Ceilândia em Alerta — O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, teria participado de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, em julho de 2020, durante a pandemia de Covid-19, acompanhado de empresários e garotas de programa. Segundo reportagem da revista piauí, publicada em outubro de 2026, o parlamentar também teria recebido um relógio Rolex de presente de um dos empresários presentes. O episódio volta a levantar questionamentos sobre as relações do senador com empresários que buscavam negócios com o governo federal durante a gestão de seu pai, Jair Bolsonaro.
A reportagem reconstruiu o encontro a partir de depoimentos, registros de voos, documentos obtidos por comissões parlamentares de inquérito e entrevistas com pessoas ligadas ao caso. Entre os participantes citados estão Danilo Trento, então diretor institucional da Precisa Medicamentos, e Francisco Maximiano, proprietário da empresa que representava o laboratório indiano Bharat Biotech nas negociações da vacina Covaxin.
Passeio ocorreu durante a crise sanitária
De acordo com a piauí, o encontro aconteceu em 17 de julho de 2020, quando o Brasil enfrentava a pandemia e já contabilizava dezenas de milhares de mortes provocadas pelo coronavírus.
A revista relata que empresários e outras pessoas viajaram de São Paulo para Brasília em um jato executivo na noite anterior ao passeio. O grupo teria se hospedado em um hotel da capital antes de seguir para a lancha, na manhã seguinte.
Flávio Bolsonaro teria chegado à embarcação acompanhado de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio em uma franquia da rede Kopenhagen. A reportagem afirma que o grupo percorreu o Lago Paranoá e fez uma parada em um restaurante flutuante, onde foram comprados alimentos e bebidas.
Segundo os relatos reunidos pela revista, o senador teria descido à cabine da lancha acompanhado de uma das mulheres presentes. Essas informações são atribuídas à apuração jornalística e aos depoimentos consultados pela publicação.
Reportagem aponta entrega de relógio Rolex
Outro ponto destacado pela revista é a suposta entrega de um relógio Rolex ao senador no encerramento do passeio. Conforme a reconstrução publicada, Danilo Trento teria retirado o relógio do próprio pulso e colocado o objeto no braço de Flávio Bolsonaro.
A relação de Trento com a Precisa Medicamentos chamou a atenção da publicação porque a empresa participou das negociações para fornecer ao Ministério da Saúde a vacina Covaxin, durante a gestão de Jair Bolsonaro.
A reportagem também menciona uma apuração anterior do site PlatôBR sobre outro episódio em que Flávio teria recebido um relógio Rolex. Segundo a piauí, tratava-se de um modelo diferente, avaliado em R$ 305 mil e relacionado a outro contexto. Os relatos não demonstram que os dois relógios fossem o mesmo objeto.
Relação com as negociações da Covaxin
A Precisa Medicamentos esteve no centro de questionamentos durante a CPI da Pandemia, realizada em 2021, por sua atuação nas negociações para a compra da Covaxin pelo governo federal.
O contrato previa a aquisição de doses da vacina indiana, mas acabou não sendo executado, e não houve desembolso inicial de recursos públicos. As negociações foram investigadas diante de suspeitas de irregularidades.
Durante os trabalhos da CPI, Flávio Bolsonaro manifestou apoio à atuação da empresa e elogiou publicamente a representante da Precisa em uma sessão parlamentar. O relatório final da comissão recomendou o indiciamento de diversas pessoas, incluindo Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano. Uma recomendação de indiciamento feita por uma comissão parlamentar não equivale a uma condenação judicial.
Reunião no BNDES também é citada
A piauí relata ainda que, em outubro de 2020, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião virtual com o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, para apresentar Francisco Maximiano e outro executivo interessados em um projeto de telecomunicações.
O senador reconheceu ter solicitado a reunião e afirmou que pretendia apresentar uma proposta para ampliar o acesso à internet nas regiões Norte e Nordeste. Segundo o relato, nenhum financiamento chegou a ser contratado pelo BNDES.
A reportagem considera o encontro parte do contexto das relações entre o parlamentar e empresários interessados em oportunidades de negócios com órgãos públicos. A existência da reunião, por si só, não comprova irregularidade.
O tema se soma a outros questionamentos envolvendo a campanha do senador e pessoas de seu entorno, como os possíveis efeitos políticos de investigações acompanhados por aliados, abordados pelo TaguaCei na reportagem sobre os receios da campanha de Flávio Bolsonaro diante de investigações.
Revista afirma ter procurado os envolvidos
Para elaborar a reportagem, a piauí afirma ter consultado registros e documentos relacionados aos participantes, além de ouvir pessoas que teriam conhecimento dos acontecimentos. A publicação também relata ter procurado Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e representantes de Francisco Maximiano para obter posicionamentos.
Segundo a revista, Flávio não havia se manifestado até o fechamento do texto. Trento teria interrompido a comunicação após ser informado dos detalhes da apuração, enquanto os advogados de Maximiano não responderam dentro do prazo estabelecido pela publicação.
As informações divulgadas pela revista levantam questões sobre a convivência entre o senador e empresários interessados em contratos públicos durante a pandemia. As alegações sobre a festa e o presente, contudo, devem ser compreendidas como relatos de uma investigação jornalística, e não como fatos estabelecidos por uma decisão judicial.



