Fraude no BRB para favorecer Banco Master expõe diálogos e amplia cerco sobre Paulo Henrique Costa

 Mensagens de WhatsApp atribuídas ao ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, reforçam as suspeitas de que ele atuou diretamente para favorecer interesses do Banco Master dentro da instituição pública. As informações foram reveladas pelo jornal Estado de S. Paulo, com base em relatório de auditoria externa contratado pela atual gestão do BRB e encaminhado à Polícia Federal.

Segundo a apuração, os diálogos tratam de um processo de aumento de capital realizado em maio de 2024, no qual o BRB captou R$ 290 milhões de investidores privados por meio de fundos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro e à gestora Reag, também associada ao universo do Master. A investigação sustenta que o procedimento foi cercado de irregularidades e se tornou alvo de um inquérito específico da Polícia Federal.

Paulo Henrique Costa foi preso na semana passada por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, sob a suspeita de ter aceitado uma oferta de R$ 146 milhões em imóveis de luxo para beneficiar o Banco Master durante sua passagem pelo comando do BRB. A Segunda Turma do STF deve analisar, em sessão virtual a partir desta quinta-feira, 22, a manutenção da prisão.

A defesa de Costa negou irregularidades. Em manifestação ao jornal Estado de S. Paulo, o advogado Cléber Lopes afirmou: “O Banco Central examinou toda a documentação e aprovou o aumento de capital”. A defesa de Daniel Vorcaro não havia se manifestado até a publicação da reportagem original.

Mensagens apontam interferência direta

De acordo com as investigações, Paulo Henrique Costa teria definido pessoalmente quais fundos de investimento fariam os aportes no aumento de capital do BRB, todos com vínculos com o Banco Master, sem transparência e sem critérios objetivos. As mensagens obtidas pela auditoria mostram o então presidente orientando subordinados sobre a divisão dos aportes e os valores a serem mobilizados.

Em uma das conversas, ele escreveu: “Vai dividir em três veículos. Por favor, faça uma nova de 250 mm (milhões)”. Para os investigadores, o conteúdo indica participação direta na modelagem da operação e reforça a suspeita de interferência indevida em uma transação de grande porte dentro do banco estatal.

O relatório da auditoria é categórico ao apontar anormalidade no processo decisório. Segundo o documento, “as comunicações internas registram que os nomes dos fundos e os quantitativos de ações a subscrever foram informados diretamente pelo então presidente do BRB à equipe técnica”. O texto acrescenta que essa “centralização decisória, anômala para operações dessa envergadura, sugere coordenação prévia entre os veículos subscritores e reduz a transparência típica das alocações em aumentos privados”.

Triangulação com intermediários

Pela regra do aumento de capital, os fundos ligados ao Master não poderiam participar diretamente da operação, já que ela era aberta apenas a acionistas do BRB. A apuração, porém, aponta que a gestão de Paulo Henrique Costa teria montado uma engenharia financeira para viabilizar os aportes de forma indireta, por meio de acionistas que funcionariam apenas como intermediários.

A auditoria afirma ter identificado que o então presidente solicitou aos subordinados a relação de acionistas aptos a participar da operação, justamente para usá-los como ponte para a entrada dos recursos oriundos dos fundos vinculados ao Master. Para os investigadores, essa estrutura tinha como finalidade contornar as regras formais do processo.

O relatório descreve essa configuração como uma “arquitetura de triangulação com pessoas físicas intermediárias, viabilizando a tomada de sobras por veículos que não eram acionistas na data de corte, isto é, em 17/05/2024”. Ao fim da operação, foram confirmados aportes dos fundos Borneo, Delta e Verbier, num total de R$ 290 milhões.

Segundo a reportagem, o fundo Borneo era administrado pela Reag e tinha como beneficiários familiares do empresário João Carlos Mansur, ligado à gestora. O Delta era administrado pela Master Corretora, enquanto o Verbier pertencia a um ex-sócio do Banco Master. A auditoria também apontou indícios de que Paulo Henrique Costa teria determinado a assessores jurídicos contratados pelo BRB a elaboração das minutas dos contratos entre os intermediários e os fundos responsáveis pelos aportes.

Suspeita de apoio às operações do Master

A Polícia Federal suspeita que os aumentos de capital conduzidos por Paulo Henrique Costa, que teriam somado R$ 1 bilhão, serviram para dar sustentação às aquisições bilionárias de carteiras de crédito fraudulentas do Banco Master. Ao final desses processos, acionistas vinculados ao Master passaram a deter 23,5% de participação acionária no BRB.

Esse ponto é central para os investigadores porque indicaria que a ampliação da presença de grupos ligados ao Master no capital do banco público ocorreu em meio a um ambiente de favorecimento interno, sem os mecanismos esperados de governança, controle e transparência.

Atual gestão fala em operações “açodadas”

Em outra frente, a atual gestão do BRB afirma que o banco foi levado a adquirir carteiras de crédito do Banco Master sem a devida diligência prévia, em operações classificadas como apressadas e lesivas ao patrimônio público. O documento apresentado à Justiça do Distrito Federal sustenta que, entre julho de 2024 e outubro de 2025, o BRB comprou carteiras de crédito do Master e do Will Bank, instituição que já foi ligada ao Master e acabou liquidada em janeiro deste ano, num total de R$ 26 bilhões.

No texto, a direção atual do banco afirma: “A antiga gestão do BRB conduziu, a partir de julho de 2024 e com maior intensidade ao final do segundo semestre do mesmo ano, operações sucessivas e açodadas de aquisição de carteiras de crédito do Banco Master, sem as devidas diligências prévias, fiando-se em declarações contratuais do Master acerca da existência, validade e regularidade dos créditos”.

O relatório prossegue com acusações graves e afirma que essas carteiras posteriormente se revelaram, em sua maioria, “créditos podres” e/ou inexistentes. Ainda segundo o documento, “a contratação foi feita de forma célere, não justificada e sem as devidas cautelas, em volumes elevados e com tempo exíguo entre a decisão e a efetiva conclusão das operações, contribuindo para a formação de concentração patrimonial relevante em lapso temporal reduzido”.

BRB cobra ressarcimento judicial

Com base nas conclusões da auditoria externa, o BRB ingressou com ação cível na Justiça do Distrito Federal pedindo que Daniel Vorcaro e outros envolvidos nas supostas fraudes sejam condenados ao ressarcimento integral dos prejuízos causados ao banco público. O valor exato ainda está sendo calculado.

A atual gestão sustenta que o Master teria deixado de atuar como instituição financeira em atividade regular para se converter em “instrumento de fraude estruturada, deliberadamente utilizado para lesar o BRB”. Até o momento, não havia decisão judicial sobre o pedido de ressarcimento.

O caso amplia a crise em torno da antiga direção do BRB e aprofunda as suspeitas de que estruturas internas do banco estatal teriam sido utilizadas para favorecer interesses privados, em um esquema que agora envolve suspeitas de propina milionária, triangulação financeira e aquisição de ativos sem lastro adequado.

Com informações do Brasil247

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