A diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia dos Anjos, afirmou que o principal obstáculo enfrentado hoje pela indústria do petróleo no Brasil é o licenciamento ambiental, especialmente na Margem Equatorial. Em entrevista ao jornal O Globo, ela destacou que a estatal já desembolsou R$ 1,4 bilhão desde a aquisição do bloco na Margem Equatorial e questionou: “Quem gastaria R$ 1,4 bilhão para ter uma licença?”.
Sylvia sustenta que a Petrobras busca confirmar a presença de óleo na região que classifica como “o poço mais famoso do mundo”, mas enfrenta dificuldades para obter autorizações adicionais do Ibama, consideradas estratégicas para a continuidade da campanha exploratória.
Vazamento e multa do Ibama
No início de fevereiro, o Ibama aplicou multa de R$ 2,5 milhões à Petrobras em razão de um vazamento registrado em 4 de janeiro durante operação na Margem Equatorial. A estatal informou que o material envolvido era biodegradável e resultado de investimentos para atuar na região. O órgão ambiental, por sua vez, declarou que se tratava de uma mistura de produtos utilizados na exploração.
Ao comentar o episódio, Sylvia explicou a origem do problema técnico: “Do lado de fora do riser (tubulação suspensa que interliga os poços submarinos), há três tubos com 124 conexões por onde passa o fluido. […] Uma dessas 124 conexões estava com vazamento. Foi verificada outra conexão em profundidade diferente com vazamento. A investigação chegou à conclusão de que a conexão estava com folga. Coisas como essas acontecem. E investimos muito para esse fluido ser biodegradável”.
Ela acrescentou que a repercussão foi ampliada pelo contexto da região: “Se ocorresse na Bacia de Campos ou Santos, a gente avisava e arrumava. Mas a Margem está com todo esse clamor. Se fosse em outras áreas não seria um problema e seguiríamos a operação”.
Atrasos e incertezas na Margem Equatorial
A diretora reconheceu frustração com o incidente. “Fico chateada porque isso não devia ter acontecido. A gente pediu para o pessoal revisar dez vezes os procedimentos porque a gente sabe que lá está com o foco do mundo”, declarou.
A operação foi retomada, mas o cronograma sofreu atraso. A meta era alcançar 7 mil metros de profundidade entre fevereiro e março, porém a previsão agora é postergar por mais um mês. Segundo Sylvia, ao atingir essa profundidade será possível validar o modelo geológico: “Se tiver óleo, nosso modelo está certo. Se não, a gente tem que ajustar o modelo”.
Ela ressaltou que a exploração depende de múltiplos poços e de novas licenças: “Se não tivesse tido tanta dificuldade na licença, essa sonda ficaria cativa ali. Mas a gente perdeu o prazo, então não vai conseguir continuar com a sonda. Qualquer outra sonda, tenho que ter licença. Então é mais um gargalo”.
Custos elevados e preço do petróleo
O cenário internacional também impõe desafios. De acordo com Sylvia, os custos de plataformas aumentaram mais de 80%. “Antigamente era US$ 2 milhões e hoje está US$ 3,8 milhões. Nos últimos bids (leilões), nenhuma ficou menos de US$ 3 milhões”, afirmou.
A companhia trabalha com uma perspectiva de preço do barril em torno de US$ 50, com teste de resiliência abaixo de US$ 45. “O portfólio aguenta o petróleo até US$ 28, mas é lógico que você não ia ter lucro”, explicou, lembrando ainda das exigências de infraestrutura e da necessidade de remunerar acionistas.
Expansão internacional e avaliação da Venezuela
Diante da escassez de novas áreas no Brasil, a Petrobras avalia oportunidades no exterior, especialmente em águas profundas da África. A diretora confirmou que a estatal analisa blocos na Namíbia, em Gana e na Costa do Marfim, e observa “toda a costa africana”, priorizando áreas com potencial em águas profundas.
Sobre a Venezuela, Sylvia apontou riscos associados à instabilidade e ao passivo ambiental. “Tem um potencial riquíssimo, mas há o boicote, pois a expertise está concentrada em poucas empresas. E a produção da Venezuela caiu muito”, disse. Ela destacou ainda a situação ambiental do Lago de Maracaibo: “Olha, é riquíssimo em óleo ali, mas a Petrobras não tem como arcar com o dano ambiental”.
A executiva avaliou que, mesmo com eventuais mudanças no cenário internacional — como promessas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — não vê impacto relevante no curto prazo. “Acredito que em menos de cinco anos não é possível. Não vejo ameaça de curto prazo”, afirmou.
Debate sobre política energética
Sylvia argumentou que o país precisa decidir sua estratégia diante das metas climáticas. “O acordo de Paris é muito claro. Ele diz que você precisa reduzir as emissões. Não diz que você tem que parar de explorar o petróleo. Já reduzimos mais de 40% das emissões”, declarou. E questionou: “Qual país do mundo que põe leis contra sua força? Eu não conheço”.
Para a diretora, a demora na liberação de licenças para a Margem Equatorial não se sustenta apenas por critérios técnicos. “Há uma tentativa de eliminar a produção de petróleo. Mas isso é ledo engano, porque se para de produzir, vai importar”, afirmou. Ela reforçou que a exploração exige múltiplos poços e planejamento de longo prazo: “Ninguém faz exploração com um poço, tem que ter vários poços”.
Ao defender os investimentos já realizados, Sylvia reiterou o compromisso da estatal com a avaliação do potencial energético do país: “O DNA de Petrobras é avaliar o potencial brasileiro. Nenhuma empresa fez isso”.
Com informações do Brasil247
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