Brasil registra 26 assassinatos de defensores ambientais em 2025, aponta relatório

Número mais que dobrou em relação ao ano anterior e colocou o país na segunda posição mundial em mortes documentadas de defensores da terra e do meio ambiente, segundo a Global Witness.

O Brasil registrou 26 assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente em 2025, mais que o dobro dos 12 casos documentados no ano anterior. Os dados fazem parte do relatório anual da organização internacional Global Witness, divulgado nesta quarta-feira (16).

Com o aumento, o Brasil passou da quarta para a segunda posição entre os países com maior número de mortes documentadas, atrás apenas da Colômbia, que contabilizou 39 assassinatos.

No mundo, a Global Witness registrou pelo menos 124 defensores ambientais assassinados em 2025. A América Latina concentrou 85% dessas mortes, mantendo-se como a região mais perigosa para quem atua na proteção de territórios, florestas e recursos naturais.

Brasil e Colômbia, juntos, responderam por 52% dos assassinatos documentados globalmente no período.

A organização ressalta que seus números podem ser inferiores à dimensão real da violência. A dificuldade para registrar casos em áreas remotas, conflitos armados, ameaças e restrições ao trabalho de organizações da sociedade civil pode provocar subnotificação.

Disputas por terra estão no centro da violência

No Brasil, praticamente todos os assassinatos registrados pela Global Witness em 2025 tiveram como principal fator conflitos relacionados à terra.

Sete casos estavam associados a reivindicações indígenas pelo reconhecimento de territórios ancestrais e outros 14 envolviam principalmente agricultores familiares, comunidades tradicionais e disputas ligadas à reforma agrária.

Pará e Rondônia concentraram, juntos, metade das mortes documentadas no país. Nessas regiões, conflitos fundiários se sobrepõem à expansão de atividades econômicas, grilagem, exploração ilegal de recursos naturais e pressões sobre territórios indígenas e de comunidades tradicionais.

A Global Witness destaca que mais de três quartos das vítimas registradas mundialmente eram indígenas, pequenos agricultores ou pessoas afrodescendentes.

Disputas por terra apareceram associadas a mais da metade das mortes documentadas globalmente. Atividades extrativistas também foram identificadas entre os fatores de risco: a mineração esteve relacionada a 11 assassinatos, a exploração madeireira a oito e o agronegócio a seis.

O levantamento também chama atenção para a presença do crime organizado. Mais de um terço dos assassinatos registrados no mundo apresentou alguma ligação identificada com organizações criminosas ou pistoleiros contratados.

Ao comentar os dados ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o geógrafo Wagner Ribeiro, professor da Universidade de São Paulo (USP), classificou o fenômeno como um tipo de “assassinato seletivo”.

Segundo sua análise, as vítimas são frequentemente lideranças ou pessoas que dificultam atividades ilegais, invasões de terras, mineração irregular ou formas predatórias de exploração ambiental.

A expressão utilizada por Ribeiro representa sua interpretação sobre o padrão da violência e não uma classificação jurídica dos homicídios registrados no relatório.

Garimpo e crime organizado ampliam preocupação

Outro problema discutido pelo geógrafo é o crescimento do garimpo e sua presença em territórios indígenas.

Dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), citados na reportagem, indicam que a área ocupada pelo garimpo aumentou 562% entre 2016 e 2024.

Ribeiro ressaltou que existem técnicas de mineração capazes de reduzir impactos e tecnologias destinadas à recuperação de áreas degradadas. Para ele, porém, atividades ilegais continuam avançando sobre áreas ambientalmente sensíveis e territórios protegidos.

A Global Witness também identifica o fortalecimento do crime organizado como um dos fatores que agravam a situação dos defensores ambientais na América Latina.

O problema não se limita aos homicídios. A organização descreve um conjunto mais amplo de formas de intimidação, que inclui ameaças, perseguições, campanhas de difamação e criminalização de lideranças.

Apesar da piora observada no Brasil, o número global de assassinatos documentados caiu em comparação com 2024. A Global Witness alerta, entretanto, que essa redução não necessariamente representa uma melhora equivalente na segurança dos defensores, devido às dificuldades de documentação e à existência de outras formas de violência.

Desde 2012, quando a organização iniciou sua série histórica, foram documentados 2.375 assassinatos e desaparecimentos de defensores da terra e do meio ambiente em diferentes partes do mundo.

Para Wagner Ribeiro, além das medidas preventivas, o enfrentamento da violência exige investigação dos assassinatos e responsabilização dos autores. O relatório da Global Witness também aponta a garantia dos direitos territoriais e o fortalecimento de mecanismos coletivos de proteção como elementos importantes para reduzir a exposição de comunidades e lideranças aos conflitos.


🔍 Fontes: Brasil de Fato; Global Witness.

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