Incerteza com acordo de paz no Oriente Médio eleva juros futuros

Investidores passam a demandar taxas maiores por conta da perspectiva de aumento nos riscos fiscais e inflacionários

Diante do fechamento das bolsas dos Estados Unidos e das incertezas sobre a conclusão do acordo de paz no Oriente Médio, o mau humor dos investidores tem se refletido na curva de juros futura, que está subindo tanto no Brasil quanto nos EUA, por motivos diferentes. Enquanto aqui o motivo são os riscos fiscais que entraram no radar dos operadores, por lá, as apostas são de que o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) vai ter que subir os juros devido ao aumento das pressões inflacionárias.

A perspectiva do acordo de paz ajudou a reduzir as tensões e permitiu que o petróleo voltasse a ser negociado abaixo de US$ 80. O memorando previa o fim imediato das hostilidades em todas as frentes do conflito, e estabelecia um prazo de 60 dias para a negociação de um acordo definitivo.

Enquanto isso, Israel e Hezbollah concordaram com um princípio de cessar-fogo a partir desta sexta-feira, segundo autoridades americanas. Porém, episódios recentes de confronto no sul do Líbano evidenciam a fragilidade do ambiente e levaram ao adiamento da reunião entre EUA e Irã que ocorreria na Suíça. Com isso, analistas ainda não cravam um arrefecimento das pressões inflacionárias.

O estrategista da RB Investimentos Gustavo Cruz avaliou que o encerramento dos mercados nesta semana acabou sendo bastante estranho. “O que mais pesou no mercado acabou sendo a curva de juros, que foi ajustada para cima, e isso deve estar relacionado à demora na reabertura do Estreito de Ormuz”, destacou.

Enquanto isso, no Brasil, após cortar a taxa básica da economia em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, o Banco Central sinalizou, na quarta-feira, antecipar para 2028 o horizonte relevante. Com isso, abriu espaço para mais cortes de juros, o que deixou o mercado financeiro mau humorado e fez o dólar subir, no dia seguinte, quase 2%.

Temor fiscal

Além disso, a perspectiva de que, com a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, haverá uma piora do quadro fiscal, sem ajuste nas contas públicas, tem dominado o discurso dos agentes financeiros, que passaram a prever mais prêmio de risco para os títulos da dívida pública, de acordo com o economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho. 

“O Banco Central postergou o processo de convergência da inflação para a meta antes do segundo semestre, e deu espaço para mais queda de juros, e, com isso, além de abandonar a meta de 2026, deixou de lado a de 2027. Isso não pode acontecer, e o Banco Central vai ter que explicar melhor esse comunicado”, destacou.

“A dificuldade será viabilizar uma desaceleração da inflação de 2027 para uma convergência mais rápida em 2028. Enquanto aumentam as apostas de alta de juros nos EUA ainda neste ano, e da perspectiva de novo corte da taxa Selic”, afirmou ainda o economista. “O aumento de gastos e isenções fiscais do governo com base na cobertura da receita cria um fator de rigidez para a política monetária que faz o mercado exigir mais prêmio de risco para os juros dos títulos públicos, e isso está jogando os juros para cima”, explicou. 

Na avaliação de Velho, esse aumento da demanda de juros futuros está refletindo o fato de que o mercado está começando a colocar na conta a deterioração do quadro fiscal, que vai dificultar o afrouxamento da política monetária do Banco Central. “Se houver uma queda sustentável no preço do barril do petróleo, esse movimento poderia ajudar a reduzir os juros mais rápido”, destacou. 

Ele lembrou que o Tesouro Nacional vem reduzindo a oferta de títulos públicos para evitar aumento dessa taxa ainda mais, pois já está pagando mais de 8% acima da inflação nos papéis indexados ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Segundo Velho, as apostas para aumento da taxa de juros nos Estados Unidos em setembro deste ano passaram de 24% para 50%. Até julho já entrou no radar e isso não estava previsto nos últimos meses”, destacou.

No meio da tarde de ontem, as taxas de juros futuros passaram a renovar máximas, com alguns contratos do DI para janeiro de 2029 perto de 15% ao ano, uma vez que há um consenso no mercado de que, em 2027, será inevitável um ajuste fiscal.  A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) operou quase todo o dia no vermelho, mas encerrou o pregão de ontem com valorização de 0,03%, aos 168.333 pontos. Enquanto isso, o dólar teve uma leve queda  de 0,20%, cotado a R$ 5,165 para a venda, e encerrou a semana com valorização de 2,04%, com avanço de 2,42% no mês de junho. No ano, as perdas acumuladas, que ficaram acima de dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio estava em R$ 4,90, agora, somam 5,91%.

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