Diante da crise mundial em curso, com um xerife norte-americano ameaçando o planeta, figura típica de filme barato, mas investido do poder bélico de ocupar a Presidência dos Estados Unidos, o notável grupo organizador — em especial Carol Proner e Prudente — promove há longos 16 anos o Seminário da Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha, na Espanha. Um dos temas escolhidos para este ano é: “Nuevo desorden global y el fin de los acuerdos internacionales”.
Soava quase como uma premonição do que hoje se desenrola. Tenho sido convidado a falar em Sevilha nos últimos anos e decidi apresentar algumas provocações para reflexão.
No mesmo dia do debate na Espanha, o presidente Trump levou a Davos a ousada e descabida proposta de um Conselho da Paz no qual ele próprio figuraria como presidente permanente. Convidou 60 países e teve a desfaçatez de declarar que o objetivo seria a reconstrução de Gaza e que, em seguida, o conselho permaneceria ativo para solucionar outros conflitos. Trata-se de uma tentativa pueril de enfraquecer a ONU e, mais uma vez, de assumir protagonismo nas questões internacionais orientado por interesses financeiros. O Brasil precisa preservar sua dignidade e não respaldar essa proposta autoritária e perigosa.
No início da minha fala, recordei Umberto Eco: “Quando o fascismo voltar, ele não dirá ‘eu sou o fascismo’. Ele dirá ‘eu sou a liberdade’.” Esse é um dos grandes dramas do nosso tempo. O presidente Trump, com a obtusidade e a prepotência que lhe são próprias, discursa em nome da liberdade.
Vai além: sustenta que ele e os Estados Unidos, que diz carregar nas costas, seriam os únicos capazes de salvar o mundo e alcançar a paz global. Algo bizarro e teratológico, mas alarmante, vindo de quem governa um país que vive um visível declínio, mas ainda uma potência perigosa.
Uma das provocações que apresentei na palestra em Sevilha, e que já havia levantado no Brasil, foi a seguinte: por que Trump passou a assumir de forma tão explícita essa atitude belicista, baseada no uso da força e na guerra aberta, sendo que, até então, embora autoritário, não se destacava como um senhor das guerras? Há diversas hipóteses, algumas delas cumulativas.
O colapso da hegemonia norte-americana é um fator central a considerar. Com os Estados Unidos perdendo força e influência, o imaginário nacional tende ao delírio. Trump, evidentemente, busca ocupar esse vazio recorrendo ao que mais agrada ao norte-americano médio: a exibição de poder e força.
É preciso reconhecer que grande parte da população norte-americana é pouco instruída, banal e conservadora. Em um momento de crise interna profunda, a forma mais eficaz de mobilizá-la é ostentar poder, insistindo na ideia de que os EUA ainda dominam o mundo. Não importa que isso não corresponda aos fatos; eles acreditarão. Trata-se de uma sociedade pouco informada sobre o exterior, voltada para si mesma. Lamentável.
Existem, evidentemente, outras hipóteses para a empreitada dominadora de Trump, entre elas a tentativa de escapar a um eventual processo de impeachment relacionado ao escândalo da pedofilia. O caso Epstein Files continua a assombrar muita gente ao redor do mundo. E, segundo os principais jornais norte-americanos, o pederasta Jeffrey Epstein ainda renderá revelações, mesmo tanto tempo depois de sua morte.
Contudo, o que realmente importa é o que Trump vem fazendo com o mundo: uma atuação autoritária, imperialista, fascista e desprovida de qualquer pudor, sem compromisso com parâmetros mínimos de convivência entre as nações.

Considero essencial atentar para a declaração do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em Davos, ao reconhecer que a ordem internacional baseada em regras está, na prática, morta. Segundo ele, todos sempre souberam disso, mas aceitavam ficar por conveniência. Carney ainda apelou para que líderes mundiais e empresas passassem a chamar “a realidade” pelo nome.
Essa fala me marcou, pois o discurso do fascista Trump traz um único elemento realmente novo: ele assume abertamente que pretende invadir outros países — e o faz. Sustenta que os Estados Unidos podem recorrer à força para qualquer finalidade, da legítima à criminosa.
Rasgou a máscara da hipocrisia e reconheceu que tudo se resume a poder e economia. Trata-se de um novo jogo, não apenas nos Estados Unidos, mas também entre os Trumps tupiniquins. Por aqui, as fantasias também vêm sendo arrancadas. A democracia está sob ataque em escala global. Cabe a nós resistir.
Recordo, por fim, o velho democrata Ulysses Guimarães, em seu discurso histórico de 5 de outubro de 1988, ao promulgar a Constituição Cidadã: “Temos ódio à ditadura”.
Originalmente publicado em DCM
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