A primeira Copa do Mundo a ser realizada pela Fifa em todo o subcontinente da América do Norte está sob risco. Em resposta à ofensiva imperialista sem precedentes da administração Donald Trump, diversos países europeus já falam em boicotar o Mundial-2026, que será disputado entre junho e julho, no Canadá, nos Estados Unidos e no México.
É uma reação à crise imposta por Trump em relação à ilha da Groenlândia, região autônoma do Reino da Dinamarca localizada no Oceano Ártico. O presidente norte-americano já afirmou que pode anexar o território groenlandês à força caso os dinamarqueses se recusem a negociar sua venda. Além disso, Trump chantageou oito países da Europa com uma tarifa de 10% a partir de 1º fevereiro – e, caso não haja acordo, de 25% a partir de 1º de junho.
A proposta de boicote à Copa já era aventada, mas em círculos menos influentes. Embora impopular no conjunto do Velho Continente, a medida não seria inédita em megaeventos esportivos – o próprio Ocidente, com os EUA à frente, se recusou em peso a participar da Olimpíada de 1980, em Moscou, na ex-União Soviética.
Mas a escalada trumpista levou o tema ao centro do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Em entrevista coletiva nesta terça-feira (20), Trump declarou que “não há mais volta” em sua ofensiva. Líderes como os presidentes da França, Emmanuel Macron, e da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declararam que o continente está “pronto para se defender”.
A Copa do Mundo entrou no radar da Europa porque Trump têm demonstrado um crescente interesse em usar o torneio para fins políticos e pessoais. A seu favor pesou, até aqui, a indulgência do presidente da Fifa, Gianni Infantino. Em dezembro, num gesto demagógico, Infantino concedeu a Trump o Prêmio da Paz e incentivou ainda mais a parceria entre Fifa e Casa Branca.
A proximidade entre as duas instituições não passou despercebida. Na sexta-feira (16), o deputado alemão Jürgen Hardt, da CDU (União Democrata Cristã), afirmou que talvez o Mundial seja “o último recurso para fazer Trump cair em si na questão da Groenlândia”.
A Alemanha é a seleção europeia que ostenta mais tradição em Copas, com quatro títulos mundiais e oito finais. Mesmo com a paixão dos alemães por futebol, 47% da população apoia um eventual boicote, conforme pesquisa recente do Instituto Insa. Se o país não for à Copa, crescem as chances de outras nações do continente aderirem à manifestação anti-Trump.
Parlamentares de partidos opostos no Reino Unido – como o conservador Simon Hoare e a trabalhista Kate Osbourne – endossaram a proposta. “Os EUA não deveriam poder participar do torneio, muito menos fazer parte de sua organização”, disse Kate.
Ao que tudo indica, o debate ficará mantido, por ora, na esfera parlamentar. O governo da Alemanha disse que a decisão final caberá à Federação Alemã de Futebol, o que foi visto de duas maneiras: 1) um apoio velado ao boicote, sem comprometer diretamente o Executivo; 2) uma tentativa de manter as negociações vias canais diplomáticos.
Em 2030, a Copa será promovida em seis países de três continentes, incluindo duas sedes europeias – Espanha e Portugal. Esta é uma cartada que a Fifa tem em mãos para impedir que o movimento pró-boicote se alastre para mais países.
Já Trump, ciente dos contra-ataques às suas agressões, disse nesta quarta (21) em Davos que não vai “usar força e poder excessivos” contra a Europa. “Não preciso usar a força, não quero usar a força, não vou usar a força. Tudo o que os EUA estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia”, afirmou. Segundo ele, a Casa Branca cobra “negociações imediatas”.
A Europa, por sua vez, quer preservar o resto de dignidade que lhe resta nas relações com os Estados Unidos. Caso o apoio popular ao boicote à Copa ganhe tração, uma deliberação política se tornará mais viável e interessante.
Originalmente publicado em vermelho.org.br
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