“É uma capitulação catastrófica para Israel”, diz analista sobre acordo de Trump com o Irã

David Horovitz, editor fundador do Times of Israel, afirma que memorando fortalece Teerã, limita Israel e deixa o país mais vulnerável

O acordo firmado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o Irã representa uma “capitulação catastrófica” para Israel, segundo avaliação de David Horovitz, editor fundador do Times of Israel. Em artigo publicado pelo veículo, o jornalista afirma que o memorando de entendimento assinado por Washington e Teerã não resolve os objetivos centrais da guerra e ainda deixa Israel mais vulnerável e constrangido militarmente.

A análise foi publicada pelo Times of Israel, em texto assinado por Horovitz, fundador e editor do jornal israelense em língua inglesa. Nascido em Londres e radicado em Israel, ele é um dos principais comentaristas políticos do país e costuma escrever notas editoriais sobre segurança, diplomacia e política israelense.

Segundo Horovitz, o acordo de Trump com o Irã não atende às metas inicialmente apresentadas pelos Estados Unidos e por Israel: conter o programa nuclear iraniano, desmontar o programa de mísseis balísticos, interromper o apoio de Teerã a aliados regionais e garantir liberdade de navegação. Para o analista, o memorando concede benefícios estratégicos ao Irã sem exigir contrapartidas suficientes.

Acordo deixaria Israel vulnerável

Horovitz sustenta que o memorando fortalece a República Islâmica ao permitir a liberação de recursos financeiros que, em sua avaliação, poderão ser usados pelo governo iraniano para sustentar sua estrutura interna, financiar aliados como Hezbollah e Hamas e manter seus programas nuclear e de mísseis.

Para ele, o pacto também restringe diretamente a liberdade de ação de Israel, ao vincular o país a um cessar-fogo que não foi negociado por seu governo. O texto do memorando prevê o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano, e compromete as partes e seus aliados a não iniciarem novas operações militares.

Na avaliação de Horovitz, esse ponto é particularmente grave porque impede Israel de agir militarmente contra o Irã caso considere necessário neutralizar ameaças nucleares ou militares. O jornalista afirma que o acordo “põe Israel diretamente em perigo e o constrange”, ao impor limites a um país que não participou das negociações.

Crítica ao tratamento dado ao programa nuclear iraniano

Um dos pontos centrais da crítica de Horovitz é a forma como o memorando trata o programa nuclear iraniano. Segundo o analista, o acordo transfere o tema para um período de negociação de 60 dias, sem resolver de imediato a questão do estoque de urânio enriquecido.

Ele afirma que o Irã já demonstrou disposição para resistir a concessões estratégicas e poderá usar esse intervalo para ganhar tempo. Horovitz lembra que autoridades norte-americanas já haviam alertado sobre dúvidas em relação às intenções iranianas e à disposição de Teerã de aceitar limitações reais em seu programa nuclear.

Para o editor do Times of Israel, o acordo falha ao permitir que o Irã mantenha o status quo de seu programa nuclear enquanto as negociações continuam. Em sua avaliação, isso equivale a preservar uma situação que já era considerada perigosa por Israel.

Horovitz acusa Trump de abandonar objetivos da guerra

O artigo também dirige duras críticas a Trump. Horovitz afirma que o presidente dos Estados Unidos iniciou uma guerra com objetivos ambiciosos, mas aceitou um acordo que não os concretiza. Para ele, a decisão representa uma demonstração de fraqueza presidencial e de falta de planejamento estratégico.

O analista afirma que Trump abandonou a guerra quando ficou claro que derrotar a pressão iraniana no Estreito de Ormuz poderia custar vidas norte-americanas. Segundo Horovitz, esse cálculo poderia ser legítimo, mas deveria ter sido feito antes do início da campanha militar.

Ele também critica declarações de Trump segundo as quais Israel deveria demonstrar gratidão aos Estados Unidos. Para Horovitz, o presidente norte-americano passou a tratar Israel como ingrato e agressivo, enquanto descreveu líderes iranianos como pessoas racionais.

Tensão com Netanyahu e divergência sobre o Líbano

Horovitz também aborda o distanciamento entre Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Segundo o artigo, Netanyahu foi deixado fora das negociações e não participou da cúpula do G7 na França.

O analista afirma que Trump passou a criticar publicamente a atuação israelense no Líbano, especialmente contra o Hezbollah. O presidente dos Estados Unidos disse que Israel estaria combatendo o grupo por tempo demais e com excesso de destruição, além de sugerir que a Síria poderia lidar melhor com o Hezbollah.

Para Horovitz, essa visão ignora a ameaça representada pelo grupo libanês, que ele descreve como uma força armada alinhada ao Irã e dedicada à destruição de Israel. O jornalista argumenta que, diante de inimigos que buscam sua destruição, Israel precisa manter liberdade de ação militar para sobreviver na região.

“Traição” aos iranianos e risco para os EUA

Na avaliação de Horovitz, a capitulação de Trump não prejudica apenas Israel. Ele afirma que o acordo também representa uma traição aos cidadãos iranianos que esperavam apoio contra o governo da República Islâmica.

O analista sustenta que o regime iraniano saiu fortalecido do memorando e poderá usar a trégua para reconstruir capacidades militares, recuperar sua economia e ampliar sua influência regional. Para ele, o acordo também trará consequências negativas para os próprios Estados Unidos.

Horovitz conclui que a guerra conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã era necessária, mas foi perdida por falhas de planejamento estratégico e pela fraqueza posterior da Casa Branca. Segundo ele, o resultado é um acordo que deixa Israel mais vulnerável do que antes do início do conflito.

Para o editor do Times of Israel, os termos obtidos por Teerã mostram que os líderes iranianos agiram de forma racional para preservar seus interesses estratégicos. Já Trump, em sua avaliação, não demonstrou a mesma racionalidade, com consequências graves para a segurança de Israel e de sua população.

Com informações Brasil 247

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