Início Política No Congresso, bolsonarismo tentará desgastar Lula pela segurança pública
Política

No Congresso, bolsonarismo tentará desgastar Lula pela segurança pública

Direita reduz projetos sobre aborto e costumes e aposta na segurança pública para pressionar Lula no debate eleitoral

Compartilhar
Compartilhar

O bolsonarismo fará uma mudança estratégica no Congresso e vai reduzir a centralidade da chamada pauta de costumes e concentrar esforços no tema da segurança pública, considerado um dos pontos mais sensíveis do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação interna é de que o assunto tem maior ressonância junto ao eleitorado e pode ampliar o desgaste do Palácio do Planalto em um momento de reorganização pré-eleitoral, relata o jornal O Globo.

Dados coletados a partir das proposições apresentadas na Câmara dos Deputados evidenciam a inflexão no discurso. Entre 2023 e 2024, foram protocolados 48 projetos relacionados à proibição do aborto, um dos eixos tradicionais da direita. Em 2025, esse número caiu para 14. A retração também atingiu iniciativas de caráter simbólico, como propostas contra a linguagem neutra e debates sobre ideologia de gênero, que perderam espaço na agenda legislativa.

Enquanto essas pautas perderam tração, a oposição intensificou o embate em torno de projetos ligados à segurança pública. Um dos focos passou a ser o projeto de lei conhecido como Antifacção, apresentado pelo governo Lula. A proposta foi aprovada na Câmara em versão diferente da defendida pelo Executivo, sofreu alterações no Senado e agora retornará para nova análise dos deputados. Outro ponto de disputa é a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública, formulada pelo agora ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e modificada pelo relator Mendonça Filho (União-PE). A votação ficou para fevereiro, com a retomada dos trabalhos legislativos.

Além da queda no volume de propostas, projetos de costumes que haviam avançado em 2024 acabaram paralisados, perderam relatoria ou deixaram de ser pautados. Um exemplo é o texto que equipara o aborto após 22 semanas ao crime de homicídio. Apesar de ter obtido regime de urgência, a proposta nunca teve seu mérito analisado. Situação semelhante ocorre com a PEC que criminaliza o porte de drogas, aprovada pelo Senado em abril de 2024 e ainda pendente de votação na Câmara.

Em 2025, apenas uma iniciativa diretamente vinculada à agenda de costumes avançou no plenário. Em novembro, a Câmara aprovou o projeto que susta uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) sobre o acesso de crianças e adolescentes ao aborto legal nos casos previstos em lei. A proposta foi aprovada por 317 votos a favor, 111 contra e uma abstenção, com 83 ausências. Na prática, a derrubada da resolução pode dificultar o acesso de menores vítimas de estupro ao procedimento, autorizado no Brasil em situações de violência sexual, risco de vida para a gestante e anencefalia do feto.

A votação foi impulsionada pelo PL, que orientou voto unificado de sua bancada, somando 74 votos favoráveis, e contou com apoio expressivo de partidos do Centrão. PSD, Podemos, Novo, PRD e Cidadania votaram integralmente a favor entre os presentes, enquanto União Brasil, PP, Republicanos, MDB e PSDB registraram ampla maioria de votos favoráveis. Apesar do impacto concreto e simbólico, parlamentares e analistas avaliam que o episódio foi mais uma exceção do que um indicativo de retomada da agenda conservadora.

Parlamentares reconhecem que a perda de espaço da pauta de costumes está associada à fragmentação da direita e à redefinição de prioridades do PL, maior bancada da Câmara. Desde o início do ano, a legenda concentrou esforços na tentativa de aprovar a anistia a investigados e condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, o que acabou deslocando outras bandeiras históricas e aprofundando divergências internas.

No Senado, parlamentares conservadores citam como exemplo de atuação a rejeição do pedido de urgência para o projeto que libera cassinos, bingos, jogo do bicho e apostas em corridas de cavalos no Brasil. No mês passado, o plenário derrubou a urgência por 36 votos a 28, impedindo a tramitação acelerada da proposta. 

Para a deputada Bia Kicis (PL-DF), o avanço limitado da pauta de costumes em 2025 está relacionado à concentração do Congresso em outros temas. “A anistia e a segurança pública acabaram ocupando o centro da agenda. A pauta da segurança pública andou muito bem. Em relação aos temas de costumes, a gente continua brigando por eles, só não conseguimos avançar”, afirmou.

Na avaliação da cientista política Graziella Testa, da Fundação Getulio Vargas, a perda de fôlego dessas propostas também revela limites de aceitação social. “Houve um momento em que se tentou endurecer regras do aborto em casos de estupro, isso ganhou muita visibilidade e pesquisas mostraram que a maioria da população preferia manter a legislação como está. Isso revela um limite do reacionarismo. A sociedade brasileira é conservadora, mas há um teto até onde isso reverbera e traz retorno eleitoral”, analisou.

O pesquisador André Ítalo Rocha, autor do livro A bancada da Bíblia, avalia que a direita concentrou energia em uma agenda de baixa aceitação popular, empurrando a pauta de costumes para segundo plano. Segundo ele, esses temas tendem a reaparecer mais adiante, especialmente em 2026, menos por meio de projetos legislativos e mais como discurso político mobilizador, sobretudo entre parlamentares evangélicos. “A pauta de costumes não saiu de cena, mas deve voltar mais perto da eleição, principalmente no discurso, quando a anistia já não for mais uma opção”, afirmou.

Originalmente publicado em brasil247

Quer ficar por dentro do que acontece em Taguatinga, Ceilândia e região? Siga o perfil do TaguaCei no Instagram, no Facebook, no Youtube, no Twitter, e no Tik Tok.

Faça uma denúncia ou sugira uma reportagem sobre Ceilândia, Taguatinga, Sol Nascente/Pôr do Sol e região por meio dos nossos números de WhatsApp: (61) 9 9916-4008 / (61) 9 9825-6604.

  • Encurralado pela economia global, Trump vê ‘colapso da hegemonia dos EUA’ com continuidade da guerra

    Encurralado pela economia global, Trump vê ‘colapso da hegemonia dos EUA’ com continuidade da guerra

    O impasse entre Estados Unidos e Irã, com a prorrogação do cessar-fogo nesta quarta-feira (22) após pedido do mediador Paquistão, parece longe de um desfecho, com o tensionamento da disputa de controle do Estreito de Ormuz cada vez mais acirrado. Uma negociação para o fim da guerra, diante do atual cenário, é pouco provável. Essa…


  • Lula diz que vai levar jabuticaba para “acalmar” Trump

    Lula diz que vai levar jabuticaba para “acalmar” Trump

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende levar jabuticaba ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como forma de “acalmá-lo”, ao comentar o potencial agrícola brasileiro durante evento em Planaltina, no Distrito Federal. A declaração ocorreu em meio a uma agenda voltada à valorização da produção nacional e da agricultura familiar. Durante…


  • STM autoriza coleta de dados sobre trajetória de Bolsonaro no Exército

    STM autoriza coleta de dados sobre trajetória de Bolsonaro no Exército

    O ministro Carlos Vuyk de Aquino, do Superior Tribunal Militar (STM), acolheu nesta quarta-feira (22) pedido feito pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para que as Forças Armadas enviem documentos sobre a trajetória dele no serviço militar. Os documentos deverão ser remetidos ao STM para auxiliar no julgamento que vai decidir se Bolsonaro será expulso do Exército em função…


Compartilhar
Artigos Relacionados

Lula diz que vai levar jabuticaba para “acalmar” Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende levar jabuticaba...

Governo descarta criação da Terrabras e prioriza setor privado

O governo Lula (PT) decidiu não avançar com a proposta de criação...

Lula participa da abertura da Feira Brasil na Mesa e celebra os 53 anos da Embrapa

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa, nesta quinta-feira (23), da...

Governo Lula prepara ofensiva contra fake news sobre o fim da escala 6×1

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou o monitoramento...