectivamente. Em outras palavras: mesmo em cenário de normalização inflacionária, o mercado projeta um ciclo de afrouxamento monetário lento e gradual — suficiente para preservar margens de lucro do setor financeiro, mas insuficiente para impulsionar crédito, consumo e investimento produtivo.

Juros altos: quem ganha e quem perde na conta final

Quando o Copom eleva a Selic, o mecanismo é claro: encarece o crédito, estimula a poupança e reduz a demanda agregada. Na teoria, isso freia a inflação. Na prática, o custo social é assimétrico.

  • Ganham: rentistas, bancos e investidores em títulos públicos, que se beneficiam de remunerações reais elevadas;
  • Perdem: pequenos empresários, trabalhadores formais e informais, jovens em busca do primeiro emprego e famílias endividadas, que enfrentam crédito mais caro, menor oferta de vagas e pressão sobre o orçamento doméstico.

O crescimento projetado para o PIB em 2026 — 1,83% — é modesto, especialmente considerando que a economia brasileira vem de cinco anos seguidos de expansão. Com juros nesse patamar, dificilmente o país alcançará taxas de crescimento compatíveis com a redução do desemprego e a melhoria da distribuição de renda.

Em 2025, a economia brasileira cresceu 2,3%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com expansão em todos os setores e destaque para a agropecuária, o resultado representou o quinto ano seguido de crescimento. Apesar disso, o conservadorismo e pessimismo do mercado mantém as baixas projeções para o PIB.

Câmbio e expectativas: o círculo vicioso da ortodoxia

A projeção do dólar para o fim de 2026 permanece em R$ 5,40, sem alterações significativas. Contudo, a manutenção de juros elevados tende a atrair capitais especulativos de curto prazo, valorizando o real artificialmente e prejudicando a competitividade das exportações. É um equilíbrio frágil: depende de fluxos voláteis e de um cenário externo cada vez mais imprevisível.

O mercado financeiro, ao insistir em projeções conservadoras para a Selic, alimenta esse círculo vicioso. Ao sinalizar que só aceitará cortes de juros diante de uma convergência inflacionária “perfeita”, posterga o momento em que a política monetária poderia efetivamente apoiar a recuperação econômica — criando, assim, a própria condição que justifica sua cautela.

Copom sob pressão: entre a técnica e os interesses difusos

O Comitê de Política Monetária afirmou, em ata anterior, que iniciaria o ciclo de redução de juros em março, “caso a inflação se mantenha sob controle e não haja surpresas”. A condicionalidade, porém, é ampla o suficiente para permitir adiamentos indefinidas. E é exatamente isso que o mercado parece esperar: que o Copom mantenha o pé no freio, transferindo para a autoridade monetária a responsabilidade por decisões impopulares — enquanto os bancos seguem lucrando com o spread e a remuneração da dívida pública.

A revisão das expectativas de inflação para 4,1% em 2026, ainda que dentro da meta, serve como pretexto conveniente para postergar cortes mais robustos. Mas vale perguntar: desde quando a política monetária brasileira passou a ser refém de projeções de mercado que, sistematicamente, erram para cima e revisam tardiamente?

Uma agenda alternativa: juros, desenvolvimento e equidade

Há caminhos para romper esse impasse. Países com estruturas econômicas semelhantes à do Brasil têm experimentado ciclos de normalização monetária mais ágeis, sem comprometer o controle inflacionário. O que falta não é técnica, mas vontade política para colocar o crescimento e o emprego no centro da agenda macroeconômica.

Enquanto o mercado financeiro ajusta suas planilhas com a lentidão de quem não sente no bolso o custo do crédito caro, milhões de brasileiros seguem adiando projetos, reduzindo consumo e enfrentando o desemprego. A pergunta que fica é: até quando a política de juros do Brasil servirá prioritariamente aos interesses de quem vive de renda, em detrimento de quem vive de trabalho?

O Copom decide nesta semana. O mercado já sinalizou sua preferência e a sociedade segue exigindo que a decisão considere não apenas projeções de inflação, mas o impacto real dos juros na vida de quem produz, consome e sustenta a economia brasileira.

Com informações do Vermelho

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