Presidente defende investimentos dos países ricos em nações menos desenvolvidas, com geração de emprego, renda e industrialização local.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, no encerramento da Cúpula do G7, que o crescimento econômico mundial precisa chegar ao Sul Global e não pode permanecer concentrado nas grandes potências. Segundo ele, países ricos devem investir em regiões como América Latina, África, Índia e China para criar novos consumidores, gerar empregos, ampliar salários e reequilibrar a economia internacional.
As declarações foram feitas nesta quarta-feira, 17 de junho, em entrevista coletiva em Genebra, na Suíça, após a participação de Lula na Cúpula do G7, realizada em Evian-les-Bains, na França, conforme informações da Agência Gov, via Planalto. O encontro teve como eixo central o debate sobre os desequilíbrios políticos, econômicos e sociais da ordem global.
“Para mim, cada reunião do G7 é a oportunidade de a gente discutir com os países desenvolvidos tanto o equilíbrio quanto o desequilíbrio na ordem política, econômica e social, levando em conta os avanços tecnológicos, a discussão sobre inteligência artificial e as necessidades de cada país”, afirmou Lula.
Investimento, emprego e renda
Lula defendeu que a retomada do crescimento global depende da ampliação dos mercados consumidores fora dos países desenvolvidos. Para o presidente, não haverá novo ciclo consistente de expansão econômica se a renda continuar concentrada nas economias centrais.
“É importante que os países ricos tomem como decisão uma coisa sagrada. Eles têm que entender que eles precisam criar novos consumidores. Onde é que estão os novos consumidores? Na Índia, na China, na África, na América Latina, com amplo poder de pessoas que querem ser consumidores. Para ser consumidores, tem que ter investimento, tem que ter emprego, tem que ter salário”, disse.
O presidente afirmou ainda que o crescimento precisa ser distribuído globalmente, sem reduzir o padrão de vida dos países ricos, mas permitindo que outras regiões tenham capacidade de se desenvolver e consumir produtos de maior valor agregado.
“O mundo precisa crescer para que a economia volte a crescer. Não adianta crescer só para a Alemanha, só para os Estados Unidos, só para a França, não. É preciso, sem diminuir o padrão de vida deles, crescer para outros países, para que eles possam vender, inclusive, os seus produtos de maior qualificação, de maior valor agregado”, declarou.
Segundo Lula, essa foi uma das mensagens centrais levadas por ele aos líderes do G7. “Essa é uma discussão que eu fiz questão de deixar claro na minha intervenção lá. É preciso vocês compreenderem que vocês precisam criar novos consumidores e os novos consumidores estão fora do país de vocês. Então, façam investimentos”.
Sul Global quer industrialização, não novo ciclo extrativista
Outro ponto destacado por Lula foi a exploração de minerais críticos e terras raras, recursos estratégicos para a transição energética, a economia digital e o avanço de novas tecnologias. O presidente defendeu parcerias com países desenvolvidos, desde que elas envolvam industrialização e agregação de valor nos países detentores dessas reservas.
“Quantos mais países estiverem interessados em fazer investimento nos nossos países, em comprar os nossos produtos e em estar dispostos a contribuírem participando da exploração, da industrialização e do enriquecimento das terras raras e de minerais críticos, desde que seja dentro do nosso país, sejam bem-vindos”, afirmou.
Lula alertou, porém, que o Brasil não aceitará repetir ciclos históricos de exploração de recursos naturais sem desenvolvimento interno. “Mas não queremos repetir o ciclo do ouro, em que tudo ia embora e a gente ficava com nada. O mesmo no ciclo do minério de ferro, em que a gente exportava tudo e foi feita pouca industrialização no Brasil”.
A fala reforça a posição brasileira de defender uma nova inserção internacional para o Sul Global, baseada não apenas na exportação de commodities, mas na formação de cadeias produtivas locais, transferência de tecnologia, geração de empregos qualificados e soberania econômica.
Ambiente digital e proteção de crianças e adolescentes
Na entrevista, Lula também relembrou o debate sobre o ambiente digital, tema que esteve entre as discussões da Cúpula do G7. O presidente disse ter apresentado aos líderes internacionais medidas adotadas pelo Brasil, como a proibição do uso de telefone celular nas escolas e o chamado ECA digital.
“Na questão digital, eu fiz questão de dizer para eles duas coisas importantes que o Brasil fez. A proibição de telefone nas escolas e o ECA digital, que é a regulação digital mais importante feita no mundo para jovens e adolescentes. E eu queria que eles conhecessem”, afirmou.
Lula participou de três sessões de debates com os membros do G7 e países convidados. A primeira, realizada na terça-feira (16), teve como tema “Construir Novas Parcerias e Reconstruir a Solidariedade Internacional”. As outras duas ocorreram na quarta-feira (17), com foco em crescimento econômico equilibrado, compartilhado e sustentável, além da implantação segura, rápida e eficiente da inteligência artificial.
Brasil endossa declarações sobre ambiente digital, câncer e narcotráfico
Ao final da Cúpula, os países do G7 emitiram oito declarações negociadas entre os membros do grupo. O Brasil endossou três delas, segundo o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
“A primeira, declaração sobre segurança no espaço digital para menores, na qual o presidente pôde oferecer sua perspectiva a partir dos recentes debates para aprovação do projeto de lei sobre o tema no Brasil. A segunda declaração foi sobre a cooperação para o combate ao câncer. E a terceira, declaração sobre a cooperação internacional para o combate ao narcotráfico, tema prioritário para o governo brasileiro e de grande relevância para as relações dos países com seus vizinhos e parceiros internacionais”, relatou Vieira.
A agenda brasileira no G7 buscou vincular desenvolvimento econômico, regulação digital, combate ao crime organizado e cooperação internacional. Para o governo Lula, esses temas fazem parte de uma mesma discussão sobre desigualdade global, soberania e reconstrução de mecanismos multilaterais de cooperação.
Reuniões bilaterais e negociação Mercosul-Japão
Além da programação oficial do G7, Lula manteve reuniões bilaterais com os presidentes da França, Emmanuel Macron; do Egito, Abdel Fattah El-Sisi; da Ucrânia, Volodymyr Zelensky; da Suíça, Guy Parmelin; da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen; e do Conselho Europeu, António Costa.
Mauro Vieira destacou ainda o encontro de Lula com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, no qual foi anunciado que serão lançadas negociações entre Japão e Mercosul na próxima cúpula do bloco, marcada para 30 de junho, em Assunção, no Paraguai.
“Tem especial destaque para o encontro que o presidente Lula manteve com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, no qual foi anunciado que serão lançadas as negociações entre o Japão e o Mercosul, na próxima cúpula do Mercosul, no dia 30 de junho em Assunção [Paraguai], no final deste mês”, afirmou o chanceler.
Acordo entre Mercosul e EFTA avança
O ministro das Relações Exteriores também informou que, durante a reunião com o presidente da Suíça, foi tratada a aprovação do acordo entre o Mercosul e a EFTA, sigla em inglês para Associação Europeia de Livre Comércio.
Segundo Mauro Vieira, o texto foi aprovado na Câmara dos Deputados no Brasil na semana anterior e avançava em ritmo acelerado no Senado Federal. Ele também afirmou que o Legislativo suíço aprovou o acordo por ampla maioria enquanto Lula se deslocava de Evian-les-Bains para Genebra.
“No Brasil, foi aprovado na Câmara dos Deputados na semana passada e está agora também num ritmo muito rápido e avançado em discussão no Senado Federal. E na tarde de hoje, enquanto o presidente viajava de Évian-les-Bains para Genebra, o Legislativo Suíço aprovou, por grande maioria, o Acordo EFTA-Mercosul. É uma notícia, sem dúvida, auspiciosa”, disse.
A participação de Lula no G7 reforçou a estratégia brasileira de reposicionar o país como liderança do Sul Global, defendendo uma ordem econômica menos concentrada, mais cooperativa e capaz de combinar transição tecnológica, desenvolvimento industrial e redução das desigualdades internacionais.
Com informações brasil 247



