Ceilândia em Alerta — Mulheres com 60 anos ou mais estão deixando de lado uma rotina sedentária para ocupar quadras, lagos e espaços destinados à prática esportiva em Brasília. Além de buscar mais saúde e qualidade de vida, muitas delas participam de competições e demonstram que a idade não é necessariamente um impedimento para continuar praticando esportes.
A partir dos 60 anos, o organismo feminino passa por mudanças como a redução hormonal e a perda progressiva de massa muscular e óssea. Essas alterações podem aumentar a possibilidade de lesões. Mesmo assim, com acompanhamento e preparação adequados, atletas da terceira idade seguem treinando e competindo em diferentes modalidades.
No basquete, a Associação dos Veteranos e Amigos do Basquete de Brasília (Avabra) mantém uma equipe feminina master que reúne cinco atletas com mais de 60 anos. Duas delas já tiveram passagem por ligas profissionais.
Segundo a coordenadora da equipe master feminina, Cintia Santos, de 50 anos, o trabalho também tem uma função de integração social. A proposta é aproximar mulheres que acreditam que a prática esportiva já não faz parte de suas vidas.
“Hoje, a gente consegue reunir mais de 30 mulheres em um horário que não é nobre. Então, tirar elas de casa para jogar basquete e incentivá-las para que disputem campeonatos é uma experiência muito importante para mim”, afirma Cintia.
Basquete como motivação
Entre as atletas está Mônica Inocente, de 60 anos. Ela pratica basquete desde 1985, mas precisou interromper a carreira por causa de lesões. Depois, dedicou-se à vida pessoal e ficou afastada das quadras durante um período.
Mônica afirma que se arrependeu de ter parado e considera importante recuperar o tempo perdido no esporte que sempre gostou.
“Eu me arrependi profundamente do período em que eu parei de jogar, porque muita coisa evoluiu e o basquete feminino cresceu. Ou seja, perdi todo esse tempo de evolução de um esporte que eu gosto muito”, relata.
A atleta também vê a prática esportiva como uma forma de incentivar filhos e netos a manterem uma rotina mais ativa.
“Eu quero dar essa continuidade e ser o exemplo para a minha família”, afirma.
Para Mônica, os benefícios do basquete vão além do condicionamento físico. Ela considera que o esporte coletivo também contribui para o bem-estar emocional.
“Jogar trabalha não só o corpo, mas a mente. Você se alivia, você relaxa, porque é uma terapia fazer um esporte coletivo na idade que eu tenho”, conta.
Canoagem
A prática esportiva entre mulheres com mais de 60 anos também ganhou espaço na canoagem. No Setor de Clubes Norte, a Associação do Remo Brasília oferece atividades para esse público.
A equipe master de canoagem havaiana já conquistou medalhas em competições nacionais e participou, em agosto de 2026, do campeonato mundial da modalidade realizado em Singapura.
De acordo com a treinadora Vanessa Veloso, de 40 anos, a rotina das atletas mais velhas segue padrões semelhantes aos das demais categorias. Os treinos são realizados de segunda a sexta-feira, às 7h, além de pelo menos uma hora de exercícios de musculação.
Vanessa destaca que incentivar a permanência das mulheres mais velhas no esporte é importante também por ser menos comum encontrar atletas dessa faixa etária em competições.
“Acho um ganho na qualidade de vida que elas estejam nesse ambiente. Isso é importante para envelhecer com bem-estar”, afirma.
A treinadora também diz que as próprias atletas servem de inspiração para outras pessoas.
“Eu quero chegar à idade delas com essa sagacidade de estar competindo, e eu acho que elas motivam todas nós a continuar remando aqui. São grandes incentivadoras”, afirma Vanessa.
Uma das integrantes da equipe, Priscila Mattos, de 63 anos, conta que a presença das mulheres 60+ ajudou a ampliar o número de praticantes da modalidade.
“Antes era muito difícil formar uma equipe na canoa, agora temos três times formados”, relata.
Segundo Priscila, o crescimento do grupo demonstra que a canoagem também pode ser uma opção esportiva para pessoas nessa faixa etária.
“Eu acho muito interessante porque a gente está conseguindo trazer mais pessoas nessa faixa etária e agora competimos. Ou seja, é um esporte para a idade”, afirma.
Atividade física e envelhecimento
Para o psicogeriatra Gustavo Omena, a ideia de que pessoas idosas devem evitar atividades físicas para diminuir o risco de lesões é equivocada. Segundo ele, períodos prolongados de repouso podem acelerar a perda de massa muscular, massa óssea e até capacidades cognitivas, aumentando a fragilidade.
O especialista explica que a possibilidade de uma pessoa idosa praticar determinado esporte não deve ser definida apenas pela idade cronológica. A avaliação deve considerar principalmente a capacidade funcional de cada indivíduo.
Segundo Omena, atividades de impacto podem ser praticadas nessa faixa etária quando são adequadamente prescritas e acompanhadas.
Na experiência clínica do médico, as diferenças entre pessoas idosas sedentárias e aquelas que mantêm uma rotina regular de exercícios podem ser observadas na autonomia para realizar atividades cotidianas e também na autoestima.
O especialista ressalta ainda que a autoconfiança na terceira idade pode estar relacionada à percepção concreta da própria capacidade física.
Para Omena, o exercício físico tem impacto amplo sobre diferentes aspectos do envelhecimento feminino, contribuindo para a longevidade e para a qualidade de vida, além de atuar sobre músculos, ossos, sistema cardiovascular, cérebro e humor.



