Lula discute mudanças no crédito rotativo para conter endividamento das famílias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a defender alterações nas regras do crédito rotativo do cartão diante do avanço do endividamento das famílias brasileiras e de seus efeitos sobre o cenário político e econômico. O tema foi tratado em reuniões recentes com integrantes do governo, que avaliaram os impactos negativos do alto nível de dívidas sobre a percepção da população em ano eleitoral, conforme reportagem da Folha de São Paulo.

De acordo com o diagnóstico apresentado ao presidente, o comprometimento crescente da renda com o pagamento de dívidas tem levado muitas famílias a terminarem o mês sem recursos, o que amplia o descontentamento mesmo em um contexto de melhora de indicadores como emprego, renda e inflação. Auxiliares do governo avaliam que os ganhos econômicos têm sido anulados pelo peso das obrigações financeiras.

Dados do Banco Central indicam que, desde outubro de 2025, as famílias destinam cerca de 29% de sua renda ao pagamento de dívidas — o maior percentual em ao menos duas décadas. A inadimplência entre pessoas físicas é puxada principalmente pelo crédito rotativo do cartão, que registrou taxa de 63,5% em janeiro.

Essa modalidade de crédito segue como uma das mais caras do mercado, com juros médios de 14,81% ao mês — patamar superior à taxa Selic anual, atualmente em 14,75%. Pelas regras vigentes, o total de juros e encargos no rotativo e no parcelamento da fatura não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida, limite estabelecido em 2024. Na prática, uma dívida de R$ 100 não pode superar R$ 200 com juros e encargos. Ainda assim, integrantes do governo consideram que a medida não foi suficiente para conter o problema.

Entre as propostas em análise está a revisão dos critérios para definição dos limites do crédito rotativo, defendida pela ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), e pelo ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira. O governo também estuda ações para reduzir os juros do consignado privado, voltado a trabalhadores com carteira assinada.

Uma das alternativas discutidas é estabelecer parâmetros que considerem abusivas taxas acima de determinado nível médio, funcionando na prática como um teto para os juros. Além disso, está em pauta a regulamentação do uso do saldo do FGTS como garantia para esse tipo de empréstimo, medida que pode contribuir para reduzir o custo do crédito.

Representantes do setor financeiro ouvidos pela reportagem avaliam que eventuais propostas para redução de juros podem ter baixa resistência no Congresso em um contexto eleitoral, a exemplo de iniciativas recentes. Também não está descartada a revisão das regras do cheque especial, que atualmente limitam os juros a 8% ao mês.

No passado, o governo chegou a considerar a imposição de um teto de juros para o cartão de crédito, mas a proposta foi abandonada após estudos do setor financeiro indicarem que a medida poderia levar ao cancelamento de milhões de cartões e impactar o consumo.

A ministra Gleisi Hoffmann criticou publicamente as taxas do crédito rotativo. Em publicação nas redes sociais, afirmou: “Se a taxa Selic é vergonhosa a taxa de juros do cartão de crédito rotativo é criminosa: uma Selic ao mês! O parcelado no cartão paga juros de 9,43% e o cheque especial 7,52% ao mês. Sem falar de outros empréstimos, inclusive os consignados”.

Apesar das iniciativas já adotadas, como o programa Desenrola para renegociação de dívidas, técnicos da equipe econômica avaliam que as medidas ainda não enfrentaram os problemas estruturais relacionados ao modelo de expansão do crédito no país.

Com informações do Brasil247

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